18 de julho de 2014 | Ano 1, Artes, Cinema & TV, Edição #4, Literatura, Música | Texto: e | Ilustração:
A passagem mais barata para [insira aqui um lugar real ou imaginário de sua preferência]
Ilustração: Isadora Carangi.
Ilustração: Isadora Carangi.

Ilustração: Isadora Carangi.

Texto de Clara Browne & Sofia Soter.

Quem nunca quis atravessar a parede da plataforma 9 ¾ e pegar o trem para Hogwarts que atire a primeira pedra. Ou quem nunca se decepcionou ao abrir o guarda-roupa e não encontrar Nárnia? Ou quem nunca pensou em ir-se embora pra Pasárgada (lá, somos todos amigos do rei)? São inúmeras as terras distantes e mágicas que existem mundo afora e que queremos conhecer, passar as férias ou mesmo se mudar para. Aliás, são tantas que existe até um dicionário para contar desses lugares. Qual criança nunca quis esbarrar em um coelho de colete e relógio para encontrar o País das Maravilhas? Que amante de quadrinhos não pensou em encontrar a porta para o subespaço e ver como Ramona Flowers faz suas entregas de patins? Pois é. Todo mundo quis passar as férias no sítio do Pica-pau Amarelo ou descobrir a cidade perdida de Atlântida. Só que esses lugares todos são fisicamente inatingíveis, pois são lugares imaginários.

Mas existe uma outra forma de chegar à Terra do Nunca, e não, não é virando na segunda estrela à direita e seguindo até a manhã. E pode até parecer mais surreal do que conseguir um pó mágico de fadas para voar, mas esse é um jeito que não falha nunca: entregando-se à fantasia. E isso pode ser feito através de um filme, de um livro, de uma música, de uma série, de um anime, de um RPG ou até mesmo apenas com a sua imaginação. Bem baratinho, não?

Às vezes pode parecer estranho, principalmente no quesito livros, porque é muito comum a gente pegar bode de leitura com tantos livros obrigatórios chatos na escola. Mas é com o livro que você pode explorar esses lugares como ninguém. É claro que filmes são absolutamente incríveis (não troco um bom filme por um livro nunca, confesso), mas eles só duram uma hora e meia. E só se formos tratar do universo d’O Senhor dos Anéis que, aí, realmente, dura três horas. Mas disso não passa. Já os livros podem demorar o tempo que você quiser. Cada palavra é uma rua, cada vírgula é uma esquina. Você nem precisa seguir sempre os passos das personagens.

Pense naquelas descrições maçantes do José de Alencar. Realmente, elas podem ser insuportáveis, mas se formos ver por um outro lado, elas são perfeitas para andar por esse mundo completamente maluco de um Brasil pré-colonial que nunca existiu. O rio invadindo as matas e tomando conta de tudo, levando consigo Peri e Ceci. Pode parecer bem piegas (e o Alencar se esforça para que seja), mas entrega um mundo completamente fora daqui. E não custa nem um real.

Agora, vamos falar de um pouco mais perto. Esquece os lugares imaginários, vamos falar da América Latina, mais precisamente entre os séculos XV e XIX. Impossível visitá-la? Que isso! A quantidade de relatos que existem dos países da América na época colonial é exorbitante. E esses relatos parecem mais terras imaginárias do que as cidades de Gotham ou Macondo. Por exemplo: você já leu um trecho da Carta de Pero Vaz de Caminha nas aulas de história? Esse escritor português viajou com Pedro Álvares Cabral e registrou suas primeiras impressões sobre o Brasil, terra ainda muito misteriosa para os portugueses, em uma carta ao rei D. Manuel I. As descrições, tanto das terras quanto das pessoas, fazem com que tudo soe como uma viagem fantástica. Outro relato bastante famoso é o livro Duas viagens ao Brasil (que originalmente tinha um título enorme que soava ainda mais dramático e fantástico: História Verdadeira e Descrição de uma Terra de Selvagens, Nus e Cruéis Comedores de Seres Humanos, Situada no Novo Mundo da América, Desconhecida antes e depois de Jesus Cristo nas Terras de Hessen até os Dois Últimos Anos, Visto que Hans Staden, de Homberg, em Hessen, a Conheceu por Experiência Própria e agora a Traz a Público com essa Impressão), de Hans Staden, um aventureiro e mercenário alemão que esteve no Brasil duas vezes no século XVI e que foi supostamente aprisionado e quase devorado pelos Tupinambás. Seu livro é cheio de detalhes desse mundo para ele obscuro, com descrições de rituais canibais e costumes estranhos. Claro que a esses textos são recheados de preconceitos sobre o povo indígena — que os europeus viam como desumanos e bastante assustadores (afinal, eram pessoas com hábitos inteiramente diferentes dos que eles conheciam) —, mas não deixa de ser interessante ler e ver como, para esses viajantes, nosso Brasil parecia tão curioso quanto Nárnia parece para nós.

Apesar dos muitos séculos passados, relatos de viagens se mantêm como um gênero conhecido na literatura (e, mais recentemente, no cinema). Os clássicos Pé na estrada (On the road), de Jack Kerouac, e Na natureza selvagem, de Jon Krakauer, são bons exemplos. O livro de Kerouac é um romance de ficção, mas inspirado bastante nas suas experiências reais viajando de carro pelos Estados Unidos na década de 1950, durante as quais preencheu caderno atrás de caderno com anotações sobre o que ele via. Já o livro de Krakauer é mesmo de não-ficção, mas sobre a vida de outra pessoa: Christopher McCandless, um jovem americano que decidiu deixar tudo para trás e viver uma vida de reclusão e simplicidade no Alaska, e acabou sendo encontrado morto de fome em 1992, com somente 24 anos. Os dois livros têm também adaptações cinematográficas recentes, ambas com visuais incríveis que dão muita vontade de botar o pé na estrada.

E, na onda do cinema, vale mencionar que existe todo um gênero dedicado a viagens: são os road movies, ou “filmes de estrada”. Esses filmes podem ser dramas, comédias, mistérios, terror, qualquer coisa, mas o que têm em comum é que giram em torno de uma viagem, normalmente de carro. Alguns filmes bem legais nessa vibe são The Doom Generation, Pequena Miss Sunshine, Diário de motocicleta (que não é de carro, mas ainda conta), Priscilla, a rainha do deserto, Thelma e Louise, Os irmãos cara-de-pau e Bonnie e Clyde. Mas deixamos avisados que o risco de, depois de ver um desses filmes, você querer arrumar as malas, pular no carro mais próximo (mesmo não sabendo dirigir) e sair por aí pra descobrir o mundo é grande, tá?

Esse desejo de desbravar o mundo também aparece na música. O movimento musical Clube da Esquina, por exemplo, surge em Minas Gerais dos anos de 1960 e se espalha pelo mundo a partir do violão e do canto. O primeiro álbum, Clube da Esquina, produzido por Milton Nascimento e Lô Borges (sem contar os amigos que ajudaram na composição das letras e melodias), vem até com o cheiro da estrada. O segundo álbum também. Todas as canções são extremamente imagéticas e remetem a essa vida na estrada. As pessoas que se conhece, os lugares por onde se passa, os medos e as felicidades, os amores e essa mistura de tudo o que se vive no caminho e é passageiro, mas que se crava nos olhos da memória.

Como vocês podem ver, viajar pode sair mais barato do que a passagem do transporte. E você consegue ir bem mais longe do que o ponto final da linha (por mais que, às vezes, a linha de ônibus vá até outro canto do mundo). Quem sabe, nessas férias, você não passa uma temporada em algum desses lugares? O maior problema vai ser escolher qual deles visitar primeiro, pois são muitos.

Falamos de várias coisas e, mesmo assim, não temos como cobrir tudo. A vontade de viajar por aí, e o registro dessa imaginação sobre o que está além do que vemos (seja real ou não) são coisas recorrentes desde que o mundo é mundo (até os gregos antigos entraram na onda, com épicos como a Odisseia e a Ilíada), e ainda vão dar muito pano para a manga. Mas encorajamos todo mundo a aproveitar esses mundos que estão ao nosso alcance pelos livros, filmes, música, videogames e o que mais for possível, porque não há nada melhor do que escapar um pouquinho no conforto do seu próprio sofá.

Sofia Soter
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora e tradutora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.

Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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