24 de abril de 2018 | Ano 4, Edição #44 | Texto: | Ilustração: Guillermina Roburo
Por que as mulheres devem (ou não) se manter misteriosas e cheias de segredos?

A vida das mulheres e suas ações estão sempre sendo observadas e julgadas a partir de uma série de estereótipos que tentam determinar o jeito certo de agirmos na hora de comer, andar, falar, nos interessarmos por algum assunto etc. Essas regras impostas pela sociedade buscam definir o que é “correto” no ser mulher, na feminilidade e como devemos expressar todas essas características. Como exemplos de estereótipos, podemos relembrar muitos: uma mulher deve ser frágil, educada, cuidar de sua aparência e, atributo do qual falaremos mais nesse texto, misteriosa.

A ideia de que a mulher deve ser misteriosa, manter segredos e que não deve revelar muito sobre si mesma, seja no âmbito de suas experiências, vivências, saberes e vontades, está presente em diversos meios de comunicação e discursos. É comum que a gente se depare com revistas, programas, filmes que reafirmam a noção de que é bom que as mulheres “mantenham sempre que possível um toque de mistério”, de que as mulheres poderosas são “as que também sabem conquistar os homens porque são mais misteriosas, menos entregues e menos disponíveis” e que “o ar de mistério é um dos segredos para deixar um homem querendo mais”.

Ao pensar sobre essas afirmações, diversas perguntas surgem. Por que a mulher deve ser ou deixar de ser misteriosa? Devemos moldar nosso comportamento para atender a um padrão e agradar aos homens? Por que expor nossos pensamentos, vivências e vontades incomoda tanto?

Há várias áreas nas quais é possível imaginar que o mistério é bem-vindo dentro de um pensamento conservador e machista. Dentro do universo da sexualidade, o discurso machista é de que a mulher deve “se guardar”, manter segredos que mantenham os homens interessados e não revelar demais de si; já dentro do espectro intelectual e das opiniões, a mulher supostamente não deveria mostrar demais o que sabe sobre as coisas, ou seja, é melhor ficar calada e guardar para si seus conhecimentos, vivências, opiniões e saberes. Ainda é possível pensar no espaço da política, no qual as mulheres tantas vezes são invalidadas (o famoso “mulher e política não combinam”): por ser um espaço público de atuação, esse não pertenceria à mulher, que devem se encarregar somente do espectro privado, ou seja, a casa e a família. Essa ótica é machista, conservadora e parte do pressuposto que a mulher deve agir para agradar aos outros, normalmente homens, e não a ela mesma ou colaborar com os projetos dos quais ela acredita.

Há a possibilidade alternativa de pensamento que, a partir do feminismo, busca a independência, a emancipação e a possibilidade das mulheres, em toda a sua pluralidade, tomarem suas próprias decisões e caminhos a partir de suas crenças e valores pessoais. As mulheres, portanto, não precisam moldar seus comportamentos buscando agradar, ser queridas ou desejadas pelos homens, a não ser que queiram. Elas podem escolher tanto ser reservadas quanto abertas, e usufruir, assim, das possibilidades de cada escolha; podem escolher guardar seus conhecimentos e opiniões ou expor eles e se colocar publicamente; podem escolher ser mais ou menos reservadas em relação ao sexo e à sua vida sexual. Ou seja, as mulheres tem todas as possibilidades que quiserem.

Quanto à dita preferência dos homens que as mulheres não exponham seus saberes e opiniões, pode ser que essa atitude cause neles temor pois, assim, elas mostram e se reafirmam como tão inteligentes, capazes e relevantes quanto qualquer homem ou pessoa. Sendo assim, de fato, as mulheres têm toda a capacidade de escolher seus caminhos e preferências sem precisar se prender ao que é considerado certo ou melhor por alguns.

Portanto, o estereótipo da mulher misteriosa e resguardada, como tantos outros estereótipos, serve aos interesses machistas e não às próprias mulheres. Esse padrão desconsidera a pluralidade e possibilidade de escolha que as mulheres possuem, sendo sujeitas de suas próprias ações e vidas. As mulheres devem poder escolher viver suas características do jeito que julgarem mais adequado, seja recorrendo ao mistério ou não.

Daniela Matos
    Colaboradora de Sociedade

Um pouco de tudo: muito comunicativa, meio programadora, bastante feminista, quase internacionalista e uma futura viajante. Escrevo o roteiro da série sobre a minha vida dentro da minha cabeça (é por isso que as vezes eu rio sozinha) e gosto muito de batatas.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos