16 de fevereiro de 2016 | Cinema & TV, Colunas, Se Liga | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Pegue sua capa e sua máscara e vamos ver quem anda salvando o mundo na TV ultimamente

Uma das coisas desse mundo de cultura pop que eu cresci distante, claramente por ser uma menina, é essa coisa de super-herói. Meu irmão teve diversas festas do Homem-Aranha enquanto eu deveria ficar com as princesas. Nada contra as princesas, (quer dizer, diversos problemas com as princesas, mas isso fica para outro texto) nada contra gostar das princesas se essa for a sua praia, mas tudo contra a imposição das princesas se você for uma menina. A única coisa que fez parte da minha infância foi o desenho dos X-Men todas as manhãs e como eu amava aquilo. Quando o filme dos X-men (2000) foi lançando, todo um novo mundo de possibilidades foi aberto. Eu já era mais velha e descobri os quadrinhos, já não ligava tanto para o que os outros iam pensar. Depois veio o filme Homem-Aranha (Spider-man, 2002) e a paixão foi selada.

          Agora, eu sei que você está pensando “essa coisa de herói é tão “América e mundo colonizador”” e você não está errada, eu concordo, afinal, há um Capitão América não é mesmo? Só que para mim a coisa de super-heróis sempre foi o universo que se cria em torno deles. As leis do mundo real não valem mais quando você tem pessoas que podem voar, que correm mais rápido que a velocidade da luz, que soltam teias das suas mãos e eu adoro entrar nesse mundo novo, entender essas novas regras e mais do que tudo, perceber quando esses poderes e histórias são apenas metáforas para os dramas que passamos aqui no mundo real. Só que quanto mais você entra nesse universo heróico, principalmente nas histórias mais clássicas, mais eu sou lembrada de que eu, mulher, não pertenço a ele. É bem impressionante como no mundo dos heróis não há espaço para mulheres, a não ser que elas sejam meros objetos de desejo, interesses amorosos e donzelas em perigo.

            Como os tempos estão mudando e de pouquinho em pouquinho, nós mulheres conseguimos ganhar cada vez mais espaço, acabamos invadindo esse clube do Bolinha e exigindo aos trancos e barrancos mais representatividade. Por mais que os nerds mais xiitas reclamem a rodo, nos quadrinhos em si já temos uma forte mudança. Tivemos Jane Foster como Thor, o lançamento de uma das minhas heroínas favoritas de todos os tempos, e a Kamala Khan como Miss Marvel para citar algumas. Porém, como essa é a coluna de “Cinema & TV” eu estou aqui para falar dessas heroínas poderoas em outra mídia. No cinema, a coisa ainda anda difícil. A Marvel, já com mais de dez filmes lançados, não lança um com uma protagonista mulher e a Warner só agora está nos prometendo o longa da Mulher Maravilha para o ano que vem. Já no mundo da TV, ainda bem, temos outra história para contar. A cada temporada vem pipocando mais e mais dessas moças com poderes e como falar de seriado é uma das coisas que eu mais gosto de fazer na vida, preparei essa listinha para vocês correrem atrás dessas mulheres super empoderadoras.

 

