15 de dezembro de 2014 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração: Clara Browne
Por que é importante conservar nosso cinema

Era uma vez um grupo de estudantes de filosofia da USP que criaram um cineclube, uma associação onde os membros assistem, refletem e discutem cinema. Neste cineclube, inspirado por outros do Rio de Janeiro e França (onde o movimento cineclubista era forte, principalmente por causa de Henri Langlois, o fundador da Cinemateca Francesa), o cinema não era visto como entretenimento simplesmente, mas como uma manifestação artística. Assim, o objetivo era difundir o cinema como arte e cultura, apresentando aos telespectadores a teoria por trás de grandes obras e, além disso, existia também a vontade de se constituir um acervo próprio.

Um dos fundadores deste cineclube paulista, Paulo Emílio Salles Gomes, morava em Paris e na época tinha uma grande ligação com a Cinemateca Francesa e Langlois, o que facilitava o acesso às cópias para a construção de um acervo que, com o passar do tempo, só fez crescer e incentivar a criação de outros cineclubes. Logo o cineclube paulista se tornou uma filmoteca, e da filmoteca nasceu a Cinemateca Brasileira.

 

01

(Cinemateca Brasileira, por Isadora Maldonado)

Desde o seu surgimento, a Cinemateca desenvolve atividades de restauração e de exibição do seu acervo. (Aconselho muito vocês, queridas leitoras paulistas, a visitarem a Cinemateca. No site – que eu vou  divulgar lá no final, vocês podem encontrar a programação. É um rolê sem erro.) Atualmente são 40 mil títulos no acervo, que vão desde longas até filmes publicitários, isso só de filmografia brasileira. É a nossa história contada no audiovisual, e é por isso que eu resolvi escrever sobre.

Esse ano, em Salvador, assisti a um debate sobre a importância da conservação do audiovisual, uma parte da área que nunca havia me chamado atenção, e o susto foi grande. Hoje em dia, com todo esse avanço da tecnologia, de você poder tocar na telinha do celular e assistir um filme no Netflix, é raro a gente pensar sobre todo o processo que um filme dos anos 60 (ou mais além, 1800 e bolinha) percorre para chegar vivo e inteiro até nós. Muita gente ainda não sabe que existe um trabalho árduo, e pouco incentivado, para que nós possamos ter contato com o filme.

02

(Cinemateca Brasileira, por Isadora Maldonado)

Primeiro, é preciso entender que existe uma necessidade urgente de preservação e disseminação da memória, seja ela em forma de vídeo, pintura, texto, ou de qualquer outra, e essa necessidade não vem apenas pelo lado cultural, mas também pelo político e social. É no acesso a esta memória que podemos nos entender, não só como seres individuais, mas numa vivência coletiva, e assim projetarmos o futuro. Existe um contexto histórico para as produções artísticas, principalmente no cinema brasileiro. Se sairmos da esfera dos blockbusters, é notável o dialogo dos filmes com o que rolava na política. Exemplo clássico é o período do Cinema Novo, nos anos 50 e 60, onde o cenário dos filmes era o Brasil subdesenvolvido, de anti-heróis e ditadura militar.

Para quem faz cinema, a preocupação com a conservação do seu material deveria vir desde a pré-produção, fazendo uma cópia extra em película e não apenas uma cópia num HD externo. Mas justamente por sermos humanos e tão imediatistas, é difícil ver isso como uma prioridade, o que cai diretamente no ensino das faculdades de cinema e audiovisual do Brasil. São pouquíssimas as chances de se encontrar matérias obrigatórias voltadas para a conservação, o que existe (e é muito pouco) são optativas ou matérias de especialização, para além da graduação, e que entraram a pouco tempo nas grades.

É importante também que haja um incentivo na política para esta cultura de preservação. Somente em 2012 foi criada a ABPA, Associação Brasileira de Preservação Audiovisual, que tem como presidente Hernani Heffner, um dos maiores nomes da área e responsável pela conservação e acervo da Cinemateca do MAM do Rio de Janeiro. E vale ressaltar que, tanto a Cinemateca Brasileira em São Paulo quanto a do Rio de Janeiro, passam por muitas dificuldades de armazenamento e de processos de restauração e que, por causa disso, existem tantos buracos no cinema brasileiro. Mais de 80% do cinema mudo produzido aqui se perdeu, e o que restou não está completo, é um material mutilado.

03

(Cinemateca Brasileira por Isadora Maldonado – esse tanto de lata empilhada aí são rolos e mais rolos de material audiovisual perdido, o chamado Caminho do Vinagre.)

O processo de conservação e restauração do material audiovisual é muito cauteloso. Os filmes são analisados e, se houver necessidade, enviados para restauração nos laboratórios. Para manter os filmes conservados as latas devem ficar em arquivos climatizados, com temperatura regulada. A Cinemateca Brasileira é a única no Brasil que possui laboratório público (sendo referência na América Latina) e os cuidados são diários, realizados por profissionais devidamente capacitados.

A preservação do nosso arquivo audiovisual está engatinhando, precisamos ainda de muito incentivo por parte da educação, investimento por parte dos políticos, e mais interesse por parte de nós, o público.

Pra quem quiser curtir um filminho legal:

São Paulo: Cinemateca Brasileira

Curitiba: Cinema em Curitiba

Rio de Janeiro: Cinemateca do MAM

Salvador: Cineclube Glauber Rocha

Porto Alegre: Casa de Cultura Mario Quintana

(E se você que não mora em nenhum desses lugares souber de eventos e instituições voltados para a causa na sua cidade, divulga aqui nos comentários!)

Ana Gabriela
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Audiovisual

Ana nasceu na Bahia em 1992. Ainda não descobriu o que vai ser quando crescer, mas aprendeu que isso não é motivo pra preocupação. Quanto mais tempo se descobrindo melhor. Gosta de ler a internet, escrever listas sobre tudo, de gatinhos e da sua cama.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos