19 de outubro de 2015 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração: Nathalia Valladares
Por que eu não quero ver mais o garoto popular se apaixonar pela garota excluída.

Ela é uma menina excluída, pode ser por ser nerd ou só esquisita mesmo, isso varia. O importante é que ela não é aceita, está fora dos padrões de alguma forma e por isso vive na invisibilidade do ambiente escolar, sendo lembrada somente na hora da humilhação, na hora do bullying. Do outro lado temos o menino, ele é o oposto. Ele é considerado muito bonito está dentro dos padrões, é querido por todos ou é algum tipo de atleta ou tem uma banda. Por alguma razão cósmica esses dois se encontram e se apaixonam e no meio de muitas confusões, dramas e lágrimas, eles finalmente ficam juntos e são felizes para sempre. Quantas vezes você já não viu essa história? Eu, pelo menos, acho que tenho uns cinquenta exemplos para dar, de Clube dos cinco (The Breakfast Club, 1985) a Malhação (1995-Atualmente). Eu costumava ver essas histórias e achar tudo lindo, sem nem me importar que estava vendo a mesma linha narrativa pela trigésima vez e ficava sonhando à espera do meu menino popular chegar. Até que em um momento eu pensei: ei, tem alguma coisa errada aí.

                   Primeiro vamos começar com o fato que todas essas histórias são heteronormativas. Nunca temos a menina popular e a menina excluída ou qualquer outra coisa que explore outras sexualidades. Então entramos na grande questão do estereótipo. Narrativas assim criam padrões a serem seguidos. A “nerd”, o “atleta”, a “menina bonita má”, o “rebelde”, tudo isso são estereótipos que nos colocam em caixinhas nos dando uma lista de comportamentos para seguirmos e nos encaixarmos neles. Quando nós sabemos que os seres humanos são seres complexos e devem fazer o que bem entenderem, não cumprindo um único papel. Não existe essa coisa de perfis fixos que devemos nos enquadrar. Somos muito mais que coisas estáticas. Personagens estereotipados são personagens rasos e vazios. Além disso, a partir do momento que estabelecemos esses esteriótipos também garantimos que uns são melhores que os outros. Porque nessas histórias, sempre a grande surpresa é “oh! Como pode ele se apaixonar por ela??”. Como ele, que está nessa casta superior dos atletas / guitarristas e pessoas bonitas, conseguiu se apaixonar pela menina que está lá embaixo da cadeia alimentar, a menina que ninguém quer? Não, apenas parem, com esse pensamento! Somos pessoas únicas e ninguém é melhor do que ninguém.         

            Outro ponto que vale falarmos é que nesses filmes, geralmente, vai ter a “menina bonita má” que eu já mencionei. Ela é a menina que o menino bonito deveria estar namorando, se a ordem natural das coisas não tivesse sido interrompida, a que faria sentido, segundo esse mundo de padrões pré-estabelecidos. Ela vai ficar enfurecida por ele ter escolhido namorar outra, supostamente, inferior a ela. Nós, espectadores, passamos a odiá-la. Afinal, a mocinha do filme é a outra. Só que esquecemos que “menina bonita má” também é humana, tem desejos, vontades e inseguranças. Novamente há o problema de personagens estereotipados quando ela é somente a “menina bonita má” sem sentimentos e questões próprias. Ela se torna uma personagem unidimensional e fraca. Além de tudo, essa rivalidade entre garotas só alimenta a rixa entre mulheres e estimula a falta de sororidade, nos colocando como inimigas.

                   Seguindo essas narrativas também temos um outro ponto comum da história. O momento da transformação. O momento em que os óculos vão virar lentes, as roupas largas vão ficar justas, o momento do close no rosto do menino e ele falar “UAU”. É a famosa cena do filme Ela é demais (She’s All That, 1999) em que Laney (a menina excluída) desce as escadas, toda arrumada. Esse momento é repetido em infinitas outras historias, em diversos outros formatos, mas querendo dizer a mesma coisa. É como se esse cara tivesse achado um “diamante bruto”, que ele vai lapidar para fazer aquela menina ficar exatamente no padrão de beleza das outras que estão na casta superior das pessoas bonitas como ele. É como se toda a beleza padrão já existisse e a menina só precisasse “se cuidar”, “se arrumar”, “das roupas certas”. Porque seria um abuso ela estar junto com ele exatamente do jeito que ela é, de óculos e tudo mais. É como se isso nao fosse o suficiente, ela precisa se enquadrar no padrão, para seguir nesse romance.

