24 de outubro de 2015 | Ano 2, Edição #19 | Texto: , and | Ilustração: Dora Leroy
Quando a ficção nos abraça: as personagens que nos dão força

Nesse ponto do mês, da vida, de tudo, acho que todas nós já podemos entrar num acordo de que crescer é uma coisa muito confusa. A gente se sente incluída e excluída e muito feliz e muito triste e é tudo tão intenso que tem horas que a gente dá uma parada e pensa “como é que tudo isso aconteceu?” (também tem vezes que elaborar tantas palavras assim nem é possível, então a gente só olha e fala “rapaaaaaz, que coisa”). Com todo esse caos, precisamos buscar algum senso, algo que nos guie, que possamos nos identificar e que nos faça acalmar um pouco – ou que pelo menos nos faça pensar que, bem, não somos as únicas a passarmos pelo que passamos. É aí que entra o poder incrível da ficção.

É na ficção que podemos encontrar esse montão de gente que vive mundos completamente diferentes ou completamente iguais aos nossos e falar “é isso!”. Podemos encontrar milhões de personagens que são parecidas com a gente, que nos ajudam a nos entender melhor, ou mesmo que se tornam uma espécie de modelo para nós. Pensando nisso, juntamos algumas capitolinas pra falar de certas personagens que foram e são importantes durante nossa adolescência.

 

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Mulan – Carol Sapienza

Acho que a maioria das meninas já se identificou com alguma personagem da Disney, né? No meu caso, foi a Mulan! Eu sempre gostei de luta desde pequena e amei esse filme quando o vi pela primeira vez. Já tinha vontade de treinar alguma arte marcial, mas não havia me identificado com nenhuma. A Mulan é incrível porque ela é uma guerreira que consegue salvar um império, sem se preocupar com as consequências disso para sua vida pessoal. As cenas do treinamento me inspiraram muito e me fizeram acreditar que com muito treino a gente pode sim se tornar boa em alguma coisa! Quando fiquei um pouco mais velha, eu comecei a treinar Kung Fu e minha inspiração continuou sendo ela, até depois de alguns anos de treino duro eu chegar na faixa marrom e me sentir uma verdadeira artista marcial!

 

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Capitã Holly Short – Carol Sapienza

A série de livros Artemis Fowl foi lançada quando eu tinha 10 aninhos – e eu devorei os livros! Apesar do personagem principal ser um menino (bem chato), a Capitã Holly Short do Reino das Fadas foi uma personagem que me animava muito. Ela não era facilmente enganada por qualquer um e era uma policial incrível, mesmo sendo uma fadinha pequena! Não vou dar spoilers do livro, que é muito legal de ler, mas é tão legal quando a gente vê uma mulher não sendo representada como uma criatura frágil, mas como todas nós somos: com nossas fraquezas e pontos fortes, com coragem para fazer o que é preciso e o que é justo, como qualquer pessoa tem potencial de ser. Acho que eu sempre tive uma quedinha por personagens que lutam, né?

 

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Hermione Granger – Dani Feno

Eu comecei a ler Harry Potter com exatamente onze anos, a idade de Harry e os outros personagens principais. Fui dar uma pesquisada agora para saber quando o último livro foi lançado, porque lembrava que tinha lido no lançamento, mas não lembrava quando tinha sido e eu tomei um susto. Terminei de ler Harry Potter com exatos desoito anos, novamente a idade dos personagens principais quando o livro termina. O universo tem dessas loucuras e acho que talvez por isso essa história é tão forte pra mim, eu literalmente cresci junto com esses personagens. Eles viviam em um mundo completamente diferente do meu, mas também não tão diferente assim e pra mim essa é a verdadeira magia da série.

Vou ser honesta agora e falar que me lembro como se fosse ontem que quando eu comecei a ler eu não gostava nem um pouco da Hermione. Me doí um pouco me lembrar disso porque ela é sem dúvida alguma a minha personagem favorita de qualquer história ficitícia, mas a Dani de onze anos que lia Harry Potter na rede da varanda de casa achava ela uma chata, uma estraga prazeres. Até o capítulo da festa do dia das bruxas e o trasgo no banheiro. Naquele capítulo Rony é bem malvado com ela e ela passa o dia chorando no banheiro. Aquilo era tão real pra mim, naquele momento eu e Hermione viramos melhores amigas, no alto de meus onze anos queria abraçar ela e falar que ia ficar tudo bem. Percebi também que os motivos que faziam eu achar ela uma chata, eram motivos que faziam as outras pessoas me acharem uma chata. Eu e Hermione sempre fomos muito parecidas, muito estudiosas, muito curiosas, com essa mania de querer saber de tudo, de ler tudo que vê pela frente e com uma ansiedade de mostrar ao mundo o quanto sabemos. Só que também com um medo terrível de perder o controle e quebrar as regras. Tudo isso quando se tem onze anos não é legal, é motivo para piadas entre as pessoas na escola eram coisas que não gostava em mim mesma e com a Hermione eu aprendi a amar, porque se ela era tão legal sendo assim, porque eu não poderia ser também.

A medida que os livros foram chegando e eu e Mione crescendo juntas, mais me identificava e mais forte ela e toda aquela história era pra mim. O que ela passa por ser nascida trouxa (não vir de uma família bruxa, algo que era considerado “inferior” para alguns bruxos) sempre bateu forte em mim. Sempre fui gorda e era vista como diferente, não me encaixava e o olhar de desprezo e que de alguma forma eu era inferior acontecia frequentemente a minha volta, Mione gritava por mim. Aprendemos também a ter menos medo de quebrar as regras e começamos a entender a importância de questioná-las. O tempo passou os livros terminaram, os filmes terminaram, mas ela não foi embora totalmente. Sempre vou levar essa minha amiga bruxa dentro de mim, porque ela acabou fazendo parte de quem eu sou.

 

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Kim Pine – Clara Browne

Todo mundo que lê Scott Pilgrim pira na Ramona Flowers. Entendo. Ela é maneira, misteriosa, zoeira, tem cabelo de várias cores e trabalha no subespaço. São qualidades cativantes, de fato. Mas nada disso nunca foi o suficiente pra mim. A Ramona era uma realidade muito longe da minha adolescência. Eu nunca fui a garota descolada e misteriosa por quem todos os garotos se apaixonam. Eu era aquela mina que faz comentários sarcásticos e fica de boa, provavelmente julgando as pessoas. Eu era a Kim Pine.

Desde a primeira vez que li Scott Pilgrim, a Kim me chamou atenção. Ela é engraçada, não causa tretas (mesmo que não goste da outra pessoa) e não cai em nenhuma caixinha que colocam pra ela. A Kim usa salto e tênis, faz os próprios vestidos e também sai de moletom, ela é baterista de uma banda com os amigos dela e, no fundo, tudo o que ela quer é encontrar motivação pras coisas. A Kim tem uma história fora do livro – e ela faz questão de nos lembrar disso. Ela tem um trabalho, amigos, projetos que não tangem a vida do Scott e conta isso pra todos. A Kim teve outros namorados que o Scott nunca soube. Ela se recusa a entrar nas histórias complexas de lutas contra ex namorados do mal, não se demora quando o rolê está chato, fala o que ela acha mesmo. Basicamente: Kim Pine não é obrigada e sabe disso. Por que raios ela iria se meter em coisas que não gosta? Por que raios ela iria concordar com situações absurdas? Só porque um amigo se meteu em um rolo gigantesco não significa que você tem que concordar com ele e apoia-lo. E a Kim sabe disso. Ela escuta as histórias, opina, vai aos ensaios e às festas com os amigos, claro. Ela é uma pessoa como outra qualquer. Mas na hora da confusão, ela se retira. Sua vida não gira em torno da história principal, não gira em torno do Scott. Mas ela gosta dele e o ajuda se necessário.

A Kim tem crises existenciais e vai em busca do que quer – mesmo que não saiba o que é isso. No meio tempo, ela dá umas risadas e ajuda seus amigos. A Kim é uma amiga incrível, mas mais que isso: ela é uma pessoa incrível. Ela nos lembra o tempo todo que nossa história gira em torno de nós mesmas. Todo o resto é secundário.

 

 

E aí? Qual personagem que te dá força? Comenta aí com a gente!

Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

Carolina Sapienza
  • Colaboradora de Relacionamentos e Sexo
  • Revisora

Carol nasceu em 1991 e mora em São Paulo. Bióloga que queria ser de humanas, gosta de escrever sobre ciência mas mantém o caderninho de poemas sempre na bolsa.

Dani Feno
  • Coordenadora de Audiovisual
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Música

Dani Feno, 26 anos. Quando era criança foi ao cinema ver Rei Leão a primeira vez e se apaixonou por essa coisa de ver filmes. Mais velha viu um seriado chamado Clarissa e pronto, a paixão passou para seriados também. Foi tão forte que agora trabalha em uma finalizadora de filmes e programas de TV, mas o que gosta mesmo é de editar vídeos para Capitolina. Gorda e feminista desde criança também (apesar de só saber que é esse o nome há pouco tempo). Acha que a melhor banda do universo é Arcade Fire e pode ficar horas te convencendo disso. Em Hogwarts é 70% Corvinal e 30% Grifinória.

  • itismesomeone

    Kim também é minha favorita dos livros de Scott! Eu não gosto da Ramona, não vejo qual é o atrativo nela, as vezes acho que foi criada no conceito de Manic Pixie girl

  • Pingback: Escritora do mês: Meg Cabot — Capitolina()

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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