18 de junho de 2014 | Ano 1, Edição #3 | Texto: | Ilustração:
Porque no mundo não há só macho e fêmea
Ilustração: Isadora M.

Ilustração: Isadora M.

No feminismo, é muito comum que se faça uma separação entre o que é gênero e o que é sexo biológico. Sexo biológico seria seu aparelho reprodutor (macho ou fêmea), e gênero seriam todas as construções que a sociedade faz em cima disso (por exemplo, se você é homem, deve desde bebezinho usar azul e não pode chorar porque é coisa de menina; se você é menina, você deve usar cor-de-rosa e brincar de boneca e casinha, mas carrinho não pode). De acordo com essa definição, as pessoas transexuais seriam aquelas que não se conformam com o gênero atribuído a si por conta de seu aparelho biológico. Por exemplo, uma pessoa que nasce biologicamente fêmea mas se identifica como homem, ou uma pessoa que nasce biologicamente macho mas se identifica como mulher. A ideia é que uma fêmea e uma mulher não são a mesma coisa, assim como um macho e um homem não são a mesma coisa também, e que podem haver combinações variadas entre essa oposição homem x mulher, que não dependem de se ter pênis ou vagina.

Mas… o que é sexo, afinal? O problema com esses conceitos é que eles são edificados em cima de uma definição de sexo completamente nebulosa. Você pode entender sexo como o seu conjunto de cromossomos: XX para fêmea ou XY para macho. Só que existe uma enorme variação de cromossomos que não são nem um, nem outro. Existe XXX. Existe XXY (nome de um ótimo filme, sobre o qual falarei mais a frente). Você pode ainda entender sexo como seu aparelho reprodutor, uma vagina com um útero e dois ovários, ou um pênis com testículos e uma próstata.

Mas e as fêmeas que têm útero atrofiado, são menos fêmeas? Ou aquelas que nascem sem útero? Ou, então, que nascem sem vagina (vulva e vagina são coisas diferentes, sendo vulva a parte externa e vagina o canal interno)? Ou os machos com qualquer condição semelhante a essas?

Você pode, nesse caso, entender sexo como apenas o seu órgão reprodutor externo: pênis ou vagina. Ops, mas aí também existem pessoas que possuem genitália ambígua, ou uma genitália externa e outra diferente interna.

Dá para dizer, então, que sexo é uma combinação de seu aparelho reprodutor, órgão sexual e características sexuais secundárias (pelos, seios, tom de voz, níveis hormonais no sangue), mas aí a gama de combinações é ainda mais extensa e fica mais difícil de definir qualquer coisa mesmo.

Muitas pessoas diriam que isso são “desvios” do “normal”, que é a oposição macho e fêmea; mas em muitas pessoas, a função reprodutiva segue completamente intacta apesar de sua ambiguidade sexual – por que, então, isso seria um desvio, se sua função biológica primordial (que é a reprodução) segue funcional? E por que, em tantas outras espécies, esse tipo de “desvio” é tido como normal e na espécie humana é um desvio?

A intersexualidade é uma condição de pessoas que possuem qualquer combinação entre o sexo masculino e o feminino; é uma questão real e importante que é frequentemente ignorada, ofuscada por uma ideia de dois sexos que se opõem. Diversos estudiosos defendem que não é nem possível fazer uma estimativa de quantas pessoas intersexuais existem, porque os médicos fazem cirurgias logo após o nascimento para determinar um só sexo para essa criança, muitas vezes sem nem avisar aos pais. Não raramente, essas crianças são simplesmente designadas a um dos dois sexos – e, consequentemente, a um dos dois gêneros atrelados ao sexo –, e criadas para vivê-los, sem nunca ficar sabendo que nasceram intersexuais. A legislação brasileira sequer permite que bebês sejam registrados sem um sexo definido como feminino ou masculino, o que torna ainda mais difícil que um bebê intersexual seja mantido pelo menos até o momento em que tenha condição de decidir o destino de seu próprio corpo.

O argumento científico que é muito usado em discursos sobre gênero e sexualidade (que diz que você pode até questionar gênero por ele ser socialmente construído, porque somos nós que determinamos o que é um homem e o que é uma mulher, mas que macho ou fêmea são estruturas biológicas imutáveis) deixa muito a desejar em relação a pessoas intersexuais, que são completamente esquecidas e apagadas. Essa noção entranhada de que só existem dois sexos, e esses são completamente imutáveis, também dá base a uma série de coisas, entre elas o preconceito a pessoas transexuais: muitas vezes, as pessoas podem até se referir, por exemplo, a uma mulher trans* como mulher, pero no mucho. É comum que se use o argumento de que uma mulher trans* pode até ser uma mulher, mas por não possuir o aparelho reprodutor feminino, não será jamais completa ou jamais poderá entender certas coisas inerentes à condição de mulher cis (aquela que é fêmea biológica e conformada com o gênero feminino, diferente da mulher trans*, por definição nascida com outro sexo que não o feminino e inconformada com o gênero masculino designado a si). Mas o sexo feminino não é algo tão simples e facilmente definido, tampouco, e nem a única alternativa ao sexo masculino.

O filme XXY, que eu mencionei lá em cima, é uma ótima ilustração de tudo isso. Ele conta a história de Alex, uma jovem de 15 anos que possui genitália ambígua, e que é designada a viver como mulher, tomando medicamentos para suprimir características sexuais secundárias masculinas, como barba e uma voz mais grossa. O filme trata de todo o conflito que cerceia a vida de uma pessoa intersexual: a pressão da sociedade para que escolha um dos dois sexos, e um dos dois gêneros (seus pais a pressionam para que faça cirurgia e tome seus medicamentos de controle hormonal); a violência a qual pessoas que não se conformam a seu gênero ou que não possuem um sexo tido como “normal” estão sujeitas, da qual Alex também é vítima; o ocultamento dessa violência por vergonha, como se pessoas intersexuais fossem menos dignas; o conflito interno de uma pessoa que se sente impelida a escolher um gênero e escolher um sexo mas não quer fazê-lo; a dificuldade em saber como se comportar frente a uma vida sexual que está desabrochando, em saber qual papel é o seu e o que fazer.

Tudo isso desestabiliza muito a forma sob a qual vemos o mundo, eternamente através de oposições binárias (macho e fêmea, homem e mulher), que podem ser reais, que podem existir, que podem até ser predominantes – mas não são necessárias, não são estáticas, não são as únicas coisas que existem.

As coisas mais banais do nosso dia a dia são definidas por sexo: o uso do banheiro, por exemplo, que é a coisa mais simples do mundo para uma pessoa conformada com seu gênero e sexo, mas complicada para pessoas transexuais (excluídas de um banheiro por não possuírem a genitália x, de outro banheiro por não possuírem o gênero y), mais complicado ainda para uma pessoa intersexual, que não cabe nem em um banheiro feminino, nem em um banheiro masculino. Nós segregamos até o espaço que usamos para fazer xixi por conta uma concepção errônea de sexo. O reconhecimento de pessoas intersexuais ajudaria em muito a nos tirar de dentro das caixinhas de oposições binárias entre homem e mulher, macho e fêmea, que nos aprisionam em construções sociais e preconceitos todos os dias, desde que nascemos.

Thais Bakker
  • Colaboradora de Cinema & TV

Thais tem 20 anos e estuda Relações Internacionais e Filosofia. Se sente bem estranha se apresentando, por isso pagou uma coxinha a quem escrevesse isto por ela. Essa pessoa também achou relevante mencionar que ela reclama mais do que o socialmente aceitável.

  • Gabriel Silva Costa de Lima

    Muito bom o seu texto Thais.

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