                   Isso me faz lembrar uma outra coisa, uma tecla que eu bato sempre, a tal representatividade. Porque essas meninas nerds e outsiders dos filmes e séries estão sempre no padrão sim. Elas não são gordas, elas não são negras, elas não são trans, elas não têm nenhuma deficiência física ou mental (não vou entrar no fato de elas não serem lésbicas ou bisexuais, porque essas histórias são sempre tão heteronormativas). De forma alguma quero dizer que meninas que não fazem parte dessas “minorias” não sofrem bullying na escola, basta você ser um pouco diferente, se destacar um pouco do comum que no ambiente cruel do colégio isso pode ser um gatilho para humilhações. Agora, vamos ser honestas: quem são as meninas que estão mais vulneráveis? Que já sofrem opressões no mundo, que vão ser mais machucadas na escola? Só que essas meninas não têm espaço no cinema e na tv. As gordas, negras, trans podem ser as esquisitas na vida real, mas na midia elas nem existem. Porque talvez não tenha transformação que faça elas entrarem no padrão? Assumir que elas são lindas do jeito que elas são também não pode de forma alguma, então, que não existam.

               Não vou negar que a história do outro lado também acontece, que também tem o menino nerd apaixonado pela menina mais popular da escola, porém, o número ainda é mais significativo para o lado das meninas excluídas. Quantas “make-overs” de homens você já viu nesses filmes? No fim das contas esse tipo de narrativa é só a velha história do príncipe encantado que vai resgatar a donzela, adaptada para os dias atuais. Continuamos sendo indefesas vivendo nesse mundo de opressão esperando o dia que o príncipe vai chegar e nos resgatar dessa vida de sofrimento. Era essa a mensagem que era passada pra mim, nerd e gorda esperando ansiosamente o dia que o meu príncipe iria chegar e me tirar dali. Que alguém fosse me enxergar. Como se eu não fosse suficiente do jeito que eu sou. Não precisamos de resgate, não precisamos de “make-overs” para entrar no padrão de ninguém, não precisamos que os homens nos digam que somos lindas. Somos lindas e poderosas do jeito que quisermos ser, “make-overs” só se for para nós mesmas, nos arrumarmos pra gente. Isso que é apaixonante. Roteiristas, vamos mudar essas histórias, queremos ver muito mais que isso.

Dani Feno
  • Coordenadora de Audiovisual
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Música

Dani Feno, 26 anos. Quando era criança foi ao cinema ver Rei Leão a primeira vez e se apaixonou por essa coisa de ver filmes. Mais velha viu um seriado chamado Clarissa e pronto, a paixão passou para seriados também. Foi tão forte que agora trabalha em uma finalizadora de filmes e programas de TV, mas o que gosta mesmo é de editar vídeos para Capitolina. Gorda e feminista desde criança também (apesar de só saber que é esse o nome há pouco tempo). Acha que a melhor banda do universo é Arcade Fire e pode ficar horas te convencendo disso. Em Hogwarts é 70% Corvinal e 30% Grifinória.

  • Leonardo de Vasconcelos Santan

    Muito bom o texto, isso me lembrou a série My Mad Fat Diary, se passa na década de 90 econta a historia de Rae, uma adolescente acima do peso que precisa lutar contra sua depressão(e atentado de suicídio) porque não se encaixa nesses padrões impostos. A série trilha o caminho dela desde o fundo do poço até o momento de libertação, quando ela aprende a lidar com quem ela é e amar a si mesma desse jeito. O melhor é que a história tem esses estereótipos adolescentes, o cara gato e gostoso, a patricinha vilã, mas ela se desenvolve de maneira totalmente amorfa ao que se espera no começo dos primeiros episódios. Esse pessoal vira amigo de Rae, eles ajudam ela a lidar com esses problemas, curtem as mesmas músicas, saem para festas, e o mais importante, mostra o problema na vida de cada um deles, e como a presença de Rae foi importante para que eles acordassem para quem verdadeiramente são. A última season foi ao ar esse ano, uma pena, a série era incrível e teve um desfecho tremendo.

  • Winnie

    Na verdade, o contrário também existe e são muitos exemplos… o garoto nerd excluído (e branco cishet) que se apaixona pela garota popular e/ou descolada, mas nesse caso a personagem feminina é usada como escada para o protagonista, são as famigeradas manic pixie dream girls.

  • Anna Toledo

    E só para complementar… Não precisa ser linda, se não quiser. Não há nada de errado em não ser bonita, é só uma características em várias. Não ser bonita não é motivo de pena ou de construir significados de beleza para se encaixar.

  • Bárbara Carneiro Felix

    Eu não sei o que dá nessas pessoas que acham que TODAS as garotas precisam de um príncipe :p Bem, se eu fosse realmente falar tudo o que eu AMEI nessa matéria, iria render três cópias da bíblia, então melhor deixar quieto :v enfim, amei essa matéria, ela é perfeita em todos os sentidos, parabéns! <3

  • Emily Sousa

    Adorei o texto, principalmente pelo fato que sempre me vi, assim como a autora, no lugar da mocinha esperando que realmente a solução de todos os meus problemas fosse apenas um pente de cabelo, um lápis no olho e o menino mais bonito da sala finalmente me convidar pra sair, via isso tanto nos filmes quanto livros.
    Além do que foi dito no texto eu sempre percebia que a “menina bonita má” era sempre lida como fútil e arrogante a ponto de ignorar completamente os estudos, já que well ela era toda dentro de um padrão e isso solucionava todos os seus problemas, exceto em relação a nerd que entrava no seu caminho. Em compensação era como se fosse ruim só ser bonita e acabar sendo má e passar o tempo todo só pensando em garotos e em maquiagem, você queria ser como a mocinha com o pacote completo, inteligente, carismática e opa! agora era linda e tinha um romance maravilhoso com o cara dos sonhos que a resgatou do abismo de solidão sem fim (engraçado que poucas delas tinham amigos, era isolada ou sofria bullying demais para ter. Se tinha era a fiel escudeira que era tão “esquisita” quanto ela ou era dentro dos padrões que entrava na história só para ser o ombro amigo, não tinha enredo, muito menos personalidade).

    Depois de um tempo comecei a notar a inserção de “meninas bonitas más” sendo super inteligentes, senão a primeira da classe, o que começou a ser descrito como forçado, como pode alguém tão dentro do padrão ser inteligente e ainda por cima má? Como podem sair desse estereótipo que está há tanto tempo encarnado em nossa mente? Então aparecem críticos enchendo a boca pra falar um “Ah ela não convence como uma intelectual, ou uma cientista, pois é bonita demais!”, sendo a vilã ou não, isso não encaixava, como aconteceu com a Olivia Wilde que teve a atuação questionada pelo fato de ter o bumbum bonito demais pra atuar convincentemente como uma escritora (Wat?).

