11 de fevereiro de 2016 | Ano 2, Edição #23 | Texto: | Ilustração:
Pequenos prazeres cotidianos

“Estranho o destino dessa jovem mulher, privada dela mesma, porém, tão sensível ao charme das coisas simples da vida…”

Essa é uma frase do filme O fabuloso destino de Amélie Poulain, uma crônica do cotidiano que exalta a simplicidade da vida. Nós muitas vezes caímos na rotina, sucumbimos ao medo do amor (na maioria das vezes o amor próprio) e da vida e passamos a achar que ela às vezes não tem sentido sem grandes feitos.

Só que Amélie tinha esse toque para as coisas simples e talvez uma das cenas mais icônicas desse filme (pelo menos para mim, que sempre adorou casas de grãos), seja aquela onde ela mergulha suas mãos num saco de lentilhas. Uma das ações que entra na sua lista de les petits plaisirs ou “pequenos prazeres”.

pequenos prazeres

Quando assisti esse filme, eu estava cansada e chateada com as questões da universidade, e essa cena da lista ficou na minha memória devido ao meu encantamento instantâneo por Amélie. Então, inspirada por todo aquele contexto mágico e simples, resolvi fazer uma lista dos meus pequenos prazeres, de coisas banais que eu sempre gostei de fazer e que não valorizava o quão elas me deixavam feliz. E completei a lista com coisas que eu pretendo fazer, que não são complexas, como ganhar o Oscar ou escalar o Everest, porém que me dariam enorme prazer se eu pudesse realizá-las.

Eu chamei essa lista de “Pequenos Prazeres e Pequenas Vontades”. Nela eu coloquei coisas como: chá com bolinhos de chuva, brócolis, espiga de milho cozido, sorvete de nozes e de jabuticaba caseiros, bolhas de sabão gigantes (tem uns links no YouTube que ensinam como fazer, fica a dica!), ver o pôr do sol sentada na garagem da casa da minha avó, aquarelas, algodão-doce que meu vizinho fazia e eu comprei na minha infância inteira, ler a poesia de Manoel de Barros quando estou triste e decorar haikais da também escritora Alice Ruiz.

Como disse, na lista também incluí meus desejos:

  • Trabalhar minha espiritualidade – Algo que consegui quando comecei a frequentar terreiros de umbanda;
  • Ir de pijama para faculdade – apresentei um trabalho com a camisa do meu pijama! E depois disso repeti idas à universidade com roupas que uso para dormir, e me senti feliz e confortável;
  • Conhecer uma comunidade indígena – isso está relacionado com o fato da mãe do meu avô ser índia, e eu não ter muito conhecimento sobre a história dela. Acho que restaurar nosso passado e origens é essencial para construir nossa identidade;
  • Me apaixonar por pessoas que reconheçam que para ser meu companheiro vão ter que ter uma grandeza enorme de espírito. E estar disposto a aprender, a mudar, a lutar contra tudo o que nos ensinaram na sociedade. Mas saber que estar ao lado de uma mulher como eu é algo transformador. Isso tem muito a ver os afastamentos de pessoas que eu gostava muito quando comecei a me posicionar como feminista. O reconhecimento do nosso amor próprio ajuda muito na noção de quanto poder temos; Alice Walker uma vez disse “O jeito mais comum das pessoas desistirem do seu poder é pensar que não têm nenhum”. E hoje eu acredito no meu poder.
  • Transar no capô do carro. Transar muito. Transar muito e gozar muito! No Brasil e pelo mundo a sexualidade feminina ainda é tratada como tabu. Uma em cada cinco mulheres não gozam no Brasil (o estudo, coordenado pela médica e terapeuta sexual Tânia das Graças Mauadie Santana, baseado em 455 atendimentos de pacientes entre 2007 e 2008, revelou que 23,4% das mulheres não conseguem atingir o orgasmo.) Ter um orgasmo é maravilhoso, ter vários é revolução em um mundo criado para que nós não conheçamos o nosso corpo;
  • Falar que eu acho o ensino de arquitetura (e a universidade como um todo) medíocre para os meus professores, para o mundo!

Fiz a lista, mas ainda a releio e acrescento situações e vivências nela. É preciso aprender quais são nossos pequenos prazeres, já que retomar alguns deles pode ajudar muito naqueles momentos que estamos tristes e deprimidas. A vida é feita de altos e baixos e podemos achar conforto para “grandes” problemas em pequenas coisas. Além disso, os nossos pequenos prazeres também dizem muito sobre os nossos grandes privilégios. Fazer essa lista me ajudou bastante a valorizar o banal. Se quiser, faça a sua! É sempre bom ter algo que a gente possa ler em momentos complicados, da mesma forma que é sempre bom ter metas, desde que nada disso te oprima.

Termino esse texto com a frase clássica do filme O fabuloso destino de Amélie Poulain, dita pelo vizinho de Amélie, para ela: Então, minha querida Amélie, você não tem ossos de vidro. Pode suportar os baques da vida. Se deixar passar essa chance, com o tempo seu coração ficará tão seco e quebradiço quanto meu esqueleto. Então, vá em frente, pelo amor de Deus.

Talvez estes sejam tempos difíceis para os sonhadores, e talvez precisemos arriscar e sair de algumas zonas de conforto, ainda mais quando temos privilégios assegurados.

Stephanie Ribeiro
  • Colaboradora de Artes

Arquiteta e Urbanista, ativista feminista e escritora. Contribui com textos e artigos para diversos meios, além de participar de palestras e eventos. Trabalha em seu livro a ser lançado pela Cia das Letras em breve.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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