3 de fevereiro de 2016 | Saúde | Texto: | Ilustração:
Perdi Minha Identidade – Entrevista com Marta Spomberg
Fonte: http://www.autografia.com.br/

“Você tem que parar com essa mania de querer salvar todo mundo, seu pai, eu, eu irmão, seu namorado. As pessoas não precisam ser salvas. Elas tem que se responsabilizar pelos próprios problemas. Enquanto você se preocupa em fazer tudo pra todo mundo, você não cuida de si mesma”. Eu passei a minha vida toda ouvindo isso da minha própria mãe. Não adiantou muito. É um hábito, um estilo de vida, e é bem difícil deixar de ser assim da noite pro dia. Parece que você é legal, você é uma pessoa boa, uma pessoa generosa, aliás, você repete isso para você mesma todos os dias no intuito de justificar essa obsessão por ~~ajudar~~ os outros, essa preocupação exacerbada com tudo e com todos. Mas na real você só faz isso porque acha que é a única forma de ser aceita nos círculos sociais. É única forma de se fazer útil, presente, e, assim, as pessoas lembrarem de você. Você, na verdade, tem medo de ser abandonado por todos. É o medo do abandono que te faz abrir mão de si pelos outros, é uma espécie de rastejar, de se humilhar, de dar tudo que tem, e aceitar migalhas de consideração em troca e ainda dizer pra si mesma que você deve ficar feliz com isso.

Para entender melhor esse sentimento, esse jeito de ser que vejo cada vez mais acometer os jovens, entrevistei a psicóloga Marta Spomberg, que recentemente lançou o livro “Perdi Minha Identidade – Deixe de salvar os outros para cuidar de si”. A obra trata de relações de co-dependência onde pessoas abrem mão de cuidar de si próprias em prol de outras (isso pode acontecer em namoros, amizades, relações familiares, de trabalho, e qualquer outro círculo social), e deixa claro que essa autoprivação é muito preocupante, porque pode acabar ocasionando transtornos mentais, como ansiedade, depressão, síndrome do pânico, e outros.

 

1) Há tempos eu não lia um livro com o qual me identificasse tanto! Parece que cada palavra descreve um pouco da minha personalidade e conflitos pessoais que vivi todos esses anos. Fui uma criança que já apresentava esse perfil “salvador”, quando adolescente isso se aprofundou, e hoje, já adulta, tenho a nítida consciência de que ajo dessa forma e que em muitas vezes isso me é prejudicial, mas na maioria dos momentos não consigo mudar (mesmo agora, enquanto falo de mim, fico pensando em um jeito de abordar o tema sem que meus familiares ou amigos fiquem chateados por qualquer coisa que eu diga). O jovem que cresce com essa personalidade, tem mesmo dificuldade de se desvencilhar quando adulto, ou é algo que tende a ser passageiro?

Marta Spomberg: Não é passageiro, ao contrário, com o tempo e a repetição de comportamento, tudo tende a piorar. É compulsivo, e toda compulsão precisa ser cuidada. Tudo que não é sentido ou vivido plenamente se tornará sintoma.

 

2) Qual é a grande diferença entre ser alguém generoso, ser gente boa, e ter essa tendência a querer “salvar” todo mundo?

MS: Quando se faz as coisas por medo de não agradar, por medo da exclusão do grupo, por medo de fracassar e mais tantos outros medos de abandono. Enfim, quando meu coração tem medo e vivencia assim os meus relacionamentos, não sou generoso, não sou “gente boa”. Viver sentindo medo do abandono nos tira o prazer e o amor da generosidade.

 

3) O quanto isso pode ser prejudicial para o indivíduo?

MS: Isso é muito prejudicial para a vida das pessoas. Pode levar da pequena ansiedade ao transtorno de pânico, sintomas físicos, alguns subtipos de depressão. E o mais prejudicial é viver sem poder estar no aqui e agora. O salvador vive preocupado e não consegue relaxar. O relaxamento é fundamental para o processo criativo, do qual dependem nossas vidas.