    Enquanto isso as mocinhas passaram a se destacar cantando, dançando (ai Disney -_-), ou sendo a meiga que quer ajudar todo mundo, mas é só uma menina comum e não entende porque o capitão do time de futebol ainda repara nela, isso quando ela não tem habilidade alguma, já é a mocinha apenas pelo fato de existir e ter um cara endeusado a fim dela e pronto, um best seller prontinho com pitadas de relacionamento abusivo. O pior de tudo isso, é que mesmo a garota excluída no começo da história ter uma personalidade incrível ou objetivos de vida bem definidos, vai sendo tudo jogado para segundo plano para ela se transformar apenas no foco central da história: Na namorada do cara. Mesmo que não fique claro qual seja a sua história, se foi o bullying que a fez se fechar e focar nos estudos, se ela teve escolha, o porque de ter habilidades incríveis ou no mínimo de como tem uma personalidade apaixonante, não é disso que nenhum filme parece querer trabalhar, é tudo uma escalada pré definida apenas para nas cenas finais os mocinhos ficarem juntos, a mocinha má se ferrar, o rebelde ás vezes mudar para se encaixar também e todo mundo acreditar que foi a história de amor mais linda que já viram.
    Realmente, é até vergonhoso pensar que uma coisa tão mal elaborada e fraca ter sido reproduzida tantas e incansáveis vezes a ponto de se tornar nada mais que um clichê que é aceito até hoje.

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  • Izabele Renata

    Amei a matéria. Sempre, até concordar com o feminismo e me auto-intitular feminista, achei comedias românticas incríveis. Meu lado otimista achava elas assim, pelo fato de a garota atrapalhada conseguir que um homem gostasse dela (afinal é o mais importante!!) e pudesse ser feliz para sempre. Até meu lado de criança e pré-adolescente otimista em relação ao que o filme passava de ensinamento estava errado, mas muito errado.

    Era como se fosse um tipo de diversão para mim, assistir e suspirar pelo amor verdadeiro que ainda existe por ele a aceitar como namorada. Erros: 1 – Se é amor verdadeiro não precisa mudar para que o outro aprove. Afinal não se pode expressar um GRANDE amor estando fora do padrão de beleza, não é? Claro que não. 2 – Ela enfim encontrou alguém que gostou dela (ou dele, dependendo do filme – acontece com eles também) e poderia viver feliz para sempre (oprimida e “escravizada” pelo seu companheiro e a sociedade – boa parte dela faz isto) como se aquela pessoa que a conheceu ou reparou nela a pouco tempo, sabia exatamente como era a sua “essência” e ela nem imaginava.

    Ficava bastante frustada quando a protagonista não terminava com nenhum homem, era a graça do filmes. Se fosse diferente, era chato e sem graça. Em poucos, protagonista fazia coisas incríveis e eu nem dava valor e muitos dos que assistiam.

    Nunca tinha parado para pensar de forma mais profunda sobre como tinha um machismo absurdo por todo lado nestes tipos de filme. Só esteriótipos masculinos e feminismos que não se a semelham a realidade ou quando se assemelham, são de forma muito superficial, estão bem presentes. Tudo errado, tudo errado.

    Assim que acabei de ler a matéria lembrei de um assunto talvez polêmico. As que estão no padrão, elas são muito julgadas por ambos os “grupos” – lembrando que não são todos, não estou generalizando o pensamento das pessoas.
    Não tem muito haver com a matéria, mas vi matérias criticando a boneca/figura fictícia, Barbie, de como ela era uma boneca que estava no padrão de beleza (sim, está!) e “pregava” que todas a garotas devem ser assim, pois ela era “””””perfeitinha”””””” visualmente . Parece idiota discutir sobre isso, mas vou dizer mesmo assim, principalmente se tratando de uma personagem infantil. Já assisti muito dos filmes deste personagem quando menor e não concordo com as falas de muitas mulheres que passaram a odiar-lo. Sim, tem bonecas padronizadas na questão beleza, mas também mostra que a mulher pode ser protagonista da sua vida e ter histórias incríveis pra contar (não em todos os filmes, claro). Não trata de assuntos tão profundos, mas não é ruim como falam. É como se pela sua aparência aquilo que ela fizesse, de forma proposital ou não, não tivesse tanto valor. Eu sei que é um questão que parece banal, mas mesmo assim gostaria de falar. Não sei se estou correta nas minhas afirmações sobre o desenho, mas essa foi a minha interpretação. Lembrando que não é uma crítica ao texto e sim que lembrei do assunto e quis expor. 🙂

  • Dayane

    Parabéns o texto ficou ótimo,e você tem opiniões muito fortes a respeito desse assunto,gostei muito.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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