18 de junho de 2014 | Tech & Games | Texto: | Ilustração:
Personagem Tech do Mês: Anna Anthropy
Ilustração: Isadora M.

Ilustração: Isadora M.

90ª mulher queer mais gata da galáxia e a mente mais brilhante do planeta videogame.

O primeiro título ela ganhou do portal Autostraddle, o segundo é atribuição minha. Anna é uma mulher trans desenvolvedora e crítica de jogos com um legado já extenso, que conta com jogos como Calamity Annie, Mighty Jill Off e Lesbian Spider-Queen of Mars. É uma das vozes mais importantes da cena indie e uma das responsáveis pelo crescente levante queer no meio gamer. Ela vive com seus dois gatos em Oakland, na Califórnia, e na verdade o que ela quer é que você pare de ler isso e VÁ FAZER UM JOGO.

Anna Anthropy gosta de pensar em jogos como se fossem zines: publicações autorais e independentes, uma transmissão de ideias e cultura de pessoa para pessoa sem intermédios. Ela propõe que nós deixemos o papel passivo de consumidoras e façamos-nós-mesmas os jogos que queremos jogar. Não por acaso é uma ideia muito parecida com aquela por trás da Capitolina: falta de representação e identificação com o conteúdo oferecido pelas grandes mídias é um problema recorrente e foi justamente o que levou a Anna à criação. Em seu livro Rise of the Videogame Zinesters, ela conta que mesmo conectada à vastidão de uma internet impregnada pela cultura gamer, é preciso se desdobrar até encontrar algum jogo sobre uma mulher queer ou um jogo que ao menos lembre sua própria vivência. Uma indústria viciada num modelo cíclico de criação e consumo onde se produz por e para homens jovens brancos não vê nenhuma boa razão para arriscar qualquer dos seus bilhões de dólares em narrativas sobre grupos marginalizados. E a Anna deixa bem claro: nós precisamos cada vez menos dessa indústria.

Se até alguns anos atrás o único papel possível era aquele na frente das televisões e cinemas, hoje nós podemos produzir e disponibilizar material no YouTube com toda praticidade.  Basta vontade e o acesso a um mínimo de tecnologia – que vem gradualmente se popularizando e suprimindo a necessidade técnica. Você não precisa mais manjar tudo de programação ou ter um computador de ponta, existem ferramentas como Twine, GameMaker, ZZT ou até mesmo Warioware: D.I.Y. que tornam o processo de gamificação super simples e intuitivo. O resultado não vai ser um jogo AAA  (também chamados de  “triple-A” ou “triplo-A”, produções multimilionárias que normalmente acabam figurando entre as mais vendidas) dos gráficos super realistas e 10 horas de gameplay, vai ser muito possivelmente uma expressão tosca e genuinamente sua. E é isso que a Anna vê de tão valioso nessa história, é isso o que ela faz e defende com unhas e dentes: a pluralidade de vozes ou, em termos mais coloquiais, a orkutização dos games. Não é um problema que a grande maioria dos vídeos dos YouTube seja medíocre, ali no meio dessa bagunça sem comprometimento comercial sempre aparece alguma coisa que vale a pena. Assim como foi importante para ela poder fazer o dys4ia, um jogo sobre terapia de reposição hormonal, foi importantíssimo pra outras pessoas trans* poderem enfim experienciar um jogo relevante e que as incluísse no meio gamer. Homem atirando na cara de homem não é a única coisa que o videogame pode explorar.

Além disso tudo, Anna “auntie pixelante” Anthropy, enxerga os jogos como uma forma de arte. Na verdade, enxerga toda criação como arte e diz que “a existência de uma forma de arte deve ser justificativa suficiente para que ela exista”.  Apaixonante essa mulher, né? Agora vai lá e segue o conselho dela: faça um jogo.

Carolina Stary
  • Ex-colaboradora de Tech & Games

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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