26 de setembro de 2015 | Literatura | Texto: | Ilustração: Jordana Andrade
Por que analisar? ou Uma brevíssima explicação dos diferentes níveis de contato com o texto

É muito provável que você alguma vez tenha ido ler um livro e acabou se pegando só passando os olhos nas frases, virando as páginas, cumprindo ali um exercício árduo e trabalhoso de olhar palavrinhas que você num minuto depois nem lembrava mais sobre o que eram. Quem nunca, né?

Quando isso acontece – e quando realmente temos que entender aquele texto – é natural, e por vezes muito cansativo, ter que retroceder as páginas que passamos para relê-las com mais atenção.

Mas não é engraçado que, apesar de termos lido, de termos reconhecido todas aquelas palavras, ainda assim não termos conseguido absorver o que o texto nos dizia?

É numa situação dessas que podemos compreender a grandessíssima diferença entre uma simples decodificação de palavras de uma leitura efetiva. Quando lemos as coisas com a cabeça lá num longínquo lugar na lua, nós somente reconhecemos as letras, deciframos o código do som das sílabas sem pensarmos em como elas, juntas, nos passam determinada mensagem. Quando decodificamos, não temos capacidade para reflexão: realizamos apenas um exercício mecânico, sem conseguir tirar nenhum conhecimento sobre o que acabamos de ler. Agora, quando lemos de fato, conseguimos inclusive visualizar o texto: as coisas nos parecem nítidas, compreendemos os argumentos, tecemos o discurso na nossa cabeça e podemos refletir sobre o que lemos.

Pode parecer bobeira, mas compreender um texto é algo muito importante e que certamente, mesmo sem você saber, faz parte do seu cotidiano. Afinal, como você seria capaz de refletir sobre uma série de pichaçõe que você viu nos muros das ruas e que tanto te fizeram pensar? Ou como você teria se emocionado com certa passagem de algum livro, ou se desconcertado com algum verso de alguma música ou poema? Sem compreender textos, você não entenderia muito bem o mundo, que se movimenta em grande parte através da linguagem.

Tudo isso pra explicar que no momento que lemos efetivamente um texto e conseguimos compreendê-lo – adoro essa palavrinha – temos mais do que o suficiente para fazer um negócio chamado análise. Analisar um texto, dizendo de modo bem simples, é conseguir explicar o texto e refletir sobre ele. É, por exemplo, quando alguém te pergunta sobre do que se trata o livro que você está lendo, e daí você, muito contente, faz um pequeno resumo: diz o que acha dos personagens, de como é contada a história, se fez alguma associação desse autor com outro, se te parece que o escritor tinha a intenção de falar de determinado tema e essas coisas. Analisar, de certa forma, é através da leitura pensar sobre aquilo que lemos e contar para os outros o que pensamos a respeito do texto.

Então daí surge aquela pergunta: mas e aí? Qual a importância disso?

A importância disso, e olha só, é que ao analisar algum texto e compartilhar a sua análise você está contribuindo – e muuuuuito – para as diferentes compreensões que as pessoas têm daquele texto também. Talvez você acredite que não, mas a verdade é que tudo o que pensamos, sentimos e como expressamos todas essas coisas que nos fazem ser o que somos acabam aparecendo quando analisamos um texto literário. Então sim, isso é muito importante! Tanto para o texto – que certamente ficará honrado em ser pensado por você – quanto para as demais pessoas que também tem algo a dizer sobre aquele livro, conto, poema, carta…

 

Às vezes, quando arriscamos ler algo que já foi muito analisado, como as chamadas obras clássicas – ou, em termos técnicos, os cânones literários – temos o hábito de achar que não podemos dizer nada a respeito, afinal, quem somos nós para palpitar sobre uma coisa tããããão inteligente, sofisticada, elaborada, etc, etc?… Ficamos inseguras, por vezes até desistimos da leitura, porque achamos que não somos capazes de compreender o ó-tal-grandioso-livro.

A verdade é que esse é um pensamento cruel que nos afasta de conhecer textos que poderiam nos encantar muito. Dar uma chance é sempre bom! Pode acontecer da leitura ser um pouco difícil, pode acontecer de você não estar num momento de sintonia com a obra… Mas isso não significa que você não possa, algum dia, voltar a lê-la. Porque olha, se tem um destino muito triste para os livros, esse destino certamente é o de nunca ser lido, de não ter sua história contada.

No final das contas, analisar um texto, mais do que compreendê-lo, é também a possibilidade que você tem de se expressar, de se misturar um bocadinho com o que leu, e de permitir que outras pessoas possam, a partir do que você tem a dizer, refletir também e, claro, discutir também.

Porque afinal de contas, todas temos muito a contar.

E há muitos textos ainda à espera para serem contados!

Marina Lazarim
  • Colaboradora de Literatura

Marina nasceu em abril de 1993 em São José dos Campos, no interior de São Paulo. Seu endereço é desmembrado: um pedaço lá em São José, um bocado na capital de São Paulo e o restante em João Pessoa. É estudante de Letras na USP e adora poesia portuguesa. Marina prefere o verão ao inverno, gosta de signos de água, não dispensa a sonequinha da tarde e não hesita em trocar qualquer refeição por uma bela sobremesa.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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