11 de março de 2018 | Ano 4, Edição #43 | Texto: | Ilustração: Kethlenn Oliveira
Podem escorrer lágrimas, pode escorrer sangue…
mudanca

“Não entendo de sonhos. Mas este me parece um profundo desejo de mudança de vida. Não precisa ser feliz sequer. Basta ano novo. E é tão difícil mudar. Às vezes escorre sangue.” CLARICE LISPECTOR

Iniciar este texto foi difícil, como quase tudo que iniciamos na vida, por isso escolhi a Clarice para me ajudar. As mudanças são inevitáveis, podem ser boas ou ruins, nos acompanham a todo momento, mas as ruins podem trazer feridas difíceis de serem cicatrizadas.

Mudar de escola, por exemplo. Eu passei por isso algumas vezes e em sua maioria foi doloroso sair da escola em que eu tinha amigos, para começar tudo de novo, construir novas amizades e me ajustar. O medo é um dos sentimentos que mais carregamos quando algo novo vai acontecer. No meu caso, me preocupava se as pessoas iam gostar de mim na nova escola, se iria ser aceita.

Cada vez que mudei de escola, lidei com isso de um jeito diferente, daí comecei a perceber o que estava causando o meu medo: simplesmente, eu mesma não acreditava em mim, não tinha confiança em quem eu era, ou melhor, estava mais preocupada em agradar as pessoas do que ser eu mesma e estar confortável com isso. Então comecei a encarar as coisas com mais otimismo e fazer essa mudança estar a meu favor. Eu aceitei. Aceitei a situação, só me restava vivê-la.

Viver algo que não esperávamos pode ser assustador, mas mesmo coisas que já sabemos que ocorrem, como as fases da vida da maioria das pessoas, como se formar, entrar na faculdade ou trabalhar, são meras projeções baseadas em relatos que ouvimos, e quando se tornam realidade, vêm carregadas de sentimentos, os quais não podemos prever.

Em términos de relacionamento, é comum ficarmos arrasadas, achando que não vamos encontrar outra pessoa, nos culpando por não termos conseguido manter a relação. Porém, a sensação é mais complexa do que isso: junto com a culpa, há o medo de ter que iniciar outro ciclo, outra relação.

Com essa avalanche de sentimentos, enfrentar términos e recomeços tende a ser um pouco traumático se não nos dermos a chance de ver as coisas de outro jeito. O que pode facilitar esse processo é aceitar, não só a mudança, o término, ou o começo, mas aceitar a pessoa que você é, e o que você sente. Sabe quando sonhamos, e acontecem coisas estranhas e vamos simplesmente vivendo cada cena sem fazer ideia do que virá a seguir? Dentro do sonho estamos livres de julgamentos, aquele é nosso mundo, formado por nosso inconsciente. Daí acordamos, às vezes nos perguntando o que era o sonho, às vezes rindo porque foi engraçado, às vezes tristes porque não foi bom, ou apenas esquecemos (é o meu caso rsrs). Nos sonhos, nos permitimos ser quem somos, ou quem queremos ser. Por que então não nos permitirmos mais na vida real?

Aceitar é importante porque as transições não fazem parte apenas da vida, elas constroem quem somos, nos movimentam, nos desafiam, nos ajudam a fazer descobertas. Aceitar não significa se conformar, e sim se abrir para um mundo de possibilidades. Podem escorrer lágrimas? Sim, mas há a chance de serem de felicidade.

Kethlenn Oliveira
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Poéticas

Louca, estranha, uma pisciana sonhadora, que possui uma juba que às vezes (quase sempre) não penteia. A paulistana Kethlenn aos seus 22 anos estuda Design Gráfico, desenha, às vezes canta e adora um filme francês. Acredita que vai salvar o mundo fazendo o que ama. Gosta de se expressar por meio visual, seja fotografia ou desenho e passear em todo universo artístico que esse mundão oferece.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos