23 de maio de 2017 | Sociedade | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
“Parabéns, mãe, você é uma guerreira!” – Dez coisas que as mães têm a dizer sobre isso

Quando chega o Dia das Mães, é bem comum que a gente reflita sobre a importância das nossas mães nas nossas vidas, ou sobre a importância de ser mãe, caso sejamos ou pretendamos ser. O que se costuma dizer é que as mães são verdadeiras “guerreiras”, mulheres que enfrentam várias dificuldades para conseguir conciliar muitas atividades e funções. Às vezes, é nessa data que cai a ficha sobre o trabalhão que dá ser mãe!

 

Mas o que será que as mulheres que são mães gostariam de dizer aos filhos (e ao mundão, por que não?) sobre essas “batalhas” do dia-a-dia?

 

Conversamos com algumas delas, vem conferir!

 

 

1) De certo modo, somos guerreiras mesmo!

 

“É claro que todos nós sabemos que ser mãe por si só já é um ato de coragem. Sim! Coragem! Quando falamos de mães solo e periféricas, o termo “guerreira” ganha até mais sentido. Todos os dias travamos verdadeiras batalhas para sustentar e educar nossos filhos.” Luana de Oliveira, 35 anos, professora de geografia, moradora do Jardim Nakamura, extremo sul de São Paulo.

 

Quase todas as mães que colaboraram conosco contaram que o cotidiano é puxado mesmo!

 

 

2) Mas dizer que somos guerreiras também pode ser uma romantização da maternidade

 

“No dia a dia da maioria das mães, até mesmo aquelas que tem companheiros, existe a expectativa que elas equilibrem filhos, casa, carreira, etc, mas a verdade é que a maioria delas está cansada e fragilizada e se sente culpada por se sentir assim” Maitê de Lara Sanches, 30 anos, socióloga, Vila Mariana, São Paulo.

 

“A mãe guerreira para mim é a romantização da mãe que faz seu papel, o papel do pai e o papel da sociedade. A mãe sobrecarregada, que ainda sim precisa estar com um sorriso no rosto e orgulhosa por dar conta desta sobrecarga. (…) Eles estão a maior parte do tempo comigo, logo eu preciso suprir a casa, a educação, o carinho, o cuidado, a higiene, a alimentação e as contas. Eu fico cansada, muitas vezes nada sai por inteiro ou num nível satisfatório. E sou admirada por fazer tudo isso. Mas se algo evidencia alguma negligência perante terceiros, muitos dedos são apontados. ” Luciana Ribeiro, 30 anos, doula, da Zona Norte de São Paulo.

 

É bacana reconhecer os esforços das mães, mas será que isso não é mantê-las sobrecarregadas? Pelo que elas disseram, seria melhor não precisar ser essa “guerreira”.

 

 

3) Se tornar mãe é ir de “sexo frágil” a “guerreira”

 

“A mulher que se torna mãe passa rapidamente do sexo frágil, quase incapaz de cuidar da vida sozinha, para aquela que tem que dar conta de tudo e mais um pouco e, na boa, ninguém tem toda essa força. Não sem adoecer, não sem se frustrar, não sem deixar de lado os sonhos.” Gabriella, 26 anos, advogada.

 

Já pararam para pensar nisso? É muito comum duvidarem da capacidade das mulheres, mas de repente, quando nos tornamos mães, passamos a ser super-heroínas?

 

4)  Não somos perfeitas, e nem temos que ser

 

“É fácil passar de boa mãe para displicente, basta um pequeno deslize, como, por exemplo, esquecer a lição de casa (o que ocorreu comigo outro dia). Aí, ninguém vê que eu acordo 6h da manhã, me troco, troco minha filha, levo para a escola, vou para o trabalho, busco na escola, levo no futebol, levo na natação, faço janta, dou banho, coloco para dormir, passo o uniforme” Gabriella.

 

Querer dar conta de tudo o tempo todo é muito cansativo, não é? Para as mães, também. E não tem problema não dar conta de tudo.

 

 

5) Dia das Mães é todo dia mesmo!

 

“Atualmente, ela é incentivada a me fazer feliz no segundo domingo de maio, mesmo que eu reforce que fico feliz quando nossa parceria dá certo, quando cuidamos uma da outra, quando a gente se diverte juntas por aí… (…) No tal domingo faço tudo para que a normalidade prevaleça. A gente almoça o de sempre, a gente assiste algum filme, trançamos o cabelo dela e a vida segue sem sucumbir à pressão existente pra me enaltecer pela maternidade. Eu sei que faço um bom trabalho, que ofereço o que há de melhor pra que ela possa se tornar uma cidadã…” Cristiane Moscou, 42 anos, educadora, São Mateus.

 

“Desde que eu sou pequena, os presentes que fazíamos na escola eram todos simbolizando o lugar da mãe: dentro de casa, zelando pela família e se anulando como mulher. Eu também não quero um dia para ser adulada, homenageada por tudo que faço durante o ano todo. Minha satisfação em cuidar deles enquanto eles precisam de mim da maneira como ainda precisam não é cobrar em um dia que eles me falem o quanto me amam, mas que, o que eu faço, o que nós fazemos em conjunto seja reflexo das pessoas que eles podem se tornar com a minha presença”. Luciana Ribeiro.

 

Parece que as mães também são serumaninhos, né? Então, como podemos fortalecê-las no dia-a-dia? Ninguém melhor do que elas mesmas pra responder mais essa!

 

 

6) Direitos básicos: políticas públicas, salários iguais

 

“Política pública é uma pauta. Também precisamos de salários equivalentes. Ganhando menos e sendo chefe de família, nossa condição sempre beira à precariedade.” Cristiane Moscou.

 

Pois é, no Brasil as mulheres ganham aproximadamente 30% a menos que os homens de mesma idade e nível de instrução, um quadro que fica ainda mais desigual se considerarmos recortes raciais.

 

 

7) E outro básico que nem sempre percebemos: não excluir as mulheres porque se tornaram mães

 

“As pessoas podem ajudar, inicialmente, não excluindo as mulheres simplesmente porque se tornaram mães. Essa exclusão começa desde que a mulher fica grávida e dura por longos anos… Elas deixam de ser convidadas para eventos sociais, casa de amigos e observe: quantas mães você encontra na universidade? Quantas mães estão fazendo graduação, mestrado ou doutorado?

Quanto aos filhos, é um processo longo de desconstrução, porque eles também são ensinados desde que nascem que quem deve cuidar deles é a mãe e qualquer coisa diferente disso é vista como abandono.” Luana de Oliveira.

 

Aliás, já tivemos um texto aqui na revista sobre as mães no meio acadêmico/escolar!

 

 

8) Quebrar o ciclo da ideia de perfeição, que é passado de geração em geração!

 

“Hoje, (…) não me sinto um monstro de esquecer a lição. (…) E eu quero que ela aprenda comigo… Não quero que ela seja uma mãe-maravilha, e nem uma guerreira. Quero que ela seja leve, e também passe aos filhos que a mãe, acima de tudo, é um ser humano.” Gabriella.

 

“Minha mãe é uma dessas mães guerreiras, que não teve nenhuma ajuda do meu pai, nem emocional e tampouco financeira, mas que também não teve ajuda da família, pois todos acreditam sempre que quem pariu Matheus que o embale, não é mesmo?” Maitê de Lara Sanches.

 

 

9) Entender que as crianças são responsabilidade de todas as pessoas!

 

“Cooperação. (…) quando a gente enterrar o ditado “quem pariu Mateus, que balance!” e colocar em prática “é preciso toda uma aldeia pra educar uma só criança” a gente vai perder menos mulheres e crianças. Eu não estranho uma mulher surtar ou sucumbir diante de tanto obstáculo. O fardo é jogado em nossas costas, e o fracasso esperado, desejado.” Cristiane Moscou.

 

“Acredito que essa data devia servir para refletirmos e questionarmos o papel do pai e até mesmo da sociedade na maternidade. Também penso que devíamos ter liberdade de escolher se queremos assumir esse papel ou não, sem sermos condenadas quando o negamos.” Luana de Oliveira.

 

A liberdade de escolher ser mãe também já foi tema aqui na Capitolina!

 

 

10) O fardo não são os filhos, mas o modo como ainda se pensa a maternidade

 

“Não quero ser a mãe que cobra com juros cada sacrifício que eu fiz. Quero ser a mãe que tem sua vida individual satisfatória o suficiente para ter satisfação em cuidar dos filhos. Uma pessoa de presença para eles, mas antes de tudo, de presença para mim mesma.” Luciana Ribeiro.
E não é isso que faz bem pra todas nós, ser uma pessoa de presença pra gente mesma antes de tudo: antes de ser filha, amiga, irmã, estudante, profissional etc? Com as mães não há de ser diferente. Além de tudo, como a maravilhosa youtuber Hel Mother diz muito, o negócio é ser uma mãe possível. Pelo que aprendi com as mães que conheci, elas também são mães possíveis, apesar das cobranças, das desigualdades e dos ideais espalhados por aí… Que tal tornarmos essa possibilidade mais agradável pra geral? As mães, as/os filhas/os e a sociedade agradecem!

Izabela Nalio Ramos
  • Colaboradora de Sociedade

Izabela, paulistana que às vezes queria voar por aí, mas tenho um Sol em câncer que fala alto. Já quis ser cantora, sereia, nadadora, jornalista e professora. Hoje, sou cientista social e antropóloga, e nos últimos anos trabalhei como pesquisadora em temas que amo: manifestações culturais, juventude, feminismos e relações raciais, de classe, gênero e sexualidade, tentando misturar Brasil com Egito e aproximar vários interesses. Sou daquelas que acredita que educação e arte/cultura podem ser meios de transformação, e que fica com brilhinho nos olhos quando vê isso rolando. Também adoro descobrir músicas, receitas de comida gostosa, e ver memes, gifs e vídeos que a gente ama e respeita.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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