17 de janeiro de 2015 | Ano 1, Edição #10 | Texto: | Ilustração: Isadora M.
O que está no alto é como o que está embaixo: o poder da mente

“O que está no alto é como o que está embaixo”.

A frase imortalizada por Jorge Ben Jor, em uma das músicas do álbum Tábua de Esmeralda, se baseia em uma antiga corrente filosófica chamada Hermetismo, que tem como textos fundamentais o Corpus Hermeticum e a Tábua de Esmeralda. Reza a lenda que ambos foram escritos por Hermes Trismegistus, uma divindade sincrética, que combina atributos do deus grego Hermes e do egípcio Toth. O trecho da canção é um dos princípios desse pensamento e significa, basicamente, que a realidade externa (que na música é referida pela palavra “embaixo”), ou seja, tudo que vivemos que esteja fora do que chamamos de “eu” é moldado e influenciado pela nossa consciência (que, na canção, corresponde ao “alto”), da mesma forma que nossa realidade interna sofre influência do mundo exterior.

A humanidade sabe disso desde que o mundo é mundo, apesar desse conhecimento ter se perdido na sociedade moderna. Nossos tatara-tatara-tataravós desenhavam bisões nas paredes das cavernas para provocar uma mudança na própria psique e, consequentemente, fazer com que a próxima caça conseguisse abater muitas presas e trouxesse mais rango pra casa.

É óbvio que nossos ancestrais não tinham esse conceito desenvolvido de forma clara e consciente, mas desenhavam as pinturas rupestres e faziam seus rituais mágicos por saber, instintivamente, que isso teria consequências na realidade exterior.

A noção de inter-relação entre consciência e o mundo em que vivemos foi sendo lapidada com o tempo e está no cerne de todas as religiões e doutrinas espirituais, ainda que, muitas vezes, de forma implícita. Mesmo em religiões que, aparentemente, divergem completamente dessa ideia, ela está presente. O que é a chave de São Pedro, no cristianismo tradicional, que controla simultaneamente os destinos do Paraíso e do mundo material, se não uma alusão à correspondência entra nossa psique e a realidade? E o trecho “Assim na Terra como no Céu” da oração Pai Nosso, que não uma fórmula alternativa do princípio hermético “O que está no alto é como o que está embaixo”?

Mas como um conhecimento tão incrível quanto a ideia de que moldamos a realidade em que vivemos com nossa mente se perdeu? A resposta, em linhas gerais, está em dois grandes eventos: i) advento do cristianismo e dominação da Igreja por séculos; ii) Iluminismo, ou seja, racionalidade e desmistificação da natureza.

Com a ascensão da Igreja, a visão da natureza e do sagrado se tornou petrificada e hierarquizada. Perceba que o problema não está no cristianismo como doutrina espiritual, e sim no papel que a igreja exercia como instituição mais poderosa na idade média, que tinha como principal objetivo o controle social. Por essa razão, qualquer forma de exploração do inconsciente se tornou pecado, coisa do diabo, uma vez que a noção de que a consciência humana cria a realidade é incompatível com a interpretação literal dos dogmas religiosos. Todos que se opusessem às ideias da Igreja eram punidos, e é por conta disso que o conhecimento de que nossa psique influencia a realidade exterior teve de se tornar oculto, daí vem o nome ocultismo ou ciências ocultas, para designar as doutrinas e práticas mágicas baseadas na ideia da natureza divina do ser humano.

A ruptura com essa visão rígida de mundo se deu com o Iluminismo. O teocentrismo deu lugar ao antropocentrismo, o que significa que a explicação da realidade deixou de ter Deus como fundamento e passou a se basear na razão. Essa emancipação do conhecimento humano foi, é claro, positiva, haja vista todos os avanços que conquistamos desde então no que se refere ao entendimento das leis que regem os fenômenos naturais. Por outro lado, o racionalismo implicou num afastamento ainda maior da sabedoria ancestral da influência mútua das realidades exterior e interior, uma vez que, ao passarmos a olhar para fora para entender o mundo por meio da razão, deixamos de lado as vivências internas. A incompatibilidade, dessa vez, não foi com dogmas religiosos petrificados, mas com o método científico, que é essencialmente causal, ou seja, estuda a realidade procurando entender as relações de causa e efeito entre os fenômenos. Como não era possível constatar cientificamente, até então, a influência que nossa consciência exerce no mundo, esse conhecimento passou a ser encarado de forma pejorativa, como se fosse uma simples superstição, praticada pelos nossos bestiais avós das cavernas e pelas sociedades antigas, mas sem espaço na sociedade moderna. Note, todavia, que a noção de inter-relação entre a consciência e o mundo não desapareceu por completo, mas ficou a cargo exclusivo das religiões e doutrinas espirituais, isso porque, com o racionalismo, crença e ciência passaram a ser encarados como esferas completamente distintas.

O sociólogo Max Weber atribuiu ao processo de racionalização das sociedades modernas pós-Iluminismo um fenômeno que chamou de “desencantamento do mundo”, o que significa que, de modo geral, a sociedade (notadamente a Ocidental, nesse caso) deixa para trás a interpretação mística e subjetiva da realidade, passando a adotar o uso da razão para isso, o que implica que, não somente as esferas de organização social passaram a ser mais racionais, como também a religião se torna assunto de foro íntimo.

Ouso, porém, dizer que nem tudo está perdido. A partir do início do Século XX, dois ramos da ciência foram responsáveis por reestabelecer a ponte destruída pelo racionalismo entre a consciência e o mundo material: a Psicologia e a Física Quântica.

A Psicologia foi responsável por identificar as expressões mitológicas de todos os grupos sociais da história como sendo vivências do inconsciente. Assim, Céu e Inferno das religiões abraâmicas, o Olimpo e Hades dos antigos gregos e o Valhalla dos Nórdicos são, nada menos, que estados da consciência humana, ou seja, são descrições de lugares que se encontram dentro de nós e não no exterior, em algum ponto inexplorado do espaço físico. Por essa razão, o conceito que venho desenvolvendo ao longo do texto, de que a realidade externa e a psique humana se influenciam mutuamente se pauta na interpretação desenvolvida pela Psicologia de identificação dos planos mitológicos com o inconsciente, ou seja, é uma abordagem científica das práticas religiosas e espirituais que desde sempre existiram. Além disso, vale mencionar um importante tema desse ramo do conhecimento, que são as Sincronicidades. Esse conceito, desenvolvido pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, se refere, basicamente, a eventos que se conectam por uma relação de sentido, e não de causa e efeito. Sabe quando você pensa naquela sua amiga com quem não conversa há tempos e no mesmo momento ela te manda uma mensagem? Isso é sincronicidade. Segundo a visão da ciência clássica esses eventos são meras coincidências, produtos do acaso. A obra de Jung foi importante para mostrar, no entanto, que há coincidências tão significativas que seria tolice ignorá-las como sendo simples aleatoriedades. Esse conceito foi crucial para quebrar a lógica exclusivamente causal vigente até então, uma vez que fenômenos sem qualquer ligação se causa e efeito passaram a ser objeto de estudo científico.

Outro ramo do pensamento que virou de pernas pro ar o modo como entendemos a natureza foi a Física Quântica, que estuda o comportamento das partículas subatômicas. Eu vi você bocejando e pensando em parar de ler quando falei de física, mas por favor não faça isso! Eu sei que parece coisa do outro mundo, mas tem muita literatura especializada na divulgação do conhecimento científico para leigos de uma forma interessante e acessível. Se você quiser se aprofundar no assunto, recomendo a leitura do livro Alice no País do Quantum, que é uma versão do clássico de Lewis Carroll criada pelo físico inglês Robert Gilmore. A história é divertida e bem didática, vale muito a pena!

Bom, retomando nosso assunto, uma teoria muito interessante dessa corrente científica é a “superposição de estados quânticos”. Nome complicado, né? Mas não se assuste, felizmente o físico austríaco Erwin Schördinger, para criticar essa ideia, acabou criando um exemplo muito ilustrativo que, no final das contas, acaba sendo usado mais para explicar como a teoria funciona do que para desacreditá-la.

