10 de setembro de 2014 | Tech & Games | Texto: | Ilustração:
Personagem Tech do Mês: Hedy Lamarr

Ilustração: Jordana Andrade

Ilustração: Jordana Andrade

Hedy Lamarr. Talvez você não conheça o nome dessa austríaca nascida em 1914, mas eu tenho certeza de que já viu seu rosto. Ou pelo menos o de alguém inspirada nela: sabe a Branca de Neve, aquela versão super antiga que foi o primeiro longa-metragem animado feito por Walt Disney? Pois é, a própria! O pai do Mickey usou o rosto de Lamarr como fonte de inspiração para ser a primeira de uma linhagem longuíssima de princesas maravilhosas.

Hedy, apelido para Hedwig Eva Maria Kiesler, foi uma das mais importantes divas da então jovem Hollywood e tem um currículo bastante impressionante: na década de 1930, ainda relativamente desconhecida, polemizou ao fazer a primeira cena de sexo e nu em filme não pornográfico, no tcheco Êxtase (Ekztase, 1933). Na mesma película, seu rosto aparecia em close durante uma cena de orgasmo feminino, que também entrou para a história como a primeira do gênero! Hoje esse tipo de cena causa menos furor – ainda que a hipocrisia não tenha morrido –, mas na época o filme chegou a ser barrado nos Estados Unidos por quase dez anos. Isso atrasou um pouco o reconhecimento de Hedy, mas no fim das contas, foi também em parte responsável por seu sucesso.

“Tudo muito bom, tudo muito bem”, você me diz, talvez um tanto impaciente. “História maneira, mas hoje não é dia de Tech & Games, Vanessa? Cadê Tech? Acabou o amor?”

Não, longe disso, querida e ansiosa leitora! É só que não dá para falar dessa mulher fantástica sem abordar justamente a dualidade entre a artista e a cientista. Porque, sim, apesar de ter ficado famosa por sua beleza – e não tem nada de errado nisso –, Hedy Lamarr também foi uma mulher de cérebro e visão.

A diva da telefonia?

Tem quem ache que ou se é das humanidades ou da matemática. Para nossa felicidade, Hedy foi uma pessoa que mostrou que as duas coisas podem andar muito bem juntas, obrigada.

Em 1933, ainda com 19 anos, ela se casou com o magnata da indústria de armas Friedrich Mandl. O homem era um sujeito abusivo e controlador que não apoiava o trabalho de Hedy como atriz e existem relatos de que chegou a mantê-la presa em seu castelo! Ele inclusive tentou tirar Êxtase de circulação, comprando todas as cópias disponíveis, o que, mesmo antes da internet, não funcionou. Apesar desses problemas, Madl era um patrocinador das ciências e não foram poucas as vezes que Hedy teve a chance de acompanhar parte de seus negócios com inventores e chefes de Estado. Foi o que ela precisava para atiçar seu interesse científico.

Poucos anos mais tarde, Hedy fugiu para a França. Em sua autobiografia, ela conta que se disfarçou de empregada e saiu de casa no meio da noite para nunca mais voltar. Aparentemente, era tão dramática na vida real quanto nos seus filmes! Não demorou muito e, em suas viagens, ela conheceu o então diretor da MGM, Louis B. Mayer, que a convidou para trabalhar no estúdio de Hollywood. Daí para o estrelato mundial não tardou.

Enquanto vivia nos Estados Unidos, seu caminho se cruzou com o de um sujeito chamado George Antheil e é engraçado pensar como esse encontro tão aleatório poderia afetar o nosso mundo. George era músico e criara uma geringonça capaz de fazer um conjunto de pianos tocar de forma autômata no filme Ballet Mecanique (1924). Eram tempos de Segunda Guerra Mundial quando se conheceram, na década de 1940, e os Aliados procuravam uma maneira de se comunicarem sem o risco de ter o sinal interceptado.

Imagem: Wikicommons, MGM.

Imagem: Wikicommons, MGM.

E aí aconteceu: misturando os conhecimentos técnicos e militares de Hedy com os princípios matemáticos de George, os dois desenvolveram e patentearam um equipamento mecânico que poderia sincronizar o emissor e o receptor num sistema de comunicação no qual as frequências mudariam o tempo todo.

Parece difícil, mas nem tanto: pense num rádio. Existem diversos estações, cada uma correspondendo a uma frequência: 102,9 ou 100,1 ou 93,7. Se ligar o rádio agora, você vai captar essas frequências e suas programações – e isso é ótimo se eu tenho um programa de rádio, mas nem tanto se eu quero passar informações secretas, digamos, a posição da minha formação militar. Ou, pior ainda, se estou controlando um torpedo através dessas mesmas ondas de rádio.

Para evitar esse tipo de dor de cabeça, Hedy e George criaram um sistema no qual a frequência de transmissão seria constante e aleatoriamente alterada por uma gama de 88 (o número de teclas de um piano), nunca ficando numa “casa” fixa. A frequência seria controlada por uma espécie de máquina de roldanas muito parecida com a usada em Ballet Mecanique. Chamaram a tecnologia de FHSS (Frequency-Hopping Spread Spectrum ou Espectro de Difusão em Frequência Variável).

Os militares, porém, não levaram o projeto desenvolvido por uma atriz e um músico muito a sério e resistiram às mudanças. Com esse caminho bloqueado, Hedy passou a apoiar os Aliados através de sua imagem de diva, fazendo e incentivando doações para os esforços de guerra. Foi só muitos anos mais tarde que uma versão eletrônica, usando os mesmos princípios desenvolvidos e estudados por eles foi implementada na telefonia.

Hoje, a técnica é usada diariamente cada vez que você compartilha algo por bluetooth, conecta o notebook no wi-fi, liga o GPS ou simplesmente faz uma ligação pelo celular. Embora nunca tenha ganho dinheiro com a patente, em 1997 Hedy recebeu uma menção honrosa dos Estados Unidos pelo pioneirismo científico. Os últimos anos de sua vida foram tristes, porém: endividada, chegou a cometer furtos em lojas. Mais velha, encontrou resistência em voltar para o cinema e tornou-se obcecada com a perda natural de sua beleza para a idade, investindo em inúmeras cirurgias plásticas. Faleceu em 2000, aos 85 anos. Tudo acaba um dia.

Em vez de pensar em seu fim, porém, prefiro lembrar de um legado que ainda está completamente imerso no nosso presente. A história da vida de Hedy Lamarr não se torna menos incrível e emocionante por conta de seu desfecho. Ainda hoje, ela é uma prova de que não apenas sempre existiram mulheres brilhantes – por dentro e por fora –, como de que é possível construir pontes entre a arte e a ciência.

Vanessa Raposo
  • Coordenadora de Tech & Games

Vanessa é carioca, mas aos 25 anos sente que o mundo é grande demais para se pertencer a só um lugar. Por isso, passa boa parte do tempo em paisagens imaginárias e planejando suas próximas viagens - que podem ou não acontecer (“As passagens pra Plutão ainda estão disponíveis, moço?”). Gosta de filmes da Disney e de musicais mais do que dizem ser aconselhável para sua idade. Quando não está pseudofilosofando sobre o papel dos videogames na cultura pop, pode ser encontrada debruçada sobre seu laptop, arrancando os cabelos por alguma história que cisma em não querer ser escrita. 

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