Marvel’s Agents of S.H.I.E.L.D

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Estou começando por uma série encabeçada por um homem. Como assim? Sim gente, por mais que o Agent Coulsen seja o diretor da S.H.I.E.L.D, é um seriado bem focado em trabalho de equipe e dentro dessa organização temos diversas agentes mulheres maravilhosas. A série é bem ligada ao universo Marvel criado nos filmes, ela conta a história dessa organização que existe para proteger o nosso mundo de ameaças não humanas. Teoricamente, quando a ameaça é grande demais eles chamam os vingadores, porém isso fica no cinema, aqui a gente vê as batalhas do dia a dia que são igualmente incríveis. Temos a Bobbi e a May, agentes que estão prontas para batalha sempre, uma segue o jeito durona clássico, enquanto a outra é fofa e vulnerável, mesmo podendo te desarmar em menos de um segundo. Temos a Simmons, uma cientista inteligente que começa a série super ingênua, mas tem uma ótima evolução de personagem, sendo agente dupla em um momento e vivendo em um planeta inóspito. Para fechar temos a Skye/Daisy que, sem muitos spoilers, agora é uma super-heroína, no sentido de ter poderes sobre-humanos e tem uma ótima capacidade de liderar.  O mais legal que eu sinto nessa série é que os personagens que estão lá não necessariamente foram pensados como homens ou mulheres, eles são personagens que existem e fazem sentido para história, porém, obviamente, como no mundo real uma vez que eles existem seu gênero faz diferença e isso gera conflitos e histórias ótimas. Vou sempre dizer que quem está contando a história importa e importa sempre, aqui temos Maurissa Tancharoen e Jed Whedon como produtores comandando a série, um homem e uma mulher e para mim isso explica bastante essa representatividade.

Marvel’s Agent Carter

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Já que estamos falando de agentes vamos agora falar de Peggy Carter. Sim, ela estava lá do lado do Capitão América vendo ele ser construído e servindo basicamente como seu interesse amoroso como sempre somos. Só que ela é uma personagem com tanto potencial que finalmente foi explorado. Agora vemos a história dela, só dela, sem heróis homens aqui para atrapalhar. A série se passa nos anos 1940 logo em seguida do Capitão ser congelado no final do primeiro filme dele (essa série também segue o universo marvel e está conectada). Mesmo depois de todos os acontecimentos do filme, Peggy só consegue um emprego como secretária na RCE, outro órgão desses da inteligência americana, para proteger os americanos. Afinal, ela é apenas uma mulher nos anos quarenta e isso é lembrado a ela o tempo todo. Desde o início vemos Peggy se frustrar com isso e como é muito inteligente e tem ótimos instintos desafia seus colegas homens e sai em missões escondida para resolver os casos, mostrando cada vez mais seu valor. Outra coisa ótima dessa série são as vilãs. Não temos representação feminina só em Peggy. Uma das maiores vilãs da primeira temporada é uma assassina que foi treinada desde a infância. A segunda temporada acabou de estrear e já temos uma ótima vilã iniciando seus trabalhos.

 

Marvel’s Jessica Jones

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Para fechar as séries da Marvel vou falar rapidamente dessa série porque já fizemos um texto inteirinho sobre ela. Essa série conta a história de Jessica que depois de uma curta vida de super-heroína, vive agora como detetive particular atormentada pelo passado e bebendo pra tentar esquecer. Diferente das séries que citei no texto, Jessica Jones tem um clima bem mais pesado e intenso e é bem calcado na realidade. Porém o melhor da série é que além de Jones temos várias outras mulheres que a cercam e comandam essa história, onde todas as decisões dependem delas. Lembra quando eu falei que adoro quando superpoderes são metáforas para a vida real? Aqui temos um exemplo bem explícito. Kilgrave, o vilão da série, é obcecado por Jessica, digo obcecado porque aquilo não é amor. Ele pode controlar mentes e com isso se tornou o grande causador dos traumas dela. Jessica viveu um relacionamento abusivo com ele e a maneira como ela lida com isso é bem intensa e bem baseada no mundo real. Ter isso como tema central de uma série de heroína é pra lá de importante e até inspirador.

 

Supergirl

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Enfim temos a representante da DC Comics na nossa lista. Assim que saiu o trailer dessa série fiquei bem preocupada. Parecia que ia ser uma série ensolarada demais, feita para agradar somente meninas por quem não sabe o que meninas de fato gostam. Porém fui assistir porque não resisto a heroínas em ação e foi uma boa surpresa. Não vou negar, ela é bem ensolarada e leve, Kara é a heroína clássica, fofa e pura, porém o fato de ela ser mulher está bem colocado na série de uma forma bem positiva e tentando (nem sempre conseguindo) não cair em esteriótipos. A história aqui é da prima do Super-Homem que foi enviada com doze anos para proteger o primo bebê quando ele foi enviado a Terra, só que ela ficou presa na zona fantasma e quando ele a achou, já adulto e conhecido como o Super-Homem, ela ainda tinha doze anos. Para sua proteção, Kara foi colocada com uma família de humanos e instruída a esconder seus poderes. A série começa quando ela, mais velha, resolve usar os poderes para ajudar os humanos. E assim vira a Supergirl. O legal da série é que além de Kara temos duas outras personagens femininas fortes. Alex, irmã adotiva de Kara, que trabalha como uma super agente para o DCE, (mais uma organização do governo para proteger a Terra de ameaças alienígenas) e Cat Grant. Cat é a chefe de Kara no seu trabalho diurno, quando tem que proteger sua identidade secreta. Cat é uma poderosa da mídia e serve como mentora da Supergirl em diversos momentos, mesmo sem saber que Kara, sua tímida assistente é uma super-heroína. Apesar do tom super leve, tranquilo e com muito humor da série, ela toca em vários pontos sérios sobre a diferença de você ser uma heroína mulher. Por exemplo, em um episódio todos recriminam ela por ter raiva demais, por ser violenta demais e ela questiona que ninguém recrimina o Super-Homem por ser assim, e a resposta é clara, é porque ela é mulher e mulheres não podem ser raivosas. Nesses momentos vejo como é legal acompanhar essa série.

 

IZombie

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Essa é a heroína mais inesperada de todas. Sim essa é a heroína zumbi da lista. Eu sei que você está torcendo o nariz para essa história, eu também torci, mas vem comigo que vale a pena. Sim, Liv Moore é uma zumbi, ela foi mordida em uma festa e sua vida mudou completamente. Só que, na série, desde que você coma os cérebros direitinho você mantém sua sanidade. Apenas quando você deixa de comer cérebros que você vira os zumbis que babam e ficam desfigurados dos filmes. Para resolver esse problema Liv trabalha no necrotério e come o cérebro das vítimas de crimes hediondos em Seattle. Uma outra característica dessa vida de comer cérebro é que ela tem visões da vida das pessoas que ela comeu pouco antes de morrerem e assim ela ajuda a desvendar os crimes junto com o detetive Clive Babineaux. A série é divertida e engraçada, Liv é uma excelente protagonista que carrega a história muito bem. Mesmo não tendo mais nenhuma outra mulher com relevância no elenco, o seriado vale muito a pena, até porque é ótimo ver Liv dando uma surra em outros zumbis homens que surgem ao longo da história e sempre a menosprezam.
    Chegamos no final de nossa lista, porém antes de encerrar é preciso lembrar de uma coisa. É ótimo termos essa evolução, todas essas protagonistas são ótimas, embora ainda tenhamos um longo caminho pela frente. Todas elas são brancas, hétero, cis e magras. Existem diversos tipos de mulheres no mundo e todas elas precisam ter sua representatividade sim. Além disso, nas séries Jessica Jones e Supergirl ainda tivemos alguns comentários gordofóbicos em mais de um episódio e isso é um balde de água fria gigante nessa representatividade, é dar dois passos pra frente e voltar os dois pra trás ao mesmo tempo. Essas são as heroínas modernas desbravando o mundo da TV atual e que venham cada vez mais, porque de heróis homens estamos super cansadas.

Dani Feno
  • Coordenadora de Audiovisual
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Música

Dani Feno, 26 anos. Quando era criança foi ao cinema ver Rei Leão a primeira vez e se apaixonou por essa coisa de ver filmes. Mais velha viu um seriado chamado Clarissa e pronto, a paixão passou para seriados também. Foi tão forte que agora trabalha em uma finalizadora de filmes e programas de TV, mas o que gosta mesmo é de editar vídeos para Capitolina. Gorda e feminista desde criança também (apesar de só saber que é esse o nome há pouco tempo). Acha que a melhor banda do universo é Arcade Fire e pode ficar horas te convencendo disso. Em Hogwarts é 70% Corvinal e 30% Grifinória.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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