14 de agosto de 2015 | Culinária & FVM | Texto: | Ilustração: Beatriz Leite
Por que você não come isso? Dietas restritivas e germinação de grãos

 

Uma vez, algum tempo atrás, eu tinha doze anos. E, numa tarde qualquer, minha mãe soltou durante o almoço: “Acho que devíamos cortar o consumo de frango. Ou pelo menos diminuir… eu ouvi umas coisas sobre como tratam eles. É, vamos diminuir.” Então, eu, na minha ingenuidade TOTAL, fui perguntar à internet como são tratados os frangos, os bois e os porquinhos. Daí que começaram os primeiros três anos de vegetarianismo na minha vida.

Mas essa experiência foi meio traumática, e eu não recomendo começar assim! Aos poucos, passei a pesquisar coisas relacionadas ao vegetarianismo e, nessas pesquisas posteriores, descobri alguns motivos melhores para explicar por que algumas pessoas são vegetarianas, veganas, vegetarianas restritivas, frutígeras, crudívoras… Descobri que existem diversos tipos de dietas diferentes, com mais ou menos restrições, por motivos variados.

O texto de hoje se propõe a falar brevemente dessas diferentes dietas e suas razões de ser, além de ensinar a vocês uma técnica de consumo de alimentos que cabe em diversos tipos de dietas restritivas, e de quebra ainda é EXTREMAMENTE nutritiva.

Vegetarianismo

Sempre bom começar pelo começo. A dieta vegetariana é aquela que exclui totalmente o consumo de carne. Vermelha, branca, amarela, roxa… não importa qual. Há quem coma apenas peixes e/ou frutos do mar e se diga vegetariano, mas, pra mim, esse conceito de vegetariano que come peixe é equivocado.

Os motivos que levam uma pessoa a escolher não comer carne podem ser os mais variados, desde o simples “tenho dó dos animais”, passando por não gostar do gosto, até razões bem mais complexas. Conforme os motivos vão amadurecendo em diferentes direções, novas restrições podem surgir, daí os grupos de vegetarianismo específicos que vou tratar a baixo.

Ovolactovegetariano & lactovegetariano

Pouca gente irá se identificar dessa maneira. Provavelmente, quem segue esse tipo de dieta se diz apenas vegetariano. A primeira exclui a carne, mas mantém os ovos e os derivados do leite (iogurte, queijo, manteiga). A segunda mantém apenas o leite e os derivados.

Aqui os motivos são bem mais extensos, porque vão além do simples paladar. Algumas pessoas acreditam que todo ovo necessariamente carrega um pintinho, o qual estaríamos matando. Isso não é verdade – nem todo ovo é necessariamente fecundado. Outros não comem por motivos religiosos. Em quase todas as vertentes do hinduísmo, ovo e carnes são proibidos. Apenas o leite é permitido, e é considerado um alimento sagrado.

Vegetarianismo restritivo & veganismo

No vegetarianismo restritivo é vedado o consumo de todo e qualquer derivado animal. Sem ovos, sem leite, sem gelatina. Algumas pessoas se identificam dessa forma e consomem mel, outras não.

O veganismo leva a questão do “não-consumo” para além da alimentação. Não pode ter ingrediente ou material de origem animal em nada. Nem nos cosméticos, nem nas roupas, nem nos móveis. Sem couro, sem lã, sem mel, sem marfim, sem pele, sem gelatina. Na prática é muito difícil ser 100% vegano. No entanto, aqueles que se identificam dessa maneira se comprometem com a busca por reduzir ao mínimo o consumo de derivados animais.

As razões do veganismo e do vegetarianismo restritivo para não consumir carne são mais próximas do que a minha mãe estava falando quando me disse que deixaríamos de comer frango: a maneira como são tratados esses animais. O veganismo acredita que não só matar os animais é violento, mas criá-los para consumo também. Há quem ache cruel o tipo de criação feita hoje em dia, e por isso não compre os produtos de origem animal. Dentre esses, há quem coma apenas alguns produtos específicos de “criação orgânica”, onde há menos uso de antibióticos e hormônios – isso se os animais não forem tratados com homeopatia (parece que isso rola mesmo). Nesse tipo de criação orgânica há um espaço mínimo para o animal andar e se mover, e eles também são alimentados com menos ração industrializada e mais pasto, além de insetinhos, grãos orgânicos e por aí vai.

Também existem os veganos que acreditam que qualquer tipo de criação é cruel, pois se baseia no especismo. Há também aqueles que consideram qualquer tipo de criação para consumo o mesmo que escravidão.

Recentemente ouvi falar dum outro tipo de vegano interessante, o freegano, que consome apenas aquilo que a sociedade descarta, mas nunca conheci nenhum.

Crudívoro & cozinha viva:

Crudívoros são pessoas que optam não só por comer apenar produtos de origem vegetal, mas também por ingeri-los apenas crus, ou no máximo cozidos a uma temperatura que não ultrapassa os 40oC. Há quem diga que ambos sejam a mesma coisa, mas, pelo que eu já conversei com pessoas que se identificam dessas maneiras, há uma diferença sutil, mais uma inclinação.

As pessoas optam por esse tipo de alimentação por razões mais nutricionais, pois acreditam que o cozimento altera as características dos alimentos, empobrecendo-os. Algumas pessoas explicam isso de uma maneira mais científica/cartesiana: o calor catalisa as reações químicas e, após determinada temperatura, as ligações que fazem as enzimas (proteínas) dos alimentos se quebram, o que também acarretaria a destruição das vitaminas e minerais. Outras pessoas dão uma explicação mais holística: o cozimento é como uma morte pro alimento, e portanto o alimento cru está com toda a sua energia vital.

