29 de outubro de 2015 | Esportes | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Por que amamos futebol americano [e o que precisa melhorar]

Todo setembro é a mesma coisa: o hemisfério norte se prepara pro inverno, nós nos preparamos pro verão e as minhas segundas, quintas e domingos ficam mais ou menos monopolizadas pela NFL. Nos últimos tempos tenho tido cada vez mais companhia – e cada vez mais companhia feminina. Muita gente entende o apelo, mas muita gente também faz cara de “hãããã?” quando digo que Futebol Americano é um dos meus esportes favoritos. Aliás, dos coletivos, é o que mais acompanho mesmo. Mais que o nosso futebol, inclusive, apesar de eu estar sempre mais ou menos por dentro deste também.

O fato é que, como todas as coisas,  esporte também é um pouco moda, e o Futebol Americano explodiu no Brasil recentemente – para a nossa alegria. Como ele é tido como um esporte muito masculino e violento, surgem algumas interrogações nas cabeças das pessoas: como pode mulher gostar disso? Eu vou explicar. E alistei uma turma de amigas e conhecidas pra ajudar a explicar comigo. Quem sabe vocês não animam a começar também. É incrível, eu prometo.

Pra início de conversa, temos uma unanimidade: todas as meninas mencionaram a complexidade das regras e a imprevisibilidade das jogadas como algo que as faz amar o esporte. É uma grande verdade, gente. Porque a coisa não se esgota. Quem nunca prestou muita atenção no jogo reclama que é demorado e para muito, mas se você fizer um esforço pra começar a entender as regras não vai mais querer parar. Porque é inteligente, é multifacetado, tem milhares de possibilidades. A Carol Barra resumiu super bem:

“Sei que todo esporte tem sua complexidade, mas o Futebol Americano especificamente é um esporte que não dá pra você aprender a maioria das regras num jogo só. É algo que sempre vai te surpreendendo. Eu já li várias regras no livro de regras e mesmo assim sempre aprendo algo novo sempre, seja num tipo de ataque ou com uma formação diferente da defesa. A criatividade tem um papel muito importante na vida dos técnicos, e para os espectadores é sempre divertido ver inovarem o esporte e te ensinarem coisas novas.”

Sim ou com certeza? Foi interessante também ler que muitas minas começaram a assistir por causa de seus pais ou namorados, e pensar que, daqui pra frente, caso elas venham a ter filhas, poderão ser elas mesmas as incentivadoras.

Mas tá, até aqui tá tudo muito bom, tudo muito lindo, mas e a quase completa ausência de mulheres na NFL como um todo? E os casos de violêancia doméstica e abuso mal punidos? E as ligas femininas em que as mulheres vestem lingerie? Como a gente lida com todo esse machismo num esporte que a gente ama?

Com paciência e fé, né – que é como a gente lida com o patriarcado como um todo. Risos e choros. A NFL tem uma história longa de casos de machismo e violência contra a mulher (como têm também as ligas de basquete e basebol, diga-se de passagem), e também uma história recente de pequenas conquistas. A Cassie, minha amiga americana que também respondeu ao questionário, lembrou bem duas coisas: primeiro que o fato dela ser fã de futebol não a faz mais ou menos inconformada com os casos de violência. Eles deveriam preocupar a sociedade como um todo, sem exceção. Quando um jogador recebe uma punição maior por fumar maconha do que por bater em uma mulher, isso diz algo de muito podre sobre a nossa sociedade. Inclusive, outra unanimidade entre as entrevistadas é a convicção de que muito dessa impunidade com relação aos casos de violência está diretamente ligada ao Comissário Roger Goodell, que é um reacinha de marca maior. Somos todas #ForaGoodell.

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A segunda coisa que a Cassie lembrou foi que, apesar de serem óbvias as razões pelas quais a liga feminina mais famosa é jogada de biquini, as minas que estão lá são atletas de ponta e estão totalmente focadas em fazer o esporte crescer e prosperar, logo não estão ali apenas para entreter os homens com seus corpos. Super concordo, mas então por que a insistência no uniforme pequenininho? Se a gente for parar pra pensar é a mesma coisa com quase todos os esportes. Vôlei, tênis… muita gente usa a desculpa de que é uma questão de conforto, mas então os homens jogam desconfortáveis? Sei lá. Eu adoraria acompanhar mais o Futebol Americano feminino, e a Carol inclusive me contou que existem outras ligas além da LFL (Legends Football League, antiga Lingerie Football League), mas pra isso acontecer primeiro as pessoas do dinheiro precisam investir…o que me lembra de outro comentário positivo feito por quase todas as entrevistas: o Futebol Americano é um esporte muito justo com relação a dinheiro e aquisição de jogadores, o que o torna muito competitivo e dinâmico.  

Explico: todos os anos rola um “draft”, que é a maneira como os times escolhem os jogadores que estão vindo da liga universitária. O time que ficou em último lugar na temporada anterior será o primeiro a escolher, e assim sucessivamente até que o vencedor do superbowl escolhe por último. É possível trocar de lugar, mas isso ocorre por meio de barganhas, então continua sendo bem justo. Outra coisa bem legal é que, ao final da temporada, os times dividem igualmente os lucros que a franquia gerou naquele ano. Ou seja, todo mundo vai ter mais ou menos a grana pra investir no ano seguinte. Legal, né? E tem o Superbowl, né gente? Já tivemos Queen B., já tivemos Queen Madge, já tivemos Katy, já tivemos Janet… imagina se este ano chamam Tay Tay? Eu acho que faleço.

Animou? Então deixa eu te dar umas boas notícias. Recentemente tivemos a primeira técnica na NFL, além desta temporada estar contando com a primeira árbitra oficial. Jen Welter, assitent coach dos Cardinals durante a pré temporada, e Sarah Thomas, agora juíza full time, estão desbravando os campos e recebendo bastante atenção da mídia. Esse caminho foi trilhado antes pelas jornalistas esportivas, que foram alvo de muito preconceito ao longo das últimas décadas. Duas meninas citaram  trabalho da Judy Battista, então eu fui conferir e ela realmente é fera. Pra quem lê em inglês e curte o esporte, ou está querendo aprender mais, fica a dica pra já ir acompanhando uma cobertura feminina. Aliás, alôu Espn Brasil: bóra colocar uma mulher nesse time já totalmente sensacional de comentaristas? 

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Vou deixar você com mais uns links bacanas, muitos deles brasileiros. Dá pra companhar a movimentadíssima Liga Feminina de Futebol Feminina no facebook (estou amando os nomes dos nossos times!), dá pra companhar outras duas ligas americanas, a IWFL e a WFL, dá pra receber notícias das meninas e dos meninos do site do Futebol Americano Brasil, dá pra acompanhar tudo no site da ESPN Brasil e dá pra ler esta matéria aqui que fala do crescimento do esporte entre as mulheres.

Tô apaixonada por esta foto do perfil da LIFEFA no face. Pós jogo do Corinthians Steamrollers x Aracaju Alfa em Cotia.

Tô apaixonada por esta foto do perfil da LIFEFA no face. Pós jogo do Corinthians Steamrollers x Aracaju Alfa em Cotia.

Por último, mas não menos importante, vale registrar que durante todo o mês de outubro a NFL fez campanha pesada pela prevenção do câncer de mama, com direito a hotsite, jogadores usando acessórios cor de rosa e muitas propagandas na TV. É importante porque é o esporte mais assistido nos EUA, então esse apelo visual realmente surte efeito na população. Nosso futebol brasileiro deveria seguir o exemplo.

Pra encerrar (posso ter uma coluna só sobre futebol americano? risos), proponho que no ano que vem a gente faça uma liga de Fantasy só com minas da Capitolina, e que estejamos sempre unidas contra uns e outros por aí que acham estranho mulher gostar de futebol ou de qualquer esporte que seja. Algumas das minhas entrevistadas relataram casos de preconceito, tipo caras escrotinhos falando besteiras em redes de Fantasy ou caras que se espantaram com o fato de uma mulher realmente conhecer as regras do jogo. Tenho notícias pra vocês, rapazes: vai ter mulher no futebol americano sim, e se reclamar a gente toma conta de tudo.

Luiza S. Vilela
  • Coordenadora de Culinária & FVM
  • Colaboradora de Estilo
  • Colaboradora de Esportes
  • Revisora

Luiza S. Vilela tem 28 anos e mora no Rio, mas antes disso nasceu em São Paulo, foi criada em Vitória e viveu uma história de amor com Leeds, na Inglaterra, e outra com Providence, no Estados Unidos. Fez graduação em Letras na PUC-Rio e mestrado em Literatura e Contemporaneidade na mesma instituição. É escritora, tradutora, produtora editorial e acredita no poder da literatura acima de todas as coisas.

  • Carolina Barra

    Adorei, Luiza! Mandou muito bem! E já to dentro dessa liga de fantasy! É o meu vício rsrsrs

  • Henrique Riffel

    Obrigado pela referência ao Futebol Americano Brasil, Vilela.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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