22 de dezembro de 2014 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração:
Por trás das câmeras
Cena de "O dia de Jerusa", de Viviane Ferreira.

Cena de “O dia de Jerusa”, de Viviane Ferreira.

 Texto de Amanda Lima e Bárbara Camirim

Lembro que quando Lupita Nyong’o foi eleita a mulher mais bonita do mundo pela revista People, vi alguns compartilhamentos no Facebook de uma foto com uma criança negra, super feliz, vendo uma mulher, negra como ela, na capa de uma revista. O que as pessoas queriam dizer com isso era: representatividade importa.

Apesar disso, basta assistir a 5 minutos de televisão para perceber que ainda temos um grande caminho a percorrer nesse sentido. Mês passado, falamos um pouco sobre isso e demos dicas de seriados protagonizados por pessoas negras. No cinema, o quadro não é muito diferente. Uma pesquisa avaliando os filmes brasileiros de maior bilheteria entre 2002 e 2012 revelou que a porcentagem de pessoas negras em papéis de destaque é só de 20%.

Uma das razões para isso acontecer está por trás das câmeras. Muito antes de o elenco ser escalado, alguém criou aqueles personagens e elegeu o perfil que queria retratar. Ou seja, para ajudar a entender essa falta de representatividade, devemos olhar também para quem roteiriza e dirige as histórias que estamos assistindo.

Segundo a mesma pesquisa, nenhuma mulher negra ocupou o roteiro nem a direção dos filmes analisados. Em ambas as funções, há o domínio absoluto de homens brancos. Esses resultados são do cinema brasileiro, mas não são muito diferentes no resto do mundo, se analisarmos as maiores bilheterias mundiais.

Ler sobre isso parece desanimador, mas há esperança. É que existem muitas pessoas que estão trabalhando para mudar isso. Há diretoras negras, tanto aqui quanto lá fora, que estão enfrentando todas as barreiras para contarem suas histórias.

A brasileira Viviane Ferreira, por exemplo, chegou até o Festival de Cannes com seu curta-metragem O dia de Jerusa. Apesar de ter agradado um dos principais festivais de cinema do mundo, ela não conseguiu ter o filme selecionado nos festivais nacionais mais importantes. Um dos possíveis motivos? O estranhamento com o elenco totalmente negro.

Lá nos Estados Unidos, Ava Duvernay acaba de ser indicada ao Globo de Ouro de melhor direção, pelo seu filme Selma. Apesar de o prêmio estar em sua 72ª edição, essa é a primeira vez que uma diretora negra é indicada. Sinal de evolução? Esperamos que sim. Outras diretoras negras americanas que estão conseguindo alguma visibilidade são Gina Prince Bythewood, Amma Asante e Dee Rees.

Muito além de uma questão de estatística, a presença dessas pessoas é superimportante, pois são elas que acabam criando personagens negras mais diversas e complexas, afinal, têm a vivência necessária para ir além dos estereótipos. Existe uma dica que frequentemente é repetida para aspirantes a roteiristas, que é “escreva sobre o que você conhece”. Embora não seja uma regra e não deva ser uma limitação, é muito comum que isso aconteça, já que nossa criatividade é estimulada por tudo que vemos e vivemos. Ou seja, enquanto as pessoas inventando e comandando as histórias forem em sua maioria homens brancos, é a isso que o público terá acesso: histórias de homens brancos.

Amanda Lima
  • Colaboradora de Saúde
  • Colaboradora de Educação
  • Colaboradora de Se Liga

Amanda, 22 anos, mas com carinha de 15. Ama o significado de seu nome, mas prefere que a chamem de Nina. Psicóloga e militante feminista, sabe que conhece ainda tão pouco e por isso tem uma sede muito grande em conhecer mais. Mais da vida, mais do mundo, mais de tudo. Nutre um amor incondicional por Beyoncé e, nas horas vagas, sonha em poder mudar o mundo.

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