11 de fevereiro de 2015 | Tech & Games | Texto: | Ilustração: Beatriz Leite
Personagem Tech do Mês: Theresa Duncan

Indicado para meninas de 7 a 12 anos, Chop Suey não é nenhum McLanche Feliz: é um prato cheio para todo mundo.

Num momento parecido demais com o atual, no qual o videogame não ousava ir muito além daquela receita de tiro, explosão e masculinidade e os poucos jogos voltados ao público feminino eram todos de plástico e cor-de-rosa (pra não dizer que eram mesmo da Barbie), Theresa Duncan entendeu direitinho o que precisava ser feito.

Chop Suey, lançado em 1995, é um jogo de aventura point and click de narrativa cíclica –não tem assim começo, meio e fim. É sobre dar um rolê com sua irmã na cidadezinha interiorana onde vocês moram – deitar na grama e olhar as nuvens, descobrir o que guarda o guarda-roupa, comer comida colorida num restaurante chinês. O jogo dá uma dimensão dreamy àquelas coisas de todo dia e faz com que as jogadoras não só se encontrem dentro do jogo, mas passem também a enxergar a vida do lado de fora de um outro jeito. É sobre ser menina, é sobre nada.

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Seinfeld é “um seriado sobre nada”, The Sims é um jogo sobre nada. O recém-lançado Life is Strange é sobre nada. A Bia já falou aqui que nem todo superpoder é grandioso e eu endosso dizendo que nem todo videogame precisa de uma aventura com dragão cuspindo fogo ou de uma missão espacial; a doideira escatológica que a gente vive pode dar jogo, sim, desde que suas personagens (nós) sejam encaradas como pessoas reais. Reivindicamos complexidade, não só uma representatividade vazia, e é aí que Chop Suey acerta. Grandioso!

E não é por acaso. O jogo foi concebido por uma dupla de mulheres, Monica Gersue e Theresa, nossa homenageada da vez. Figurinha conhecida no meio artístico nova-iorquino, foi blogueira, fez cinema, crítica e outros dois jogos, Smarty e Zero Zero. Todos seus três títulos têm como denominador comum proporcionar experiências significativas e autênticas. Chop Suey é o primeiro e mais interessante, e lá ela explora com primor a não linearidade que só interatividade permite. São vários pequenos momentos relacionados mas não dependentes sempre à disposição do seu clique, um tipo de narrativa que ganhou muito espaço nos CD-ROMs dos anos 1990 e em seguida caiu no esquecimento. A obra da Duncan, por exemplo, desapareceu.

Sem crise. Uma organização também nova-iorquina conseguiu financiar coletivamente e com sucesso sua iniciativa de trazer esses jogos de volta gratuitamente para o conforto do seu browser. A entrega está marcada para abril deste ano. Até lá, seguimos hipnotizadas com esses gifs em looping: 

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Smarty.

Zero Zero.

Zero Zero.

Chop Suey.

Chop Suey.

Além de tudo, é tudo lindo. Psicodélico-melancólico do it yourself noventista riot girl e tem trilha sonora maravilhosa (é o jogo dos meus sonhos).

Esse “apagão” da obra da Theresa não fica só no videogame – o curta dirigido por ela também é obscuro e difícil de encontrar, e até sua página no IMDB é caidinha. Se você procurar por ela no Google vai encontrar vários resultados a respeito de sua morte e muito pouco sobre aquilo que ela fez em vida. Theresa se suicidou em julho de 2007 e seu namorado, também artista, uma semana depois. O caso ganhou notoriedade e foi explorado pela imprensa com uma carga superproblemática e nada sensível.

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Theresa aproximou as meninas dos computadores precisamente quando eles pipocaram e passaram a ser indispensáveis. É graças a esse gesto seminal que hoje você lê uma coluna de tecnologia e videogame numa revista online por e para meninas. Valeu, miga!

Carolina Stary
  • Ex-colaboradora de Tech & Games

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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