Frugívoro:

A dieta dos frugívoros se restringe aos frutos (sim, frutos e não frutas, tem mais a ver com a definição biológica do que com o nosso senso comum) e castanhas.  Eles acreditam que as plantas também sentem dor e têm sentimentos, então devemos comer apenas aquilo que a planta nos dá para que seja comido, ou seja, o fruto. Comer folhas ou raízes é considerado violento –  o corpo da planta é tão um cadáver quanto uma coxa de frango.

Bom, terminada essa pequena aula, vamos aos brotos.

ººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººº

Na verdade, eu aprendi a germinar grãos com uma amiga que morou comigo um tempo. E o jeito que ela me explicou foi bem simples. Lava, lava, lava. Deixa de molho e depois espera, deixando repousar mantendo o grão úmido.

Claro que, pra fazer aqui pra vocês, fui dar uma pesquisada e ver se existiam regras mais claras ou métodos diferentes. Existem diversas tabelas, em milhares de sitesVale dar uma olhada, mas, na prática, várias das informações nessas tabelas não são absolutas, dependendo de muitas variáveis. Então vou só fazer umas listinhas mais básicas.

O que pode ser consumido* germinado?

 

Pode: Não pode:
Praticamente qualquer semente ou grão integral, com exceção de daqueles que no estado de broto produzem químicos que nós consideramos tóxicos. Os grãos que produzem toxinas:
-Todos os tipos de feijão, tirando o Azuki.
-Soja
-Semente de Abóbora

*O processo de germinação também é utilizado pro plantio. Alguns brotos não são próprios para o consumo humano, mas podem ser plantados para produzir grãos que são.
(Lembrando que no fim do mês tem tuto de horta, então quem sabe não plantamos umas abóboras na nova hortinha?)

Como devem ser germinado?

Existem dois tipos de germinação, em água e em ar. Quase todos os grãos ou sementes que germinam no ar, podem também ser germinados em água. Agora, algumas sementes só germinam se for na água:

 Água: Ar:
-Amêndoas
-Nozes
-Avelãs
-Cevadinha
-Trigo sarraseno
-Semente de girassol (s/casca)
-Grão de bico
-Lentilha
-Amendoim
-Trigo
-Linhaça-Senha
-Semente de girassol (c/casca)

Por fim, o processo…

A primeira coisa a fazer é separar os grãos/sementes. Qualquer um que estiver estranho é melhor descartar. Pode ser que seja algum fungo e, em contato com a água, irá estragar todos os outros.

Depois é necessário dar uma boa lavada nesses grãos. Pra mim, o ideal, é pegar uma peneira e dar uma boa esfregada neles em água corrente.

_001

Lentilha, grão de bico e amêndoas

Então, achamos um potinho onde os grãos/sementes caibam com folga. Colocamos eles lá  e cobrimos com água. De preferência filtrada ou fervida. E deixamos esses potinhos cobertos com um pano (usei um de prato mesmo) num canto arejado e à sombra. Recomendam que se evite deixá-los perto dos eletrodomésticos da cozinha, em especial do micro ondas.

Nas tabelas que consultei haviam diferentes especificações do tempo de molho pra cada broto, mas eu uso 12h pra geral e parece dar certo.

002

Depois desse primeiro molho, os brotos terão crescido consideravelmente. Então vem a diferença entre o processo em ar ou em água. Os brotos que, de acordo com a tabela acima, germinam melhor no ar, devem ser escorridos e lavados (várias vezes) e novamente colocados no potinho. Sem adicionar água, apenas deixando-os úmidos.

Já os que brotam na água devem ser lavados e reintroduzidos num molho de água nova e limpa. Ambos os processos (troca da água do molho e lavagem para umidificar os grãos) devem se repetir de 12h em 12h ou 24h em 24h, até que os brotos apareçam e estejam de um tamanho próximo ao do próprio grão.

AnexoB_Lentilha depois de um dai no ar

Lentilha depois de um dia no ar

No caso das sementes, em geral, o broto é menor e deve ser consumidos assim que aparece o primeiro sinal de rompimento da casca

003A 003B 003C

Novamente, a questão do tempo: em lugares mais quentes a germinação é mais rápida. Em lugares mais frios, menos. Minha regra é ficar sempre de olho. Quando o broto estiver grande o suficiente, pode ser levado à geladeira. Mas deve ser consumido o mais rápido possível.

Esse brotos germinados podem ser consumidos da mais diversas formas:

-Na salada

-Enrriquecendo vitaminas, shakes e sucos

-Jogados crus em sopas e em outras comidas já preparadas.

-As castanhas em especial podem ser usadas pro preparo de leites vegetais.

-E em mix delas mesmas temperadinhas com sal, limão, azeite… o que você quiser.

(Vocês lembram daquele molhinho da Lu pra “pipoca saudável”? Numas lentilhas germinadas é sucesso!)

DSC_5906
Aqui minha saladinha de folhas com brotos germinados! Molho de limão cravo, azeite, sal, e pimenta 😛

Maísa Amarelo
  • Colaboradora de Culinária & FVM
  • Ilustradora

21 anos, cursando o primeiro de design. Pras coisas que não gosta de fazer, inventa um monte de regras. Já as que gosta - como cozinhar - faz sem regra nenhuma. É muito ruim com palavras, ainda assim resolveu escrever sobre suas receitas que, em geral, não tem medida alguma.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos