1 de dezembro de 2015 | Cinema & TV, Colunas, Se Liga | Texto: | Ilustração:
Pois eu já virei mocinha…: Califórnia

          A década é oitenta, a cidade é São Paulo e a história é da Teca uma adolescente que está passando por todos os dramas, alegrias e irritações dessa fase tão louca das nossas vidas. Na próxima quinta-feira, dia 03/12, estreia no circuito nacional Califórnia, primeiro longa de ficção da diretora Marina Person. Eu já falei desse filme aqui, porque tive o privilégio de vê-lo no festival do Rio. Agora que ele está estreando no grande circuito insisti muito para falar mais profundamente dele, porque esse é um filme que me trouxe tantos sentimentos que eu acho importante lembrar por que vocês precisam ir correndo para o cinema.  

        Primeiro de tudo eu quero falar que esse é um filme adolescente sim e ele abraça isso e valoriza isso demais. Todos os sentimentos de Teca são levados a sério pela diretora, inclusive seus desejos sexuais. Começo frisando isso pois é difícil encontrarmos no cinema, principalmente o nacional, esse foco e esse olhar tão delicado em cima da vida de uma menina de dezessete anos. É tão simples classificarmos que personagens assim e filmes desse gênero são fúteis e sem importância, quando falando por experiência própria, ser uma adolescente mulher é uma coisa bem difícil de ser. Quanto a desejos sexuais então é que nunca nada é falado, nada é dito. Enquanto os meninos pensam em sexo o tempo inteiro, devemos ser puras e ingênuas. Em Califórnia não é assim. Tem uma cena bem divertida que Teca tem uma conversa com uma de suas amigas mais próximas, na qual elas tiram várias dúvidas uma com a outra sobre sexo e falam de seus desejos e fica muito claro qual é o tom do filme.  Esse tom é divertido e engraçado também. Diversas situações que ela passa são identificáveis pra qualquer adolescente seja nos anos 1980, 2000 ou hoje em dia. Desde não saber exatamente como colocar um ob a não saber lidar direito com o menino que você gosta na escola, um dia depois de vocês terem ficado em uma festa, passando por vários momentos de vergonha alheia que são engraçados justamente porque são tão reais.

          Porém o filme não é só risada e ele trata de questões mais intensas também. Teca tem um tio, o Carlos, que mora na Califórnia, com quem ela planeja há anos uma viagem dos sonhos. A viagem vai por água a baixo quando o tio volta para o Brasil, pois está com o vírus HIV e precisa de cuidados médicos. É bem importante falar sobre como o filme aborda a doença, ainda mais quando amanhã é dia 01/12, dia internacional da luta contra a AIDS. Aqui fica claro que o filme se passa sim nos anos oitenta, época que essa doença ainda era sinônimo de morte e estava muito associada ao mundo gay. Ter que lidar com a doença de Carlos faz a cabeça de Teca girar, todos os seus desejos sexuais são de certa forma travados pelo medo da doença e pelo o que está acontecendo com o tio. Outra coisa importante desse medo é que ele vem da falta de informação, do desconhecido. Os pais decidem não contar sobre a doença para ela, o que só a deixa mais perdida ainda e nos mostra a importância de não infantilizarmos, não subestimar adolescentes. Só mais um lembrete sobre o assunto: é muito bom vivermos em uma época em que soropositivos possam ter uma vida e que o resultado positivo não signifique mais morte. Porém temos sempre que nos proteger sim, AIDS é uma doença sexualmente transmissível, ainda sem cura e não podemos nunca esquecer disso.  

           Além do tio Carlos, quero falar de outro personagem que circula o universo de Teca e mexe bastante com sua cabeça, o menino JM. Ele não é o menino que Teca começa o filme apaixonada, ele é o menino estranho que entra na escola no meio do ano, usa sobretudo e lápis de olho, Teca pode não ter se apaixonado por ele de cara, mas eu me apaixonei. JM é enigmático e segue um caminho completamente diferente do que Teca esperava traçar e quando esses dois se encontram é desafiador e surpreendente pra Teca e gostoso demais pra gente assistir. Outra coisa muito legal sobre ele é que sua sexualidade não fica exatamente clara e conseguimos sair um pouquinho do mundinho hétero construído ali. Porque uma coisa que falta ao filme é representatividade. Todo mundo é branco, classe média, magro e cis. Falando em problemas do filme temos uma atuação que deixa um pouco a desejar. Marina optou por um elenco de atores jovens e desconhecidos, quase amadores. Ela justifica falando que queria um frescor e atores sem vícios, o que faz muito sentido ainda mais quando se trata de personagens tão jovens. Só que em alguns momentos a falta de experiência fica bem nítida e atrapalha um pouco, principalmente as meninas que interpretam as amigas de Teca.  

            Precisamos agora também falar de Marina Person, a diretora do longa. É muito importante e inspirador para mim sempre ver uma mulher dirigindo um filme que eu gostei tanto, ainda mais um filme nacional. Isso me mostra que eu também posso chegar lá. Todo o olhar delicado e o poder de dar voz a essa menina protagonista do filme vem de Marina e vem das várias mulheres que ela escolheu para encabeçar outros departamentos da produção do filme. Ela mesma disse na coletiva de imprensa do festival do Rio a importância disso. O valor e o espaço que temos que dar para mulheres no mercado de cinema que ainda é dominado pelos homens. Esse filme é a prova disso, porque quando damos esse espaço, saem filmes assim, que colocam nós mulheres no foco da história e isso é bom demais de ver.

            Vou fechar falando rapidinho de duas coisas. A primeira é a trilha sonora. Ela é bem maravilhosa e ela nos coloca exatamente nos anos oitenta, mas para além disso, nos coloca no sentimento e no clima exato que a protagonista está passando. Seja na festinha da escola que toca Blitz, seja na cena de explosão de ansiedade pulando na cama ouvindo The Cure. Falei muito que esse filme é sobre adolescência e todas as questões que essa fase implica, acabei ficando muito nostálgica e me peguei chorando em cenas sem nem saber o motivo na hora. O filme é pura nostalgia, mas ele também é muito sobre crescimento, sobre tomar decisões e lidar com elas. A cena final do filme é exatamente quando você tem a música perfeita, o clímax perfeito, o sentimento perfeito e sobre o que é essa coisa de crescer. Deu arrepio.    

Dani Feno
  • Coordenadora de Audiovisual
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Música

Dani Feno, 26 anos. Quando era criança foi ao cinema ver Rei Leão a primeira vez e se apaixonou por essa coisa de ver filmes. Mais velha viu um seriado chamado Clarissa e pronto, a paixão passou para seriados também. Foi tão forte que agora trabalha em uma finalizadora de filmes e programas de TV, mas o que gosta mesmo é de editar vídeos para Capitolina. Gorda e feminista desde criança também (apesar de só saber que é esse o nome há pouco tempo). Acha que a melhor banda do universo é Arcade Fire e pode ficar horas te convencendo disso. Em Hogwarts é 70% Corvinal e 30% Grifinória.

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Querendo muito ver esse filme

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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