13 de agosto de 2014 | Ano 1, Edição #5 | Texto: | Ilustração:
A pigmentação das palavras

PigmentaçãoDasPalavras-IsadoraMIlustração por Isadora M.

A expressividade das cores fez com que seus nomes não se restringissem à designação de uma cor. Encontramos nomes de cores como substantivos ou adjetivos, de maneira literal, como quando diferenciamos elementos da natureza, ou figurada, através de metáforas e expressões idiomáticas.

Quando eu digo “laranja” você pode pensar na cor ou na fruta. Há quem goste também de denominar diferentes tons com nome de comida. Laranja, por exemplo, pode se transfigurar em abóbora ou pêssego. Para a vasta gama de roxo, temos uva, ameixa, berinjela. O verde pode ser verde-limão, verde-oliva ou abacate. Marrom é café ou chocolate. Tons avermelhados e rosados destrincham-se em goiaba e cereja.

Indo nessa mesma onda, metais e pedras preciosas também emprestaram seus nomes para cores. Rubi, ouro, esmeralda e prata são alguns deles. Numa linha parecida com a do ovo e da galinha, fico pensando o que teria inspirado o quê: a prata ou o prateado? O ouro ou o dourado?

Dourado, aliás, é nome de peixe de água doce. Não o peixinho dourado genérico que você tinha quando era criança, esse é outra história. Ainda entre os peixes, o salmão tem uma carne de cor tão característica que ficou sendo nome de sua própria cor.

A natureza, com toda sua colorida variedade, se utiliza das cores para dar nome pros animais e vegetais. Pássaros como o azulão (que é azul) e verdilhão (de penas verdes) provam isso. Já o pintarroxo e o rouxinol, acho que não tem nada ver com isso, porque nenhum dos dois é roxo, não…

Quando a gente imagina um monte de planta, logo bate um verde infinito na nossa cabeça; um verde protagonista com marrons coadjuvantes. Mas as árvores, os arbustos e flores têm suas nuances. Ipê existe verde, roxo e amarelo. Paineira e jequitibá têm das mesmas variedades: rosa e branco. Angico a gente encontra vermelho, roxo ou branco. Pimenta tem de monte: pimenta branca, pimenta preta, pimenta vermelha, pimenta rosa, pimenta verde, é só escolher! Mal de flor arroxeada: há uma lilás que se chama lilás, uma lavanda cujo nome é lavanda, a violeta que é violeta. Rosa pode ser cor-de-rosa como seu nome, mas também pode ser branca, vermelha, amarela… Rosa também pode ser de Luxemburgo e Violeta também pode ser Parra.

Azul é nome da filha da Beyoncé (em inglês, Blue), pessoa que não me espantaria se tivesse, de fato, sangue azul. E, tecnicamente, azul é uma cor fria, não a cor mais quente como anda se veiculando por aí. Fato curioso e irrelevante: um de meus filmes prediletos é Veludo azul, do David Lynch.

Outro filme de que gosto muito é Minha vida em cor-de-rosa, que conta a história linda de uma criança descobrindo sua transexualidade. Rosa é a cor também que motiva a dupla sertaneja Rosa e Rosinha, que acho que nem deve existir mais, embora viva em nossos corações. A P!nk e o Pink Floyd também se inspiraram na cor rosa pra criar sua identidade, além do glorioso Pink, do desenho animado Pink e Cérebro, e da icônica Pantera Cor-de-Rosa. Pra quem tá se perguntando, pink é rosa em inglês!

Alguém inventou que azul e rosa tem certo antagonismo entre si, o que, francamente, não entendo. O preto e o branco também são ditos opostos, mas faz mais sentido. É que, cromaticamente falando, o branco é a presença de todas as cores, é luz, relacionado a coisas positivas: bandeira branca é paz, carta branca é liberdade. O preto seria a oposição por ser a ausência completa de luz, ligado a coisas ruins: magia negra é do mal, lista negra é inimizade, mercado negro é o mercado ilegal.

O White Album dos Beatles, em português “Álbum Branco”, não teria o mesmo efeito se fosse o “Álbum Preto”. É engraçado como a gente sente as cores, como elas conversam com a gente, como nós as entendemos perfeitamente, mas, ao mesmo tempo, é tão difícil capturar e definir que aspecto de uma cor leva a uma associação específica.

Mas esses misteriozinhos são tão divertidos, e as investidas de desvendá-los são tão inúteis que a gente só releva e continua colorindo as coisas e coisificando as cores. E tem funcionado bem! Tá tudo azul enquanto a gente tem disposição pra ver a vida em cor-de-rosa.

Julia Oliveira
  • Coordenadora de Estilo
  • Ilustradora

Julia Oliveira, atende por Juia, tem 22 anos e se mete em muitas coisas, mas não faz nada direito — o que tudo bem, porque ela só faz por prazer mesmo. Foi uma criança muito bem-sucedida e espera o mesmo para sua vida adulta: lançou o hit “Quem sabe” e o conto “A ursa bailarina”, grande sucesso entre familiares. Seu lema é “quanto pior, melhor”, frase que até consideraria tatuar se não tivesse dermatite atópica. Brincadeira, ela nunca faria essa tatuagem. Instagram: @ursabailarina

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