3 de maio de 2016 | Sem categoria | Texto: | Ilustração:
Picasso, Renoir e… Euler?

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Imagine-se andando pelo Louvre, um dos museus de arte mais consagrados do mundo, onde após se deliciar com pinturas clássicas e estátuas de tirar o fôlego… Notamos uma equação pendurada na parede, ao lado de um Rafael: e elevado a i vezes pi mais um igual a zero. Hã?

Tal equaçãozinha, tão pequena, chamada de identidade de Euler é um caso especial da fórmula de Euler da análise complexa. Hã? Ah, e ela é considerada uma das equações mais elegantes da matemática, segundo o físico estado-unidense Richard Feynman e um grupo de matemáticos que foram submetidos a um estudo de ressonância magnética funcional enquanto visualizavam fórmulas matemáticas.

Hã?!?

Ok, se ainda não deu para deixar claro, vamos ilustrá-lo: imagine duas amigas, Filomena e Madelena. Filó, como gosta de ser chamada, estuda matemática: Madá está para terminar seu curso de Belas Artes. Um certo dia, Madá pergunta para Filó o que ela vê em todos aqueles números em seu caderno, se ela consegue concretizar em sua mente algo tão abstrato e bruto como a linguagem matemática. Filó, em vão, tenta demonstrar pequenos teoremas e rabiscar gráficos no caderno, tentando mostrar para a amiga a beleza que vê em suas anotações. Sabendo que estava perdendo seu tempo naquela discussão, Filó arriscou, como numa tentativa desesperada de provar seu ponto:

– Eu vejo tanta beleza nisso quanto você vê em seus quadros com aquela mistureba de tintas!

Touché, Filó. Você acertou em cheio!

 

Em 2014, um grupo do Reino Unido publicou um paper na revista Frontiers in Human Neuroscience (The experience of mathematical beauty and its neural correlates, Zeki, Semir, et al, 2014), onde os autores quiseram analisar se a experiência de beleza derivada de uma fonte intelectual altamente abstrata como a matemática poderia ser correlacionada, na mesma parte do cérebro emocional, com a atividade derivada de fontes sensoriais. Eles chegaram a conclusão que a mesma região cerebral era ativada quando Madá apreciava um Rembrandt ou quando Filó via o formulário em seu caderno.

15 matemáticos foram selecionados e apresentados a séries de 60 equações e foram instruídos a classificar-las numa escala de -5 (feia) a +5 (bonita). Após a fase inicial, eles foram submetidos a uma máquina de fMRI (técnica de imagem por ressonância magnética capaz de detectar variações do fluxo sanguíneo durante alguma atividade neural) e foram apresentados às mesmas equações. Quando as equações melhores classificadas eram apresentadas, os pesquisadores notaram uma ativação da parte do cérebro responsável pela experiência da beleza visual e musical (córtex órbito-frontal medial, para os íntimos).

Por que, necessariamente, uma sequência de números e sinais causaria tanto prazer quanto uma organização harmônica de traços e cores? A resposta vai depender muito do individuo analizado. Filó, em seu caso, aprecia a simplicidade, a simetria, a expressão de uma verdade absoluta contida em suas equações. E quem teria a audácia de tentar dissuadir a beleza que existe na experiência individual e própria da rapariga em questão?

Termino o texto com a citação do matemático e filósofo Bertrand Russell, trecho presente no início do artigo aqui discutido:

“A matemática, vista corretamente, possui não apenas verdade, mas também suprema beleza”.

Eduarda Streit Morsch
  • Colaboradora de Ciências

Eduarda Streit Morsch nasceu em terras cariocas, embora de vez em quando se sinta meio alienígena, pra falar a verdade. Estuda Biofísica na UFRJ e sonha em ser neurocientista e professora universitária. Sendo seu maior ídolo Leonardo da Vinci, de vez em quando E.S.Morsch tenta rabiscar algumas coisas pra dizer que é artista e cartunista também. E ah, adora escrever e ler (sua pilha de livros esperando para serem lidos é incrivelmente maior do que sua própria altura).

  • Brunna Anselmo

    Que fantástico! Há muito mais poesia e amor nessa história do que se pode imaginar! Tenho uma dúvida que me surgiu, aleatoriamente, enquanto lia tudo isso, que talvez vocês, tão inteligentes, poderiam responder: surdos de nascença sabem ler? Como é ensinado isso pra eles? Deve ser incrível. Enfim, pergunta aleatória. Mil beijos, vcs são maravilhosas! Me lembram muito a Rookie <3

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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