10 de junho de 2014 | Edição #3 | Texto: | Ilustração:
Pessoas que controlam nosso corpo
Ilustração: Clara Browne.

Ilustração: Clara Browne.

O nosso corpo incomoda muita gente. A capa que nos cobre envolve muito mais coisas que um simples cobertor do nosso ser interno. Vocês vivem debaixo dos mesmos padrões que eu e devem saber disso. Às vezes, a pressão de ter o corpo, cabelo & pele perfeitos é criada pela sociedade e às vezes essa pressão é feita por pessoas próximas a nós. Seja como for, essas pressões existem e criam em nós tensões, traumas, imagens distorcidas e dilemas que nos rodeiam diariamente na dinâmica do lidar com o nosso próprio corpo.

Poderíamos falar de muitas situações que são influências cruciais na maneira como vemos a nós mesmas, mas optei por falar de 3 ambientes que não apenas influenciam a maneira de nos olharmos, mas formam e deformam o que vemos em nós.

Nossa casa é um ambiente que, em tese, deveria ser protetor, nos oferecendo toda possibilidade de nos despirmos de tudo e sermos nós mesmas. Mas, infelizmente, a casa pode virar a prisão que acorrenta a verdade do nosso corpo. As famílias são recheadas de expectativas, padrões internos e, ali dentro desse círculo, é muito mais difícil de quebrarmos os padrões.
Normalmente, não podemos sair de casa tão facilmente. Inicialmente, a preocupação pode ser de fato genuína com questões de saúde e nutrição. Mas essa preocupação pode esconder a necessidade da família de se expor como bela, linda, perfeita. E quando nosso corpo revela as imperfeições de uma família? E quando o lugar de acolhimento vira o lugar do julgamento? E quando nos sentimos reféns de apontamentos familiares que não apenas machucam, mas geram em nós uma repulsa pelo nosso próprio corpo?

No ambiente escolar e de trabalho, às vezes também somos reféns. Os padrões da sociedade pesam desde cedo e afetam nossa formação – tanto daqueles que se consideram dentro dos padrões (preocupados em nunca sair deles), quanto daqueles que não se encaixam. Parece que nesses ambientes, vivemos dentro de cercas que nos incluem ou excluem de acordo com a maneira que parecemos e o que fazemos. Viver fora da cerca pode gerar sentimentos de solidão e rejeição. Aqueles dentro da cerca, que parecem estar dentro dos padrões impostos, podem ser colocados em um patamar acima dos outros, como se fossem mais preciosos do que o resto. E assim, se desenvolve a hierarquia corporal: o melhor corpo (dentro do que nomeiam padrão) gera as melhores vagas de emprego, as melhores entrevistas, os cargos mais disputados, os melhores grupos de amigos, os lugares mais desejados e posições mais influentes. Sim, isso existe e é o mundo real. O corpo dita regras, cabe a você e a mim escolher quais vamos ou não seguir, a quais nos curvamos ou apenas deixamos nossas curvas onde estão.

Parceiros em relacionamentos nos tornam reféns também. Às vezes para “manter o relacionamento” ou “evitar discussões” ou mesmo por medo de rejeição, transformamos nossos relacionamentos em prisões estéticas. Namorados(as) exigem unhas, cabelos e pelos no lugar que acham devido. Esses relacionamentos são abusivos. Enquanto você estiver com alguém que exige que você seja de outro jeito, essa pessoa não está com você – essa pessoa está esperando que você se transforme em alguém que você não é.

Talvez o maior segredo seja criar o seu próprio padrão. Sabe por quê? Porque você faz o seu padrão ser belo, ser lindo e, acima de tudo, ser aceito. O primeiro passo para que o espelho te mostre coisas lindas é olhar para ele sem deixar que as vozes (família, amigos, trabalho, mídia) falem com você. Ali, naquele momento em que só você olha pro seu corpo, não tenha pressa. Olhe com atenção, porque esse é o seu corpo. Isso ninguém tira de você. O orgulho de ser quem você é pode não mudar as cercas, prisões e grades que você vai encontrar, mas certamente vai mudar lá no seu íntimo a sua imagem corporal e a sua segurança de vestir esse corpo que te pertence.

Rebecca Raia
  • Coordenadora de Artes
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Coordenadora Editorial

Rebecca Raia é uma das co-fundadoras da Revista Capitolina. Seu emprego dos sonhos seria viajar o mundo visitando todos museus possíveis e escrevendo a respeito. Ela gosta de séries de TV feita para adolescentes e de aconselhar desconhecidos sobre questões afetivas.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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