4 de junho de 2014 | Artes, Edição #3 | Texto: | Ilustração:
Performance: Uma forma de mostrar a Arte com o corpo
Ilustração: Mazô.
Ilustração: Mazô.

Ilustração: Mazô.

Houve certo viral no Facebook que consistia no vídeo de uma artista, a Marina Abramovic, numa sala (do MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York) sentada em uma cadeira em frente a uma mesa. Do outro lado havia outra cadeira e lá poderia sentar-se quem quisesse. A transição de uma pessoa para outra era feita apenas por uma piscada de olhos. Enquanto a artista, uma mulher de cabelos pretos e longos, estava sendo mostrada de olhos fechados, um homem barbudo aparecia no vídeo.

É dita alguma informação sobre ele, algo sobre ser o ex da artista e sobre não se verem desde que terminaram, 30 anos atrás. Então o sujeito se senta e espera-a abrir os olhos. Ao vê-lo, os olhos negros e arredondados da artista se enchem de água instantaneamente. Como não falar nada fazia parte do experimento, ela apenas sorri, coisa que não faz com as outras pessoas que aparecem no vídeo de pouco mais de 4 minutos. Estica sua mão ao companheiro, também emocionado, e lágrimas e mais lágrimas correm pelo seu rosto. Ele sai, ela enxuga as lágrimas e outra pessoa se senta.

Este vídeo é de uma performance de 2010 denominada The artist is present. No geral, consistia em Marina Abramovic, num vestido longo, manter-se sentada por 7h30 ininterruptas, sem idas a banheiro ou almoços.

Muitos críticos não consideram o que Marina faz arte. Dizem que é algo subjetivo demais, que qualquer coisa poderia virar uma performance e que, se qualquer coisa pode ser arte, então não é. Mas os que sentaram e compartilharam desta prática com Marina puderam afirmar que passaram por uma experiência espiritual. Alguns não conseguiram segurar as lágrimas para a imagem da artista ali, petrificada, como se fosse uma estátua.

Claro que, como em tudo na arte, a performance (que, para fins de definição, é quando o artista é a própria arte, tornando o que é visto efêmero, algo que tem uma duração certa e acaba assim que termina, ficando apenas na memória de quem assistiu) não apareceu em 2010 com Marina sentada numa cadeira num dos museus mais famosos do mundo.

Tudo começou quando Marcel Duchamp, na década de 1920, resolveu criticar a forma de se pensar artisticamente, colocando um mictório (sim, aquele que tem no banheiro masculino) numa galeria da sua exposição, chamou de “A fonte” e denominou aquilo como arte. Não preciso dizer que foi um choque. Aliás, foi mais do que um choque: foi uma ruptura de séculos de pensamento sobre arte como um todo. Foi dizer que não precisa estar no museu, que não precisa estar preso numa moldura para ser arte. Agora, qualquer coisa para que se desse um significado convincente poderia ser uma.

Com este pensamento, alguns artistas da década de 1960 como John Cage, George Maciunas e Yoko Ono (sim, aquela que namorou John Lennon, destruidora de lares, que acabou com os Beatles… Ela é uma das maiores artistas do século passado) formaram o grupo Fluxus e usavam seu corpo como forma de arte. Uma das mais famosas, de Ono, aconteceu nesta década.

Enquanto ficava sentada numa cadeira, petrificada, as pessoas cortavam algum pedaço do seu vestido ou do seu cabelo. O que levavam para casa era um pedaço de pano, a memória e aquele choque de ver uma japonesa sentada numa cadeira com pessoas ao redor cortando partes do seu corpo.

Ilustração: Mazô.

Ilustração: Mazô.

Nem toda performance pode te trazer este sentimento de perplexidade, porém. Lembro-me de ter visto uma no Espaço Cultural Sérgio Porto, aqui no Rio de Janeiro. Tratava-se de uma mulher, encapada com um lençol, que jogava minhocas num buraco que havia feito com cigarro. Depois de alguns minutos, assistindo apenas a minhocas sendo lançadas no buraco pequeno, me retirei. Logo em seguida descobri que, ao final, a pessoa jogava as minhocas no público e que o nome da sua arte era Medusa. Não me senti entusiasmada, nem com raiva, nem com qualquer sentimento sobre aquilo, apenas com a pergunta que muitos se fazem: “Isso é arte? Qualquer coisa é arte?”
Ouvi muito este questionamento de algumas pessoas que viram no mês passado a performance do inglês Tino Sehgal no CCBB/RJ. A performance consistia em pessoas correndo por todo saguão, às vezes parando e cantando uma música especifica, às vezes interrompendo alguém e contando alguma história aleatória da sua vida. É então que penso em uma frase que se encaixa bem com o que provavelmente vocês, minhas jovens, poderão um dia se deparar por aí: A arte conceitual só é boa quando a ideia é boa.

Se para você a ideia de vivenciar alguns desses exemplos que dei aqui lhe parece um bom uso do seu tempo e sensibilidade, não se acanhe, vá atrás e depois compartilhe sua experiência.

Bia Quadros
  • Coordenadora de Música
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Ilustradora

Bia na verdade é Beatriz e tem 20etantos anos. É do RJ, nunca saiu de lá e é formada em Artes Visuais. Transita entre ilustrações, pinturas, textos, crianças e frustrações. Tudo que está ligado a arte faz, sem vergonha e limite. Já fez algumas exposições, já fez algumas vitrines, vive fazendo um monte de coisa. Uma Metamorfose Ambulante.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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