14 de dezembro de 2014 | Ano 1, Edição #9 | Texto: | Ilustração: Dora Leroy
Pelo direito de escolher ser mãe

A maternidade, ainda nos dias de hoje, é uma conduta muito esperada e incentivada nas mulheres, principalmente porque a sociedade nos impõe o dever de procriar, de cuidar, de sermos felizes e completas somente depois de ter filhos. Isso tudo porque nossa capacidade biológica de gestar é tida como um sinal indiscutível de que nosso papel, como mulheres, é de ser mães. A maternidade, é, desta forma, compulsória. Uma verdade absoluta.

Resultado disso é a grande dificuldade que enfrentamos em dispor de nossos próprios corpos, de escolher quando e SE queremos ser mães. É como se uma gravidez nunca pudesse ser indesejada: somos culpabilizadas pelas falhas dos métodos contraceptivos – que, aliás, não são incomuns –, somos julgadas se engravidamos sem planejamento, e, ao mesmo tempo, não podemos não seguir com uma gravidez se quisermos, pois o aborto continua sendo criminalizado no Brasil, embora muitas mulheres o pratiquem e coloquem sua vida em risco por se submeterem a procedimentos arriscados.

Nesse cenário, é possível vislumbar uma realidade em que mulheres se veem forçadas a prosseguir com uma gravidez, independentemente de sua vontade. Ou até mesmo naqueles casos em que a gravidez é uma escolha consciente, mulheres se veem frequentemente abandonadas a sua própria sorte, já que a maternidade é um papel natural.

É por isso que hoje vamos falar sobre ser mãe solteira e/ou na adolescência, casos em que essa realidade se expressa de forma mais evidente e que muitas vezes são concomitantes. Em primeiro lugar porque uma garota adolescente, se engravida e, pelos motivos explicados acima, muitas vezes não pode interromper a gravidez, enfrenta, certamente, muito julgamento da família, de amigos, da escola e do próprio Estado. Recai sobre ela toda a culpa por ter gerado um feto, por talvez não ter usado contraceptivo, por não ter recorrido à pílula do dia seguinte a tempo e todo um repertório de responsabilização que esquece (de propósito, diga-se de passagem) que na verdade existe também um homem que deveria ser igualmente responsabilizado por essa gravidez.

Mas não. A sociedade relega a maternidade, a gestação e os cuidados com crianças somente aos membros da classe feminina, jamais aos homens. Estes estão bastante isentos da responsabilidade de assumir e, principalmente, de arcar com os cuidados que uma criança demanda. Não são poucos os casos em que as mulheres se veem abandonadas por seus parceiros quando descobrem que elas estão grávidas, ou que forçam-nas a abortar, mesmo sabendo que o universo do aborto ilegal é completamente inseguro. Aliás, muito é discutido sobre o aborto praticado pelas mulheres, mas nada se ouve sobre homens que abortam. Sim, homens que abandonam mulheres gestantes e a criança, ou que incentivam um aborto e não dão o mínimo de apoio emocional para suas parceiras são homens que também abortam. Só não são julgados nem culpabilizados por isso, como nós somos.

É preciso desestigmatizar o papel feminino da maternidade. Mulheres e suas escolhas devem ser respeitadas: não há nada de condenável na escolha de uma mulher em não ter filhos como também a escolha pela maternidade não deve ser vista como um caminho compulsório na vida das mulheres. A maternidade deve ser responsabilidade de todos, mulheres e homens. Mas acima de tudo a maternidade deve ser uma escolha livre.

Gabriella Beira
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Gabriella Beira é formada em Relações Internacionais e, como qualquer "internacionalista" (é assim que se chama a pessoa que estuda RI), quer conhecer o mundo todo e, se possível, mudar o mundo. Gosta muito de falar sobre educação, cultura, sociedade e feminismo, mas seu hobby mesmo é jogar Plants vs Zombies. É impaciente, procrastinadora, irmã mais velha e aluna mediana.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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