24 de setembro de 2015 | Artes | Texto: | Ilustração: Dora Leroy
Pequena História da Arte: Sabe os Young British Artists?

Então, vem saber!

No início da década de 90, a Inglaterra passava por um período de recessão e o quadro social estava bem desestabilizado. A sociedade se perguntava: o que será de nós daqui pra frente? Normal. De tempos em tempos (para não dizer sempre!) a humanidade se depara com essas questões. E uma forma de reoperar a realidade é a nossa, tão querida, arte. Pois é. Não estava fácil pra ninguém produzir nessa época. O alto custo dos materiais, espaços de exposição e táticas de promoção fizeram com que artistas jovens, em sua maioria da Goldsmiths College — os Young British Artists (ahhh!) — começassem a produzir uma arte que pretendia ser acessível tanto ao criador quanto ao público.

Diferente da maior parte dos movimentos anteriores, para apreciar plenamente, o espectador não precisava de um conhecimento prévio. Alterar a relação de “sacralidade” com a obra de arte foi uma das grandes inovações desse grupo, que embora não se organizasse por um manifesto, ou mantivesse uma estética comum, formulou uma produção de ruptura, de caráter menos provinciano, mais internacional. Climinha de improviso, raves, britpop começando a tocar nas rádios. O Reino Unido estava mudando de cara. Rejuvenescendo.

A Freeze (“Congelar”), primeira mostra atribuída ao grupo, estreou em agosto de 1988 e contou com 16 artistas, sendo 6 mulheres incríveis: Angela Bulloch, Anya Gallaccio, Abigail Lane, Sarah Lucas, Lala Meredith-Vula e Fiona Rae. Todas com produções muito distintas e pessoais, que contribuíram, sem dúvidas, para modificar os rumos da arte contemporânea.

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Créditos: Photograph © Lala Meredith-Vula © Damien Hirst and Science Ltd. All rights reserved, DACS 2012


A exposição foi organizada por Damien Hirst (hoje um dos artistas mais badalados e ricos do planeta), em um armazém na região das docas de Londres. Vinte anos depois, Abigail Lane resumiu o que sentiu naqueles dias de evento: “Eu só lembro de estar sentada em um espaço em branco, em um bloco administrativo ao qual ‘ninguém veio’.”

Mesmo com um aparente descaso do público, a exposição entrou para a história da arte como o início de uma mudança importante. A valorização da arte produzida por jovens. Se antes esse pessoal não era levado “muito a sério”, eles passariam a ganhar os prêmios principais (como o prêmio Turner, da famosa galeria Tate) e lotar suas exibições.

As obras, completamente ligadas à biografia dos artistas, saem da especialização em um método para se tornarem experimentos múltiplos, com o máximo de expressões possíveis: pintura, escultura, performance, instalação e etc. Tracey Emin — que se tornaria um dos principais nomes do movimento — utilizou técnicas de bordado, que aprendeu em um curso profissionalizante de moda, para seu trabalho com tecido.

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Everyone I Have Ever Slept With 1963–1995 (1995) “My tent ou the tent” (Em tradução livre: Todo mundo com quem eu dormi de 1963-1995, “A tenda ou Minha tenda”

[Alerta de gatilho]: A barraca de camping com as paredes bordadas contém os nomes de todas as pessoas com quem ela dormiu, incluindo a avó, o irmão gêmeo, amigos, amantes, e outros tantos. Usando o singelo recurso dos nomes, ela nos conduz a episódios importantes e traumáticos de sua vida, como o estupro de que foi vítima aos 13 anos, e seus dois abortos.

Fonte da imagem: Wikipédia

A segunda, amadurecida e importante, exposição dos YBAs foi um sucesso. Sensation, inaugurada em 1997, na Royal Academy of Arts, reuniu um grupo ainda mais diverso que o primeiro e consolidou a carreira de muitos artistas contemporâneos.

Explorando o cru, o cômico, o grotesco, os desejos dos artistas, materiais alternativos e objetos afetivos que despertaram reações diversas no público, Sensation ressignificou a maneira de produzir, comercializar e consumir arte no mundo.

As obras carregam intensa carga emocional e exigem entrega do artista. O gosto pelo voyeurismo na sociedade britânica (vide tabloides!) e a apropriação da cultura de massa pela arte pode explicar, em partes, a popularidade do que foi visto em Sensation.

Teve também: questionamento do que seria ou não arte, críticas à publicidade no meio artístico (para alguns o nome YBA é visto apenas como uma ferramenta de marketing), mais questionamentos ainda do que seria “alta” ou “baixa” cultura e choque. Muito choque. A polêmica foi tamanha que algumas peças chegaram até a ser restritas!

A importância social e artística dessa geração é imensa, principalmente, por colocar em destaque um grupo tão heterogêneo de artistas. Mulheres, imigrantes, negros, corpos fora do padrão, deficientes físicos, gays, lésbicas puderam se sentir representados. A partir das construções subjetivas refletidas em suas obras e seu ativismo, essas pessoas trouxeram para os holofotes questões e lutas antes jogadas para debaixo do tapete.

Olha quanta coisa essa pequena sigla pode significar! Incrível, né?

Agora que você já sabe quem foram os YBAs, pode explorar ainda mais! Para ajudar, fizemos uma listinha de alguns deles que você não pode deixar de conhecer. Divirta-se!

Yinka Shonibare

Nasceu na Inglaterra e morou na Nigéria até os 17 anos. Aborda em seus trabalhos com tecidos a questão da identidade contemporânea, o colonialismo e o pós-colonialismo. Ganhou o título de Membro da Ordem Mais Excelente do Império Britânico. Embora seja um título muito controverso para muitos artistas de ascendência africana, ele aceitou.

Fotografia: Antonio Olmos/ The Guardian

Fotografia: Antonio Olmos/ The Guardian

Anya Gallaccio

Produz suas obras com materiais orgânicos como flores e frutas o que as torna tão efêmeras, quanto a própria vida dos objetos.

Fonte: Artsper

Fonte: Artsper

Chris Ofilli

Chocou parte do mundo por apresentar uma representação Virgem Maria negra cercada de recortes pornográficos. Seu trabalho intenso e cheio de cores é caracterizado pela inspiração afro-caribenha e uso de um material inusitado: esterco de elefante.

Sarah Lucas

Uma das artistas mais conhecidas da Arte Contemporânea. Trabalha com fotografia, colagem, inventários, e muitas outras técnicas. Religião, sexo e morte são temas contantes em suas peças. Em outubro, será exibido na mostra Festival do Rio, no IMS, o filme Sarah Lucas, escultora. A diretora Karim Ainouz estará na sessão.

http://ims.com.br/ims/visite/programacao/domingo-sarah-lucas-escultora

Fotografia: Eamonn Mccabe/ The Guardian

Fotografia: Eamonn Mccabe/ The Guardian

 

Rachel Whiteread

Foi a primeira mulher a ganhar o Prêmio Turner, em 1993. Trabalha com esculturas monumentais e impressionantes.

Daiane Cardoso
  • Colaboradora de Artes

Nasceu em São José do Rio Preto e escolheu estudar Museologia no Rio de Janeiro. (Quase) formada em Comunicação Social pela UFRJ gosta de dança, pintura, poesia e seres fofinhos. Sonha em ser pesquisadora, mas não consegue parar quieta em um tema; para saber o dessa semana só perguntando mesmo.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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