25 de janeiro de 2015 | Edição #10 | Texto: e | Ilustração: Isadora M.
Por que fazer você mesma?
Ilustração: Isadora M.

 

Na Capitolina, temos uma seção inteira dedicada ao faça você mesma e à culinária, cheinha de tutoriais bacanas e uma coluna de introdução linda da Luiza falando sobre o assunto. Mas por que fazer vocês mesmas e o que isso tem a ver com empoderamento? Mais do que um hobby cultivado só no Pinterest, a cultura do faça-você-mesma já foi considerada política, foi estudada por filósofos, fez parte da onda punk, inundou a internet e tem sim tudinho a ver com o nosso tema do mês, poder.

No corre-corre da vida, a gente consome uma variedade tão absurda de coisas e de forma tão frenética que acabamos banalizando os caminhos e os processos até que elas cheguem até nós. Tudo parece tão distante, inalcançável e alheio.

Quando somos crianças, temos mania de perguntar o porquê das coisas, vivemos encostados no balcão da cozinha perguntando como (por favor, por favor) podemos participar. Crescendo, vivemos rodeados de métodos, dos mais cotidianos: nossos pais lavam a roupa branca de um jeito diferente da colorida, ajudamos a enrolar brigadeiro e a untar a forma do bolo. Quando somos lidas como meninas na infância, ainda tem mais uma porção de aprendizados que nos são passados, principalmente atividades mais artesanais, como bordar e costurar, que são atividades tipicamente associadas a “ser feminina”. Mas qual é a diferença de aprender a costurar para o lar e por que você deve e aproveitar esses aprendizados para criar algo novo? Toda!

Fazer você mesma é retomar o interesse pelo caminho das coisas, incorporar eles à sua vida. Que tal fazer os presentes do seu próximo amigo secreto, por exemplo? Ou testar e inventar receitas novas? De repente alguma técnica de costura que sua avó te ensinou aos sete anos pode ser muito útil para consertar uma roupa agora.

A ideia de que podemos, com os nossos conhecimentos e ferramentas, criar e consertar coisas, a ideia de que podemos usar os utensílios que tempos disponíveis para sobreviver é o que o antropólogo Levi-Strauss definiu como bricolage, ou bricolagem.

Mais tarde, tudo isso foi casado com a ideologia do anticonsumismo na cultura punk e o FVM (em inglês, DIY – do it yourself) ganhou novas camadas de significado: aprender a produzir suas próprias coisas (ou escrever sua própria música com três acordes, haha) te torna independente, até onde é possível, de um sistema baseado na exploração que aproveita o seu distanciamento dos tais processos.

Hoje em dia, depois da internet, a cultura do FVM só foi mais e mais impulsionada e foi a internet a responsável por realçar uma das características mais legais dela: a troca de conhecimentos. Fazer você mesma também é fazer com os outros! Se eu sei fazer x e você y, por que não nos ensinarmos? O youtube tem horas e horas de tutoriais totalmente gratuitos e é possível aprender quase qualquer coisa (foi como eu aprendi a dobrar lençóis com elástico, por exemplo). O Movimento Maker e as comunidades de hardware livre são uma versão mais cibernética do DIY e pessoas comuns criam protótipos dos tipos mais malucos de tecnologia, o que sem a ajuda dos outros nos fóruns da internet pareceria impossível até então. Sites como o Bliive e até as comunidades de troca no Facebook (várias são só das mina, inclusive) ajudam mais ainda nessa troca incessante.

Além de tudo isso de reclamar para si o que antes parecia muito distante e intervir, outra vantagem, uma das principais, de fazer você mesma é que no geral tudo pode sair muito mais barato. Com o encurtamento da cadeia de processos, aos poucos aprendendo fazendo, é possível diminuir pra caramba o custo com o que você consome e melhor ainda, customizar as coisas para a sua necessidade, já que elas não foram produzidas em grande escala e podem ser transformáveis. É claro que tudo isso demanda tempo e, no geral, ter bastante tempo também é um privilégio, mas a internet também é boa em dicas para processos mais simples.

A vida em si é uma bricolagem de bricolagens. Nunca sabemos o que vai aparecer e usamos as nossas ferramentas – as metafóricas e as de verdade – para lidar com o que vier. Você já faz você mesma! Agora é só descobrir mais maneiras ainda.

Isadora Maldonado
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Isadora N., 21.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.