11 de agosto de 2015 | Ano 2, Edição #17 | Texto: | Ilustração: Lila Cruz
Por que ainda parece faltar comida no mundo?

A opinião geral em relação à escassez de comida que parece prevalecer desde o século XVIII até os dias de hoje é baseada na teoria do economista inglês, Thomas Malthus, que defende que a população cresce em proporção geométrica e a produção de alimentos, por sua vez, cresce em proporção aritmética. De forma simplificada, isso quer dizer que tem gente demais e comida de menos, como se a capacidade produtiva da indústria alimentícia não fosse suficiente.

Essa seria a receita perfeita para o colapso mundial, resultando em um cenário catastrófico em que milhares de pessoas morreriam de fome. A teoria malthusiana, aliás, motivou a adoção de políticas de controle de natalidade severas em diversos países.
A história, porém, já provou o contrário: com o desenvolvimento da tecnologia, produzimos alimentos em abundância, o suficiente até para desperdiçar. O Brasil, por exemplo, chega a produzir 185 milhões de toneladas de grãos, ficando atrás somente do maior produtor mundial, os EUA. No entanto, em nosso país, cerca de 7 milhões de pessoas passam fome.

Mas por que ainda há fome no mundo?

MODELO ECONÔMICO

Consolidado desde o princípio das atividades produtivas pós-colonização, o modelo econômico adotado pelo Brasil é o agroexportador, baseado no latifúndio e na monocultura. Essa organização é resultado do imperialismo praticado pelo dito Centro, caracterizado pelos países que conhecemos como “desenvolvidos”. A monocultura exportadora é benéfica para esses países, porque importar bens de baixo valor agregado, como frutas e grãos, faz com que seja mais fácil que eles próprios se especializem cada vez mais em produzir bens de alto valor agregado, como bens de consumo durável e tecnologia de ponta. Então, para enriquecer, um país predominantemente agricultor como o Brasil tem que vender a maior parte da produção, o que impacta na oferta interna de produtos agrícolas.

Para complicar ainda mais a situação, os produtos agrícolas são o que chamamos de commodities, bens de baixo valor agregado, e são exatamente commodities que têm sua demanda e preço afetados em épocas de crise. Não é à toa que aquela música do grupo “As meninas” descreve tão bem o sistema capitalista em que vivemos: “O motivo todo mundo já conhece… é que o de cima sobe e o de baixo desce!”

DESPERDÍCIO

Além do fato de que a maior parte (ou a quase totalidade) da produção nacional de alimentos é exportada para outros países, a parcela que nos resta ainda é desperdiçada: cerca de 50% da produção de alimentos se perde no processo entre a colheita e até chegar às mesas das famílias.

Outro problema que impacta negativamente o acesso de grande parte da população à alimentação é que uma parcela importante da produção de grãos, notadamente a soja, é destinada não à alimentação de pessoas, mas sim a se tornar alimento de gado. No Brasil, cerca de 70% da soja vai para o consumo da pecuária. O efeito disso é que um produto agrícola, que pode servir de alimento para milhares de pessoas famintas, vira alimento de gado, nutrindo uma indústria bastante elitista, já que, em um mundo onde ainda há fome, proporcionalmente poucas pessoas têm acesso ao consumo de carne.

CONCENTRAÇÃO DE RENDA

Todo esse modelo, baseado na produção monocultora, na pecuária, no latinfúndio e na exportação, historicamente foi responsável por consolidar a desigualdade no Brasil – e em todos os países que adotaram esse tipo de organização. Nosso país é marcado pela imensa concentração de renda e pela manutenção do poder das oligarquias que comandam os setores produtivos. Isso deturpa a visão social que temos sobre o uso da terra e mais ainda sobre a causa da fome no mundo: ainda como Malthus, coloca-se a miséria na conta do povo e não dos grandes empresários que lucram com esse problema. Sim, a fome é um negócio muito lucrativo. Aqui um trechinho do meu livro favorito até hoje, Tereza Batista Cansada de Guerra, do Jorge Amado, que foi lançado em 1972, mas é ainda muito atual:

“Se não fosse a bexiga, o tifo, a malária, o analfabetismo, a lepra, a doença de Chagas, a xistosomose, outras tantas meritórias pragas soltas no campo, como manter e ampliar os limites das fazendas do tamanho de países, como cultivar o medo, impor o respeito e explorar o povo devidamente? Sem a disenteria, o crupe, o tétano, a fome propriamente dita, já se imaginou o mundo de crianças a crescer, a virar adultos, alugados, trabalhadores, meeiros, imensos batalhões de cangaceiros – não esses ralos bandos de jagunços se acabando nas estradas ao som das buzinas dos caminhões – a tomar as terras e a dividi-las? Pestes necessárias e beneméritas, sem elas seria impossível a indústria das secas, tão rendosas; sem elas, como manter a sociedade constituída e conter o povo, de todas as pragas a pior? Imagine, meu velho, essa gente com saúde e sabendo ler, que perigo medonho!”

PROGRAMAS DE REDISTRIBUIÇÃO

Por esses e outros tantos motivos é que é tão importante a ação coletiva para a superação das desigualdades e do problema da fome no Brasil e no mundo. Só mesmo com uma reestruturação das políticas de distribuição de renda e com uma mudança profunda no modelo de produção e do acesso aos produtos agrícolas é que podemos enfrentar estes problemas. Apesar de sofrer muita resistência, foi a adoção de políticas paliativas de redução da desigualdade que trouxe melhorias a nosso país: diminuiu-se em 82% a fome no Brasil no período entre 2002 a 2014.

Mas ainda falta muita coisa para mudar.

Gabriella Beira
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Gabriella Beira é formada em Relações Internacionais e, como qualquer "internacionalista" (é assim que se chama a pessoa que estuda RI), quer conhecer o mundo todo e, se possível, mudar o mundo. Gosta muito de falar sobre educação, cultura, sociedade e feminismo, mas seu hobby mesmo é jogar Plants vs Zombies. É impaciente, procrastinadora, irmã mais velha e aluna mediana.

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