10 de setembro de 2014 | Edição #6 | Texto: | Ilustração:
Políticas do medo
Ilustração: Luiza Serpa.

Ilustração: Luiza Serpa.

O ser humano não sabe viver senão em sociedade. Sozinhos, não conseguimos viver, tampouco sem regras que determinem os limites e espaços de cada um dentro do sistema social. É preciso haver equilíbrio. Somos animais sociais, portanto precisamos estar inseridos num meio social e interagir com os outros. Mas essa necessidade de inserção em sociedade vai um pouco além. O que nos move a vivermos sob regras e leis não é a vontade de estar em constante interação social, mas sim o medo do que seria essa interação sem uma regra maior. Isso porque, ao estar em contato com o outro, estamos sujeitos ao seu comportamento – benigno ou maligno –, ou seja, se não houver a proibição de invasão de propriedade, provavelmente muitos não teriam mais suas casas; se não houvesse punição prevista para o crime de homicídio, pessoas morreriam por muito menos, e por aí vai. Poderíamos dizer que o que nos motiva a viver em sociedade é o medo do outro, não a necessidade de convivência com ele.

Parece assustador, mas o medo acaba norteando nossas vidas: temos medo de andar nas ruas durante a noite e sermos violentadas, temos medo de deixar a porta destrancada e alguém entrar na casa, temos medo de andar com bolsa em ruas movimentadas e sermos assaltadas; e assim, sem que nós tenhamos plena consciência, vivemos com medo.

Na era da informação quase que instantânea, tudo é propagado muito rápido e, muitas vezes, de forma distorcida. A mídia detém grande poder e, trabalhando com esse medo intrínseco na sociedade, consegue manipular a opinião pública, principalmente no que concerne a política e a justiça. Exemplo disso é a insistência da imprensa em explorar alguns casos de crimes que acontecem no Brasil e chocam a população.

Por exemplo, temos o caso do Mensalão. O Mensalão foi um dos maiores escândalos de corrupção já noticiados, que ocorreu em 2005 com compra de votos de parlamentares no Congresso Nacional. O presidente na época do ocorrido era o Lula, do PT. A imprensa, de forma exaustiva, cobriu todo o caso, formulando opinião e conseguindo manipular a opinião pública. De que forma? Bem, grande parte da população brasileira faz a ligação do PT ao caso do mensalão, e o PT virou sinônimo de corrupção, como se tivesse sido o primeiro partido político a estar envolvido nesse tipo de coisa. Houve trensalão muito antes do PT sequer chegar ao Governo e o montante foi muito maior, entretanto não se houve falar do trensalão, pois a mídia não deu destaque e não expôs o PSDB. Disso veio o medo coletivo do PT no poder, gerou todo um receio da sociedade, pois tanto se ouviu do mensalão que o medo de sermos ainda mais “roubados” geralmente se volta para o PT.

O segundo exemplo do poder da mídia em usar medo coletivo para manipular opinião pública é quando se consegue condenar alguém antes mesmo de haver um julgamento. Dão por garantida a culpa do indivíduo, o condenariam à pena de morte se fosse possível e gostariam de ferir os princípios constitucionais de direito à defesa, entretanto selecionam os casos de uma maneira interessante. Há a marginalização até mesmo no modo como noticiam os crimes de grande impacto na sociedade. Os casos divulgados sempre causam grande comoção e, por consequência, vendem. Por que se focam em mostrar como a justiça precisa ser mais ágil ao condenar o fulano que jogou beltrano de cima do prédio, mas não demonstram interesse em expor as falhas do nosso sistema penal em gastar alguns mil reais do “nosso dinheiro” – que até então brigamos para não ser roubado pelo PT – para manter presa uma mulher que furtou 3 caixas de chocolates no mercado? Porque no primeiro caso envolve um medo que temos instintivamente, o medo da morte, e isso comove, impacta e vende.

Fobia cultural

O medo é algo natural, tão natural quanto paixão, desejo. Muitas vezes tememos porque desconhecemos, outras vezes porque conhecemos – e muito bem. O medo do desconhecido é, no mínimo, natural. Não sabemos como reagir, nem o que pode ou não acontecer, então tememos. Contudo, esse medo pode gerar duas reações: nos motivar ou nos parar.

A fobia cultural tem grande base no medo do que não conhecemos e que nos para, ao passo que instiga outros a conhecer determinada cultura justamente por suas características que lhe são estranhas. Um bom exemplo da fobia cultural que leva a preconceito baseado em medo é em relação a pessoas de origem árabe, especialmente nos Estados Unidos e na Europa. Após o atentado de 11 de setembro, se generalizou um medo da cultura árabe que, apesar de não ter ligação direta aos ataques promovidos pela organização terrorista islâmica al-Qaeda, é relacionada ao atentado toda vez que se fala em terrorismo.

Enfim, o medo não precisa ser algo necessariamente ruim. Não precisamos ter medo de sentir medo, pois é uma forma natural da expressão humana. O importante é tentar buscar ser racional e equilibrado para que se evite os exageros prejudiciais, mas que, ao mesmo tempo, nos proteja do que for realmente prejudicial. E o meu maior medo é de que jamais consigamos chegar nesse ponto.

Priscylla Piucco
  • Membro do Conselho Editorial
  • Coordenadora de Relacionamentos & Sexo

Priscylla. Apaixonada por seriados, kpop, reality show ruim, Warsan Shire e as Kardashians. Odeio o Grêmio e cebola. Prazer, pode chamar de Prih agora.

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