4 de outubro de 2015 | Música | Texto: | Ilustração: Bia Quadros
“Piriguete”, não.

[TW: Estupro]

 

Como eu nasci em Salvador, não posso negar que certos estilos musicais sempre se fizeram muito presentes na minha vida. A cidade respira música. Toda hora tem um vizinho no último volume, os carros de som, os aglomerados das festas de praça, postos de gasolina que viram bar com pista de dança. A música está no cotidiano da cidade. E eu sinto muita falta disso. Hoje, morando em Curitiba, quantas vezes não me peguei cantando algum hit do axé music no caminho pro mercado? Acho até que preciso confessar que quando a saudade bate, colocamos um Igor Kannário razoavelmente alto aqui em casa.

Eu cresci com os ouvidos muito bem acostumados a letras que falavam sobre como a bunda de Raimunda é tão grande que é ela quem conduz o corpo inteiro da mulher. Eu deveria ter uns cinco anos quando saiu essa música sobre a bunda de Raimunda e eu só conseguia cantar junto quando começava a tocar no rádio – eu tinha apenas cinco anos.

A erotização no pagode baiano faz parte de sua história desde os tempos do samba de roda do recôncavo, com suas danças maliciosas. De uns tempos pra cá é notável que os novos compositores têm buscado trazer à tona uma discussão sobre a elitização, o conservadorismo e o separatismo da cidade, afinal de contas o pagode é música feita por gente da periferia, em sua maioria negros, que toca na cidade inteira e mesmo assim, é usada para separá-los ainda mais. Só que mesmo assim, se a gente parar para ouvir tudo que é cantado, em 90% das músicas, o corpo da mulher ainda é o tópico principal.

Desde pequena vi o pagode baiano se apresentando sempre da mesma forma: o vocalista que também dança, com aquele ar de macho-alfa, acompanhado de duas ou mais dançarinas, pelo menos uma delas negra e a outra branca. O mesmo tipo de corpo, quadris largos, cinturas finas e a coreografia leve, dava até pra acompanhar os passos em casa. Todo mundo sabe dançar “Segura o Tchan”. Depois de 2000 e pouquinho a coisa mudou, saíram as dançarinas e agora os homens tomam conta do palco. O vocalista macho-alfa continua lá, com seus amigos dançarinos que insinuam cenas de sexo e durante o show ainda chamam suas fãs no palco para mostrar o que querem dizer quando cantam coisas tipo “senta na minha pick-up”. Muitos dizem que o que faz o sucesso do pagode baiano é o ritmo, a batida, e que o conteúdo das letras que só reafirmam a cultura do estupro, são insignificantes.

Em 2012, uma banda chamada New Hit era a nova sensação da cena baiana. Grupo que em uma de suas músicas repetia incansavelmente o refrão “espanca, espanca, espanca”. Depois de uma apresentação, como sempre lotada, numa cidade do interior da Bahia, a banda convidou duas fãs de 16 anos para seu ônibus com a desculpa de procurar uma boa iluminação para tirar fotos. As duas foram violentadas por oito pessoas, todos integrantes, e obviamente, levaram a culpa do acontecido porque sendo fãs e estando em show de pagode, são automaticamente oferecidas e “piriguetes”. Depois do caso, as meninas tiveram que ficar sob um programa de proteção à vítima, passar por acompanhamento policial e psicológico. Uma delas teve que mudar de cidade. Para eles, o saldo foi de poderem posar de coitados, um processo que não ia para frente e que só depois de três anos chegou a um veredito – 11 anos e 8 meses em regime fechado, mas enquanto todos os recursos possíveis não forem julgados, eles ficarão em liberdade.

Os integrantes da New Hit agiram conforme instruções de suas músicas que tocavam na rádio o tempo inteiro. E ainda assim continuam apertando na mesma tecla de que “o ritmo é o que realmente importa”, enquanto os altos falantes gritam refrões que só empurram garganta a baixo os estereótipos que dizem que “mulher de roupa curta está pedindo”.

Pelo jeito que vejo as coisas andarem, acho muito difícil esse quadro mudar de uma hora para outra. Grupos de pagode surgem na Bahia a torto e a direito e não é exagero dizer que a maioria, senão todos, já vêm com o discurso violento contra a mulher na ponta da língua, como se fosse automático tocar pagode e a música ser sobre sexo.

Já criaram lei proibindo música que contém “baixaria” e mesmo assim um estupro coletivo de duas adolescentes aconteceu justamente por quem mais propagava essa cultura. Pagode é a resistência da periferia de Salvador, mas o que mais tem que acontecer para que se repense o conteúdo da cena soteropolitana?

Ana Gabriela
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Audiovisual

Ana nasceu na Bahia em 1992. Ainda não descobriu o que vai ser quando crescer, mas aprendeu que isso não é motivo pra preocupação. Quanto mais tempo se descobrindo melhor. Gosta de ler a internet, escrever listas sobre tudo, de gatinhos e da sua cama.

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