 

4) É comum ouvirmos o estereótipo de que na adolescência há “muita revolta sem motivo”, que os jovens são muito raivosos, impacientes e imaturos. No entanto, você aponta no seu livro que ter raiva muitas vezes é importante e necessário. Qual é o limiar de positividade desse sentimento? A sociedade tem que parar de dizer aos seus adolescentes que ter raiva é ruim?

MS: A raiva do adolescente é necessária, talvez seja um dos caminhos possíveis para ir separando-se dos paradigmas e crenças dos pais. Nossa cultura tem muito medo que nossas crianças e adolescentes sintam raiva. Dentro dos princípios morais isso é “muito feio”. Mas sim, somos seres feitos de raiva também. O limiar da positividade é que este adolescente deve aprender desde cedo a não culpar o outro da raiva que sente. Saber que é natural sentirmos, tomarmos consciência dela e diminuirmos nossa auto violência, que é fingir que não sentimos e nos tornarmos amargos e aí sim, muito violentos.

 

5) Felizmente as coisas parecem estar mudando (a passos de formigas preguiçosas, mas ok), mas nós mulheres tradicionalmente fomos criadas para cuidar, para compreender, para sermos “maduras” muito cedo, para apoiar, resolver, e até se resignar, a sermos passivas. Você percebe se essa tendência de “perfil salvador” é mais frequente entre as meninas e mulheres? 

MS: O perfil salvador está em todos os gêneros e todas as idades. O salvador vem de toda a cultura que nos cerca. Não escapamos das crenças que nos trouxeram até aqui, e isso é para todos.

 

6) Você aponta, em seu livro, que muitas pessoas que assumem para si esse papel de salvador vieram de “famílias disfuncionais”, mas se por um lado eu acho que fui criada por uma família que sempre me amou muito, por outro, admito que, como você aponta, essas minhas atitudes de “salvamento dos outros”, provém a priori de uma espécie de generosidade natural, mas, lá no fundo, tem um tanto de necessidade de aprovação, de reconhecimento, de medo do abandono. Aí rememorando certos momentos da minha vida eu percebi que muitos momentos em família eram uma forma meio torta de amor. Você pode falar um pouco mais sobre essa questão do impacto do relacionamento familiar?

MS: É impossível que qualquer um de nós não tenha vivido vários momentos de abandono e tenhamos pais e mães perfeitos. O abandono traz impotência, e a impotência traz raiva. Às vezes podemos ser abandonados por termos tudo, e nos sentirmos vazios assim mesmo. Seremos sempre um sistema de crenças e paradigmas, rompê-los será sempre a grande questão. E o mais forte deles sem dúvida está ligado ao impacto que as relações familiares têm sobre nós.

 

7) O bullying pode agravar esse quadro? Hoje eu vejo que me submeti a MUITAS coisas enquanto adolescente porque queria me sentir parte de um grupo. Na época, eu não enxergava que o que faziam comigo era maldade. Eu levava numa boa, e me submetia ao que quisessem, achando que estavam sendo meus amigos, mas, no fundo, era muito por medo de ficar sozinha na multidão. Relembrei muitas coisas por mim mesma, e também ao ler o seu livro, e vi o quanto fui humilhada e continuava sorrindo, porque achava que ajudar, entender e fazer os outros felizes era a única forma de ser aceita. Como as jovens podem lidar melhor com isso?

MS: Agrava e muito. Comumente as crianças que aceitam o bullying com facilidade, foram crianças educadas para nunca dizer não. É muito comum inclusive que as famílias de crianças que sofrem esses preconceitos, nem percebam isso na criança, pois fazem a mesma coisa com seus filhos, ou então tenham a falsa crença de que isso tornará a criança um adulto mais forte para enfrentar a vida. E quanto mais tentam ser aceitas, mais são abusadas de todas as formas. A questão como diz Jung, Médico analista contemporâneo de Freud, é que “nascemos originais, e morremos cópias.” A melhor maneira de lidar com os abusos é se manter fiel a sua originalidade, e não ter medo do abandono de quem nos usa como objeto de suas frustrações, e sermos sujeitos de nossa própria vida.

 

8) Eu costumava dizer que eu atraio pessoas problemáticas. Depois de um tempo de auto conhecimento e agora depois de ler o que você escreveu, eu vi que atraio mesmo. Mas porque eu quero. Parece que quanto mais eu me sinta útil, quanto mais eu possa fazer os outros felizes, mesmo que para isso eu tenha que passar por cima de mim mesma, só assim eu consigo sentir certo grau de satisfação, mesmo que passageiro. A pessoa que tem esse perfil salvador, acaba por ter “prazer” em ser assim?

MS: O perfil salvador como citei antes é um verdadeiro viciado em ajudar compulsivamente o outro. Pode mesmo se tornar um prazer às avessas, que é o de acreditar que abandonar a própria vida para “salvar” o desejo dos outros, as tornará melhores e até mais especiais do que as personalidades mais autênticas.

 

9) Eu percebo que especialmente nos relacionamentos amorosos eu acabava me colocando mais no papel de mãe do que de namorada. Eu me munia de mil tentáculos controladores na esperança de fazer tudo certo, de que a outra pessoa se sentisse completa, em que eu pudesse ajudar ao máximo, desde me responsabilizar inteiramente por todos os detalhes de uma viagem a dois para que ela fosse perfeita, até ajudar a terminar os trabalhos da faculdade ou a encontrar um emprego. Quase sempre me frustrava, mas continuava a sorrir e a dizer que “está tudo bem”, porque não queria ser a responsável por dizer: “não, está tudo uma bosta, e a culpa é sua, e não minha!”. Muitas vezes eu nem ao menos admitia que eu não tivesse ao menos um certo grau de culpa em algo dar errado. As mulheres que crescem com essa personalidade salvadora, estão mais sujeitas a relacionamentos abusivos? A se submeterem a “qualquer forma de amor”?

MS: Aparentemente sim. Mas quando aprofundamos o tema percebemos como também citei antes, que não há diferença de gênero no perfil salvador. O perfil salvador contempla a existência da submissão, mas não é apenas isso. Relacionamentos abusivos fazem parte da vida de homens e mulheres. Falar em perfis de comportamento é algo sempre abrangente, e sempre diz respeito ao humano independente de gênero, raça ou credo religioso.

 

10) Vamos falar sobre uma coisa muito tensa para todos, mas que acho que pros salvadores é bastante pior: EXPECTATIVAS. Eu pelo menos tendo a criar muitas expectativas. Eu me doo a todos, e acabo esperando um certo grau de retorno. Fatalmente a frustração é minha companheira. Quantas comemorações em que nenhum “amigo” se dispôs a trocar seus planos para estar comigo, ou quantos momentos em que perguntaram: “está tudo bem?” e que eu consegui me abrir e dizer: “não, não está”, e a pessoa simplesmente não “tinha tempo” para sentar e me ouvir por 10 minutos, quantos momentos familiares ou amorosos em que passei por cima da minha dor para confortar a dos outros e não tive retorno posterior. Como lidar com essa balança desigual?

MS: As expectativas são de fato uma questão bem profunda. As expectativas dizem respeito comumente ao reconhecimento do outro por algo que fizemos, aquilo que em algum momento você realizou para agradar o outro, pela ilusão de se sentir completo fazendo isso. E as expectativas também estão ligadas ao fato daquilo que você imagina da vida, das situações, dos outros e das relações. A frustração vem de expectativas que não se concretizam, pois nada nem ninguém vai fazer ou se tornar algo que não é. EU ACREDITEI QUE ELE FOSSE FICAR COMIGO. Mas ele não tem nada a ver com o “que acreditei”. O outro não é o responsável, são suas crenças. Devemos acreditar no que sentimos, depender emocionalmente de um amor que nunca vai chegar é não perceber que precisamos nos amar, para enxergar amor onde realmente existe amor.

 

11) Eu passo os dias com duas companheiras: a culpa e a ansiedade. Que você fala o tempo inteiro em seu livro. A culpa por não ter feito mais, por não ter feito melhor, por ter sido “egoísta” quando alguém me requisitou e eu disse não. A ansiedade de tudo e qualquer coisa, desde o que pensam de mim como amiga ou profissional, até: “será que eu vou conseguir chegar a tempo, não quero atrasar e deixar o outro esperando”. Você aponta que esses sentimentos são muito prejudiciais e podem causar doenças sérias, há uma indicação de como amenizar isso?

MS: A culpa está ligada ao passado e a ansiedade ao futuro. A forma de amenizar isso é compreender sua própria história. Saber que crítico severo é este dentro de nós q nos cobra tanto. O crítico são as vozes das cobranças de perfeição do passado, que raptam o prazer de estar presente na vida e destrói nosso futuro. Nos aceitar é a grande saída dessa escravidão interminável. Não somos perfeitos, e não vamos ser, essa exigência retira todo prazer de viver.

 

12) Hoje, com 26 anos, eu tenho a impressão de que construí um papel para mim do qual não consigo mais me desvencilhar. Familiares, amigos, namorado, estão todos “acostumados” a me ver como salvadora. A me procurar quando têm problemas, a naturalmente me imbuir de responsabilidades e até mesmo a achar que eu “sei de tudo”. Hoje eu vejo o quanto isso me fez mal todo esse tempo, mas muitas vezes não consigo deixar de ser assim, mesmo com a consciência de que não deveria fazer, sinto como se tivesse essa “obrigação”. É um caminho sem volta para o salvador?

MS: Nada é sem volta! O primeiro passo é ter consciência de que essas crenças estão dentro de você. Tomar consciência de que realmente acreditamos que somos capazes de salvar as pessoas de suas dependências. Seja lá que dependência for essa. O salvador é movido pela culpa de acreditar nisso, mas na realidade esse comportamento está alimentando toda uma estrutura doentia. Impedindo a formação da inteireza que viemos construir para nós e impedindo o outro de ser inteiro. O salvador sempre acredita que o outro é incapaz e por isso precisa fazer pelo outro o tempo todo. Existe algo que é sentir prazer em poder fazer algo pelo outro em algum momento, outra é fazer isso repetidamente acreditando ser algo QUE TEM QUE SER feito. Como disse antes, compreender sua própria história é fundamental. É aprender a dizer não sem acreditar q isso irá destruir o outro. É cuidar de si antes de tudo. E claro é preciso desafiar esse medo do abandono, caso sejamos nós mesmos.

 

13) O subtítulo do seu livro é “Deixe de salvar os outros para cuidar de si”. Qual é a saída para o salvador? O que você gostaria de dizer para as jovens que estão lendo esse texto e se identificam com esse perfil, mas que gostariam de mudar hoje, e cuidar mais de si?

MS: Começando a contemplar aquilo que é desejo delas, daquilo que é o desejo desse crítico exigente e perfeccionista. É não acreditar em mitos de perfeição e de que se tornar você mesmo irá ser perigoso para você ou para o mundo. Não se tornar cópia para ser amado e aceito. Isso não é amor, são algemas violentas e por vezes invisíveis. Cuide de aprender a cuidar de suas feridas, esse é o passo mais fundamental.

Iane Filgueiras
  • Colaboradora de Saúde

Iane Filgueiras, 25 anos, de São Gonçalo - RJ, é mestranda em mídia, com pesquisa voltada para comunicação e saúde. Tem vários desejos, pouco dinheiro, e muito trabalho. Sentimental, faladeira e ansiosa até o último fio de cabelo. Prefere um bom filme/série na TV com balde de pipoca e edredom a quase qualquer coisa. Tem gostos ~~infantis~~, mas é com eles que se sente mais feliz. Sonha em ir à Disney, mas nunca quis ser princesa.

  • Gabi

    Adorei essa entrevista com a Marta Spomberg. Me identifiquei taaaanto! Tenho feito sessões de psicoterapia, e só com isso consegui identificar as causas da minha ansiedade que, aos 20, começou a pesar como nunca. Hoje, busco pensar mais em mim mesma, e tentar me reconhecer no espelho todos os dias. Obrigada pelo texto, Iane! Quero parabenizar a Revista Capitolina e todas as que escrevem aqui, porque vocês são nós e nós somos vocês! <3

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Quero muito ler esse livro, me identifiquei totalmente

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.