Imagine que numa caixa contendo um frasco de veneno e um dispositivo acionado por um material radioativo seja lacrada com um gato dentro. O dispositivo tem 50% de chance de ser acionado (por conta da probabilidade do material radioativo emitir, ou não, partículas) e, se o for, quebrará o vidro que contém veneno e, consequentemente, matará o gato. Até abrirmos a caixa o gato, apesar de não podermos saber ao certo, estará vivo ou morto, certo?

Errado! Esse é o “pulo do gato” da Física Quântica em relação à Física Clássica, porque, segundo a superposição de estados quânticos, enquanto a caixa estiver fechada o gato está vivo E morto ao mesmo tempo! Isso porque todas as possibilidades de um sistema quântico ocorrem ao mesmo tempo enquanto esse sistema não é observado, assim, antes de abrirmos a caixa, o material radioativo emitiu E não emitiu partículas e, consequentemente, o vidro que contém veneno foi E não foi quebrado. Tudo simultaneamente.

E sabe o que faz, segunda essa teoria, essa confusão de possibilidades simultâneas acabar e apenas um evento se tornar real? Nossa mente.

A superposição de estados quânticos é dissolvida quando o sistema é observado. A esse processo dão o nome de “colapso dos estados quânticos”. Assim, quando abrimos a caixa nossa consciência seleciona, de modo aleatório, qual dos eventos possíveis se tornará real. O gato, então, deixa de estar vivo E morto para estar vivo OU morto.

Ressalto que essa teoria, apesar de majoritária, não é aceita de forma unânime pela comunidade científica. E eu também não estou afirmando que a Física prova que as pinturas rupestres e todas as formas posteriores de magia existem e funcionam. Não chegamos a esse ponto ainda, infelizmente. Porque, como eu disse, a seleção de qual possibilidade será observada é feita de modo aleatório, e não segundo a vontade do observador. Em outras palavras, não posso escolher se o gato estará vivo ou morto. Mas, de qualquer forma, foi um grande passo resgatar o conhecimento ancestral de que a realidade que nos circunda é moldada por nossa consciência.

Bem, e o que tudo isso, que por sinal é bastante teórico, tem a ver com nossa vida cotidiana? Explico: esse texto serve para embasar uma ideia muito simples, na verdade, que pode parecer clichê, mas faz toda a diferença – cultive pensamentos positivos. Sei que nem sempre é fácil, só que um esforcinho vale a pena, já que, se a partir dos nossos pensamentos não podemos mudar a realidade com certeza, pelo menos podemos atrair experiências positivas. Imagine seus pensamentos (que, no fundo, moldam também seus sentimentos em relação a si mesma e aos outros) como uma frequência sonora, como as de estação de rádio. O que você capta está de acordo com a frequência que você mesmo trabalha, ou seja, tudo que está acima ou abaixo dessa mesma frequência passa despercebido. Por exemplo, se você nutre pensamentos negativos sobre suas habilidades ou sobre seu corpo, além de externar isso para os outros, vai acabar se prendendo sempre naquilo de mais negativo que vem de fora de você. O mesmo ao contrário: se você mentaliza bem forte que é linda, inteligente e divertida, muito mais difícil fica te colocar para baixo, não é mesmo?

Então que tal nesse #verãodopoder sintonizar em uma frequência mais positiva sobre seus atributos e seus planos?

Gabriella Beira
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Gabriella Beira é formada em Relações Internacionais e, como qualquer "internacionalista" (é assim que se chama a pessoa que estuda RI), quer conhecer o mundo todo e, se possível, mudar o mundo. Gosta muito de falar sobre educação, cultura, sociedade e feminismo, mas seu hobby mesmo é jogar Plants vs Zombies. É impaciente, procrastinadora, irmã mais velha e aluna mediana.

  • aeaeae

    tao novinha e escreveu um texto tao bom!

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