11 de maio de 2014 | Estilo | Texto: | Ilustração:
A parte feia da beleza

Ilustração: Julia Oliveira

Sentir-se bonita não é fácil. Sentir-se bonita assumindo os nossos traços e contornos naturais é ainda mais difícil. E existe uma culpada pra isso tudo – não, não é você.  A culpada é a indústria da beleza, que ganha muito dinheiro (muito mesmo) em cima das nossas inseguranças – inseguranças criadas por essa mesma indústria, e sustentadas pela mídia.

Aí você pergunta: o que é a indústria da beleza? E eu respondo: é a indústria que vende roupas, cosméticos, comidas, remédios, enfim, tudo o que tem como fim deixar uma pessoa bem-apessoada. Assim como qualquer indústria, a da beleza também quer vender bastante para que o lucro seja grande. Para vender mais existe a propaganda, que cria na gente desejos de consumir coisas que muitas vezes são completamente dispensáveis. Ao criar um padrão de beleza, cria-se também a necessidade de ter uma aparência dentro desse padrão. Caso contrário, seremos considerados feios pela sociedade. Aí acabamos comprando todos os trecos criados pela indústria de beleza, porque ninguém gosta de se sentir feio, porque sentindo-nos feios, nos sentimos também inseguros, e insegurança faz com que nos sintamos mal. E me diz, quem é que quer se sentir mal? Sei lá, não conheço ninguém assim.

Nesse cenário, a mídia tem o papel de veicular essa propaganda, de espalhar pelos quatro cantos do mundo o padrão de beleza que é interessante para que se ganhe mais dinheiro. Isso é muito triste, pois arte e criatividade deveriam ser livres, não objetos submetidos ao mercado. Mas isso não significa que devemos desmerecer o trabalho de um estilista ou deixar de comprar um delineador de olhos azul turquesa. Só devemos ficar atentos ao oportunismo para que não soframos. O delineador de olhos azul turquesa é demais, mas não é uma necessidade, nem te torna melhor do que alguém que não tem esse produto.

Vou me arriscar agora numa tentativa de elucidar como funciona na prática isso tudo o que eu acabei de dizer.

Basicamente o que essa indústria faz é determinar que apenas duas ou três cores de uma caixa gigante de lápis de cor são bonitas – imaginei aquelas caixas glamurosas de quarenta e oito cores. Desesperados, os outros lápis fazem de tudo para ficar mais parecidos com a seleta casta da beleza.

O problema é que, por mais minuciosa que seja a mistura de amarelo com vermelho, é muito difícil chegar ao tom de laranja estipulado como padrão de beleza. E adivinha quem é que vende o amarelo pro vermelho ficar laranja? Sim! A indústria da beleza!

O lápis vermelho é tão bonito quanto o lápis laranja. É claro que há quem prefira vermelho e há quem prefira laranja, mas isso não significa que a beleza de um tem mais valor que a do outro.

Eu aposto que você não chegaria pra uma taturana e diria: ‘’Olha só, você só vai ser gatinha se virar um dromedário, porque só dromedários são descolados e sensuais. ’’ Você sabe muito bem que é impossível uma taturana virar um dromedário – apesar de ser 100% ok conversar com taturanas.

Então me responde: essa situação é menos bizarra do que essa porcaria de indústria metendo o dedo na nossa fuça e dizendo que a gente só vai se sentir bonita se for magra, branca, de cabelo liso e nariz pequeno? O nível de bizarrice é o mesmo.

Na escola ensina-se que o ser humano, assim como todos os seres vivos, apresenta grande multiplicidade genética, o que condiciona os mais diversos tipos de caracteres. Somos naturalmente variados, uma caixa de lápis de cor de quarenta e oito cores. Infelizmente, não conseguimos apreciar isso. Culpa da bendita, digo, da maldita indústria da beleza.

Devemos lutar contra essa gente que quer nos deixar vulneráveis pra se dar bem. É por isso que assumir nosso corpo, nossas feições e pêlos é um ato político: desse modo estamos dizendo que ninguém controla nossa aparência além de nós mesmas.

Afirmar-se bela é um exercício. Como aqueles complicados de álgebra: a gente vai bater a cabeça na parede, vai pedir ajuda pros colegas e professores, vai quase desistir. Dá um trabalhão, mas se a gente tentar e insistir, uma hora acontece!

É possível aprender a não nos afetar por aquilo que está a nossa volta e quer mandar na nossa vida. Pensar de modo autônomo é muito importante se queremos de fato ser livres, donas de nosso presente e futuro, críticas de nosso passado. É difícil, mas é necessário. É um ato de resistência. Pessoas que pensam são o terror desse mercado que quer se fortalecer covardemente através das fraquezas que ele mesmo constrói.

A única coisa de que você precisa para ser bonita é acreditar que isso é um fato. Somos todos perfeitos. Imperfeição? É só mais uma caraminhola inventada pelo bicho homem.

Julia Oliveira
  • Coordenadora de Estilo
  • Ilustradora

Julia Oliveira, atende por Juia, tem 22 anos e se mete em muitas coisas, mas não faz nada direito — o que tudo bem, porque ela só faz por prazer mesmo. Foi uma criança muito bem-sucedida e espera o mesmo para sua vida adulta: lançou o hit “Quem sabe” e o conto “A ursa bailarina”, grande sucesso entre familiares. Seu lema é “quanto pior, melhor”, frase que até consideraria tatuar se não tivesse dermatite atópica. Brincadeira, ela nunca faria essa tatuagem. Instagram: @ursabailarina

  • Beatriz

    “Você sabe muito bem que é impossível uma taturana virar um dromedário – apesar de ser 100% ok conversar com taturanas.” amor

  • Bruna

    Texto fraco demais

    • Renata

      Você poderia elaborar sua crítica, Bruna? Porque, com sua argumentação, eu diria que sua crítica é inexistente, de tão fraca. A não ser que isso seja a sua opinião, e aí, estamos vivendo dias onde as pessoas não gostam de mudar de opinão, e aí, não vou nem discutir.

  • Marina

    lindaaaaaa! amei amei amei 😉

  • Cristina Parga

    Tem um trecho da “Eva Luna”, da Isabel Allende, em que a protagonista se olha no espelho e simplesmente decide que é bonita – porque sim. Este livro me marcou muito na adolescência e o seu texto me lembrou muito dele. Parabéns. Seria ótimo ter uma revista que falasse assim quando eu tinha 15anos… muito bom o seu texto 🙂

    • rafaelaandreolaecarvalho

      Que comentário bonito!

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  • Ewellyn Araujo

    Matéria excelente!!

  • Carolina Roveroni

    Eu concordo com a opinião sobre o mercado da nossa querida Julia. E para os comentários aí de baixo, discordo plenamente, o texto é maravilhoso e impactante da sua maneira, meu professor de geografia concordaria também, pois ele sempre diz que temos que começar a pensar

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