5 de junho de 2014 | Artes | Texto: | Ilustração:
Pequena história da arte: Internacional Situacionista

Hoje vamos falar sobre a Internacional Situacionista, que foi um movimento de cunho político e artístico, influenciado pelo dadaísmo e pelo surrealismo.

O movimento se iniciou no dia 28 de julho de 1957 (adoro colocar as datas porque elas são igualmente **MÁGICAS** e –INÚTEIS-), mas sua fase mais ativa mesmo foi no final dos anos 60. Dá pra dizer que a cabeça do movimento era o “doutor em nada” Guy Debord, mas vários artistas, poetas, escritores, cineastas participaram do movimento.

Ok, sem mais delongas, vou explicar “qual era” a do Situacionismo:

O Situacionismo pretendia superar a noção que temos de arte, de tal forma que a nossa vida cotidiana fosse considerada arte, que nós mesmos fossemos a obra, que cada atitude que tomássemos fosse arte. Cara, me diz, isso não é uma das coisas mais maravilhosas que você já ouviu? Pois é. A vida cotidiana, o urbanismo e a arquitetura são de grande interesse para os situacionistas, porque aí estaria o campo fértil para transformar a vida em si em arte, na relação do ser humano com o espaço ao seu redor.

Existe uma grande rejeição, dessa forma, por parte do Situacionismo, ao funcionalismo moderno, isso é, a tendência racionalista do mundo moderno de se ater àquilo que tenha alguma funcionalidade. Para os situacionistas, o funcionalismo limita as pessoas, por não deixá-las extrapolarem às suas funções. Da mesma forma, a sociedade de consumo e a cultura mercantilizada são abominadas por só intensificar cada vez mais a alienação que o funcionalismo traz. Ao trazer à tona o que seria a sociedade do espetáculo, isso que antes era diretamente vivido sofre um afastamento gradativo em direção a uma representação, substituindo assim a própria experiência. Abaixo um trecho do filme A Sociedade do Espetáculo, para que vocês entendam melhor o termo.

“O espetáculo não é uma coleção de imagens, mas uma relação social entre pessoas, intermediada por imagens… O espetáculo em geral, como uma concreta inversão da vida, é um movimento autônomo do não vivente… O mentiroso mentiu pra si mesmo” – Guy Debord

A ideia da palavra situacionismo é a de que cada pessoa deveria criar as situações da sua própria vida. Vou explicar melhor. Imagine o seguinte: tem duas pessoas que estão atravessando um quarteirão e indo em direção a um ponto de ônibus. A primeira é uma não situacionista, portanto ela provavelmente vai atravessar esse quarteirão olhando para um ponto fixo entre o chão e as pernas das pessoas, andando em passos constantes, até se assentar no banco do ponto e lá ficar esperando, olhando os carros que passam até chegar seu ônibus. Isso é o que é esperado, é o andar menos inventivo possível, ela fez exatamente o que se “deve” fazer. Agora, a segunda pessoa que atravessa esse quarteirão é uma situacionista radical, ela vai começar dando piruetas, vai dizer para a pessoa que passou por ela que a cor dos sapatos dela é bonita, vai tocar nas folhas de uma árvore, vai catar um botão que achou no chão e o dar pra primeira pessoa que passar e então chegar ao ponto de ônibus, e ficar dançando valsa em volta do banco, enquanto o ônibus não chega. Ser situacionista não é ter que fazer tudo isso com as coisas ao seu redor, mas estabelecer essa relação de liberdade com o espaço em que você está, é quebrar as amarras da vida cotidiana, é fugir da alienação.

Para explorar a relação das pessoas com os espaços físicos, os situacionistas criaram o termo urbanismo unitário, que seria a visão do espaço como terreno fértil para o jogo, para a experimentação. O urbanismo unitário não era considerado por eles uma doutrina urbanística, e, sim, de certa forma, uma negação ao urbanismo. A partir disto são criadas algumas “ferramentas” para se viver essa forma de urbanismo.

Uma delas seria o procedimento da psicogeografia, que era basicamente o aprofundamento nas relações comportamentais e emocionais de um indivíduo com os espaços urbanos. Diretamente relacionado a esse procedimento é criada também a prática da deriva. Esta, a grosso modo, seria “andar sem rumo”, isso é, se apropriar da cidade a partir desse andar não automatizado, flanar (do verbo flâner, em francês, que significa “vagar por ai”).

O situacionismo teve o começo do seu fim no inicio dos anos 70 com a primeira Internacional Situacionista sendo desfeita (eram sedes diferentes em diferentes cidades). Entretanto, as ideias situacionistas ecoaram tanto em maio de 68 que Guy Debord chegou a dizer que a revolução de 68 foi uma revolução situacionista. Inclusive grande parte dos slogans pichados nas paredes de Paris eram originais do situacionismo. Ainda hoje, apesar de ter sido um grupo considerado comunista, sua ideologia é levada para frente por anarquistas e libertários. E por tod@s @s lúdic@s do mundo!

A partir disto, resolvi fazer uma coisinha para vocês experimentarem o situacionismo na vida d’ocês. (:

CRONOGRAMA pro final do texto

Verônica Vilela
  • Colaboradora de Artes
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Verônica V. tem 19 anos e não sabe bem onde mora, algo entre uma cama no Rio e o Universo. Estuda cinema na UFF, gosta de viver as paradas e necessita dar um retorno dessas vivências através da expressão. Posta uns desenhos sentimentais nessa página aqui: www.valsa-dos-erros.tumblr.com.

  • Andrea Vilela

    Delícia de texto! Informa, esclarece e, ao mesmo tempo, seduz.

  • Paula Coraline

    Vi o vídeo e me lembrei muito de um livro, “A invenção de Morel”.
    Sei lá, me fez pensar o quanto tudo caminhou para uma repetição do perfeito sem que ninguém se desse conta que o gesto automatizado não cativa o espírito de ninguém.

  • Rogerio Murback

    Muito bom o texto, bem resumido e sem deixar nada de fora, parabéns !

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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