26 de fevereiro de 2015 | Edição #11 | Texto: | Ilustração: Hanna Seabra
Porque internet também é vida real
Ilustração: Hanna Seabra.

Quando eu tinha uns 11 ou 12 anos, participava de um fórum de RPG de Harry Potter. Todo dia, em algum momento depois do colégio, entrava no site, adotava minha persona fictícia do colégio de bruxaria, e escrevia histórias, interagindo com outros que estavam fazendo o mesmo. Nessa época, fiz amigos – pessoas com quem tenho contato até hoje. Depois dessa época, passei para toda uma outra variedade de redes sociais e interações online: comentários em blogs que lia, Livejournal, Tumblr, comunidades de Orkut e grupos de Facebook. Fiz amigos em todas essas esferas – inclusive várias das garotas da Capitolina. Na verdade, as que não conheci antes da revista por esses ou outros caminhos viraram minhas amigas por interação inteiramente online.

Comunidades online podem ser acolhedoras, e me ajudaram a desenvolver e encontrar muitos aspectos da minha pessoa. Do RPG de Harry Potter às fanfics no Livejournal, passando pelos sei-lá-quantos-blogs que fiz ao longo dos anos, fui desenvolvendo minha escrita; no Tumblr e em outras redes sociais aprendi muito sobre outras realidades, outras pessoas, e refleti demais sobre meu ponto de vista sobre a vida e sobre a minha própria realidade; em certas comunidades do Facebook, encontrei apoio incondicional em momentos difíceis.

Ilustração: Hanna Seabra.

Uma parte fundamental da minha participação online, como dá pra ver pelo que falei antes, foi em fandoms, isso é, grupos de fãs. Nunca (que eu lembre) em fã-clubes oficiais, mas em fóruns (era muito ativa no fórum da Meg Cabot uma época), reblogando e comentando coisas sobre filmes/livros/séries/celebridades favoritos no Tumblr, lendo e escrevendo fanfics no Livejournal, ouvindo e fazendo fanmixes no 8tracks. Para quem não conhece o conceito de fanworks (ou seja, “trabalhos de fãs”), são criações artísticas inspiradas em materiais preexistentes – filmes, livros, ou até as narrativas midiáticas que recebemos de pessoas famosas –, criações de texto (fanfic), de artes visuais (fanart), de playlists (fanmix), de vídeo (fanvid), e por aí vai.

Fandoms desse tipo, cheios de fanworks e que se organizam em redes sociais online, têm uma reputação bastante negativa em muitos cantos da internet, especialmente porque são compostos principalmente por garotas, principalmente garotas adolescentes. Porque, afinal, pra muita gente garotas adolescentes que passam a tarde especulando sobre a vida pessoal dos membros do One Direction são super diferentes de homens adultos que passam o tempo livre inteiro discutindo possibilidades teóricas e imaginárias sobre resultados de jogos de futebol que ainda não aconteceram. Óbvio que existem coisas a serem questionadas, como em qualquer grupo ou comunidade – por exemplo, muitos fãs aproveitam a proximidade dos objetos da paixão proporcionada pela internet e fazem o que no fandom se chama “quebrar a quarta parede”, entrando em contato com os objetos da paixão de forma desrespeitosa, insistindo nas próprias especulações e teorias sobre as vidas muito reais daquelas pessoas –, mas a maior parte da interação nos fandoms é produtiva, acolhedora, e fundamental para muitas garotas.

O tempo que passei lendo sobre Kirk e Spock de Star Trek tendo um caso foi importante para entrar em contato com várias questões relativas às minhas próprias emoções e às minhas próprias preferências românticas/afetivas/sexuais; o tempo que passei escrevendo sobre a Blair Waldorf e a Serena van der Woodsen de Gossip Girl como assassinas profissionais me ajudou a ter ideias para outras coisas que queria escrever, a desenvolver técnicas, a experimentar com meu texto; o tempo que passei fazendo uma playlist para a Rory Gilmore me ajudou a reencontrar certas músicas, a retomar meu contato com experiências emocionais que eu própria tive, e até hoje ouço muito essa playlist para me reconfortar em certos momentos; o tempo que passei batendo papo em caps lock e exclamações com pessoas na internet sobre Arctic Monkeys, Taylor Swift e quadrinhos da Marvel me proporcionou amigas maravilhosas (muitas das quais, como eu já disse, estão aqui na revista).

Tudo isso pra dizer que interações na internet são tão reais e relevantes quanto interações fora dela. Criar comunidades online pode ser enriquecedor da mesma forma que criar comunidades “na vida real” (entre aspas porque, apesar de normalmente fazermos a distinção assim, como dá pra ver por tudo que eu falei antes eu acho que a internet é claramente parte da nossa “vida real” também), e socializar pela internet pode ser necessário para quem, por exemplo, vive em um ambiente social no qual não se sente acolhida. Sou enfaticamente a favor de aproveitarmos essa tecnologia maravilhosa que é a internet (sério, para agora e pensa por um instante sobre a internet, e como ela conecta milhões de pessoas, e vê se você não se emociona? Não? Só eu?) para criarmos laços, encontrarmos pessoas, e encontrarmos nós mesmas. Afinal, é para isso que servem comunidades.

+ O primeiro dia internacional de fanworks (e uma conversa sobre fandom), da Gabriela Martins

Sofia Soter
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora e tradutora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.