18 de janeiro de 2016 | Sem categoria | Texto: | Ilustração: Verônica Vilela
Paradoxo de Fermi ou “Onde está todo mundo?”

“Onde está todo mundo?” (ou “Onde eles estão?”). Foi o que Enrico Fermi, um físico italiano ganhador do Prêmio Nobel, supostamente perguntou em uma discussão com seus colegas durante um almoço, em meados do século passado. A conversa era sobre vida extraterrestre, e era a seres de outros planetas que Fermi se referia. Essa questão deu início a uma reflexão do físico e dos outros que almoçavam com ele, e posteriormente deu origem ao que chamam de Paradoxo de Fermi.

O Paradoxo de Fermi é a aparente contradição entre a grande probabilidade de haver alguma outra civilização tão avançada quanto ou mais avançada do que a nossa na Via Láctea (a galáxia na qual nosso planeta se encontra) e o fato de nunca termos tido contato com nenhuma. Mas como assim? Bom, na nossa galáxia há bilhões de estrelas e, dentre elas, o Sol não é nenhuma “última bolacha do pacote”; na verdade, ele é bem comum, muito parecido com grande parte delas. A maior parte dessas estrelas tem planetas, e pelo menos uma parte das estrelas são similares ao Sol (e lembrem que aqui é “uma parte” de bilhões de estrelas, o que ainda é bastante coisa) e tem planetas em zonas habitáveis – regiões da órbita da estrela nas quais é possível que haja água líquida nos planetas que lá se encontram -, o que possibilita que nestes haja vida. Se a Terra não for nenhum planeta muito especial, esses outros planetas semelhantes a ela desenvolverão vida, e muito possivelmente vida inteligente, que será capaz de desenvolver tecnologias, explorar a energia de seu próprio planeta, e alguns desses seres alienígenas serão até mesmo capazes de fazer viagens não só para outros planetas, mas também para outros sistemas solares, e através da galáxia. Mesmo que isso tudo demorasse milhões de anos para ocorrer, nossa galáxia tem bilhões de anos, então o que impediria que uma ou várias civilizações chegassem nesse ponto? E aqui chegamos ao paradoxo: se várias civilizações chegaram a esse ponto, por que não temos indícios de que nenhuma delas tenha visitado a Terra? ou mesmo indícios de que alguma outra civilização que não a nossa exista?

Mas como saberíamos se existisse outra civilização lá fora? Bom, além da possibilidade de que eles visitassem a Terra e deixassem vestígios aqui, existe um instituto chamado Instituto SETI, que justamente capta e processa sinais recebidos de nossa galáxia em busca de evidências de civilizações inteligentes. Isso vem sendo feito pelo SETI desde a década de 80 (mas mesmo antes disso já havia cientistas procurando decodificar sinais de rádio que vinham da galáxia), e até hoje não há nenhuma prova concreta de que existam seres extraterrestres. Então cadê todo mundo?

Acontece que, para saber qual a real probabilidade de haver alguma civilização avançada o suficiente para fazer viagens interestelares, não dá para trabalhar com uma hipótese tão abstrata quanto essa. Afinal, será que deveria mesmo haver tantas formas de vida inteligente por aí? Um astrônomo e astrofísico chamado Frank Drake tentou colocar essa mesma questão de uma outra maneira, e formulou algo que se chama “Equação de Drake”. Essa equação resulta no número de civilizações na nossa galáxia com as quais há possibilidade de nos comunicarmos. Ela é a multiplicação dos seguintes parâmetros: a) quantas estrelas se formam na nossa galáxia, em média, em um certo período; b) a fração dessas estrelas que tem planetas; c) a fração estimada de planetas que podem vir a ter vida por estrela que tem planetas; d) a fração de planetas que realmente desenvolvem vida dentre aqueles que tem esse potencial; e) a fração dos planetas com vida que terão vida inteligente; f) a fração dessas civilizações inteligentes que desenvolve tecnologia para emitir sinais que possamos detectar no espaço; g) o tempo durante o qual a civilização permanece emitindo sinais.

Acontece que esses parâmetros são bastante difíceis de calcular, especialmente os quatro últimos. Várias pessoas estimaram valores diferentes para eles, que deram resultados de que poderia haver desde menos de uma civilização como a nossa (que emite sinais para o espaço) por galáxia, até milhões de civilizações. Aqui temos então uma primeira resolução possível para o paradoxo: não há tantos planetas com vida inteligente na nossa galáxia, e talvez nem nas galáxias próximas, de forma que não há sinais na nossa vizinhança para detectarmos nem seres que visitaram nosso planeta. Essa hipótese, de que na verdade a vida ter surgido na Terra é uma coisa muito rara no Universo devido a uma combinação de fatores que tem pouquíssimas chances de ter acontecido mais de uma vez, chama-se “Hipótese da Terra rara”.

Em contraposição a essa hipótese há o “Princípio da mediocridade”, uma ideia do campo da filosofia da ciência que diz que na verdade haver vida na Terra não é nada de especial; nós, seres humanos, nosso planeta e nosso Sistema Solar não são anomalias no meio de um Universo tão grande. Tomando como verdadeiro esse princípio, caímos de novo no paradoxo. Dado que existem ou já existiram outras formas de vida inteligente, por que não temos evidências disso?

Uma outra opção bem simples é: claro que existem outras formas de vida, e há evidências disso sim, várias pessoas aqui na Terra já dizem que viram aliens, discos voadores e etc. Bom, isso pode ser considerado uma resolução do paradoxo também, mas infelizmente não vivemos em um episódio de Arquivo X; tudo o que temos para afirmar que já foram avistados seres de outros planetas são relatos, e na ciência não podemos simplesmente tomar isso como prova de que algo existe. Outra ideia parecida é a de que já fizeram contato conosco, mas o governo americano/a ONU/alguém não quer que a gente saiba. Por mais que essa seja uma teoria da conspiração interessante, eu pessoalmente não acho que seja verdade. Ia ser bem difícil um segredo desses não vazar, e acho que os extraterrestres iam ter tentado fazer contato de novo de outras formas e isso acabaria chegando no resto da sociedade.

Há algumas hipóteses que dizem que há sim vida extraterrestre, talvez até muito mais avançada do que nossa forma de vida, e que essas civilizações não interferem na Terra para permitir que nos desenvolvamos independentemente enquanto eles nos observam. Como se eles ficassem todos só observando, e quando formos maduros o suficiente (depois de alguns milhões de anos de evolução, talvez), eles virão se comunicar conosco. É uma ideia legal, mas o que impediria que apenas um alienígena decidisse ir contra essa ideia de “só observo” e se comunicasse com a gente? É difícil acreditar que, com vários deles aí fora, não haveria nenhum que faria algo assim.

Pode ser também que estejamos muito afastados espacial ou temporalmente de outras civilizações. Se eles estiverem muito longe, ou então tiverem existido há muito tempo, pode ser que ainda não tenhamos recebido sinais de sua existência. Ou então nós existimos e enviamos sinais há pouquíssimo tempo, e eles ainda não receberam, ou ainda não recebemos sua resposta. Pode ser, mas pensando que há várias outras civilizações como a nossa, pelo menos já teríamos sinais de alguma… Mas e se elas se comunicarem por meio de sinais que não temos tecnologia para detectar? Continuando com o pressuposto de que não são poucas as formas de vida que há por aí, não deveria ter pelo menos mais alguém que se comunica como nós?

Algumas outras especulações são de que a evolução da vida tem algumas barreiras a serem cruzadas. Pode ser que, por motivos naturais, a maioria das formas de vida seja extinta antes de chegar ao ponto de poder realizar viagens interestelares, e então estaríamos também quase chegando ao fim do nosso caminho evolutivo. Ou então todas as civilizações mais tecnológicas, quando chegam em um determinado ponto do seu processo de evolução, destroem a si mesmas, ou destroem umas às outras. Isso também explicaria porque ninguém nos visitou ainda…

Há muitas e muitas explicações possíveis para não termos notícia de nenhum outro lugar com vida na galáxia (e mesmo no Universo) a não ser a Terra. Porém, não temos ainda nenhuma ideia se alguma delas está certa, e isso é bastante difícil de ser comprovado. Mas não significa também que nunca saberemos. A ciência evolui, as tecnologias evoluem, e com isso o nosso conhecimento sobre o Universo e a vida que pode haver nele vai se modificando e se construindo. Não sei se alguém diria, algumas décadas atrás, que seríamos capazes de detectar planetas parecidos com a Terra em outros sistemas solares. Então quem sabe se não nos veremos batendo um papinho interplanetário daqui a algum tempo?

 

Bônus: algumas dicas de filmes/séries/livros sobre contato com seres extraterrestres:

Mariana Cipolla
  • Colaboradora de Ciência e Tecnomania
  • Revisora

Tem 21 anos, mora em São Paulo capital e adora café (mas sem qualquer infinitésimo de açúcar). Não acredita em signo, não gosta de fazer escolhas, tenta se planejar com antecedência e sonha em um dia conseguir terminar de ler todos os livros que tem. Estuda física, e queria que todas as pessoas pudessem se encantar com as maravilhas dessa ciência tanto quanto ela (queria conseguir ser uma boa divulgadora de ciência e/ou professora pra tornar isso um pouco mais possível). Mas acha que a ciência só vai ser completa quando houver mais mulheres cientistas e quando essas não forem estigmatizadas.

  • Erika

    A imensa quantidade de explicações possíveis para isso só me deixou ainda mais maravilhada! Um artigo muito legal para refletir sobre nossa própria existência

  • Erika

    A imensa quantidade de explicações possíveis para isso só me deixou ainda mais maravilhada! Um artigo muito legal para refletir sobre nossa própria existência

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos