28 de abril de 2014 | Cinema & TV | Texto: , , , and | Ilustração:
Conversa informal: My Mad Fat Diary

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Ilustração: Isadora M. Almeida

Para ler ouvindo: My Mad Fat Diary Playlist

Hoje inauguramos na editoria de Cinema & TV uma seção informal, divertida e levemente caótica! Todo mês, vamos escolher um tema e promover um debate entre as meninas da equipe. O resultado da conversa você vê aqui; tudo bem casual, gostoso e sem muitas regras. Em abril, conversamos no chat do Facebook sobre My Mad Fat Diary. Lançada em 2013, é uma série britânica que retrata a adolescência de Rae, em Lincolnshire, na década de 90. Ela é uma garota de 16 anos que, após tentar cometer suicídio, procura se reintegrar aos amigos, escola e família. Entre seus companheiros está Chloe, a típica menina popular que à primeira vista parece linda, inteligente e perfeita; Archie, um rapaz franzino, tímido e educado; Izzy, a pequena criança grande, sempre risonha; Chop, o piadista que ri de todo mundo e Finn, um menino meio misterioso, que acaba parecendo um pouco arrogante por isso.

Antes de tentar se matar cortando uma veia vital na coxa, Rae passa por uma crise psicológica devido à sua insegurança e falta de amor próprio, relacionados ao sobrepeso e à compulsão alimentar. Na clínica onde é internada por dois meses, ela encontra Tix, uma garotinha delicada, viciada em exercícios, e Kester, o psiquiatra com quem Rae reluta a se abrir. Todos os personagens formam um conjunto de pessoas extremamente reais, com problemas, inseguranças, medos e desejos, mas que batalham todos os dias para serem aceitos e amados enquanto o mundo se apresenta de forma ameaçadora.

Nossa conversa seguiu um fluxo bem livre e contém spoilers leves para quem ainda não assistiu às duas temporadas da série. O ideal é ler depois de estar atualizado nos 13 episódios. Mas se você for curiosa e precisar de um incentivo extra para conhecer Rae e sua gangue, vale a pena acompanhar os comentários de Isadora, Georgia, Giulia, Lorena, Natasha e Nicole. Enquanto você se perde pelos nossos pensamentos, ouça a playlist que organizamos para celebrar a trilha sonora maravilhosa da série e assista ao trailer legendado da primeira temporada!

Natasha Ferla: Posso puxar o assunto, meninas? Das duas temporadas de My Mad Fat Diary, o que sempre me surpreende é que eles não subestimam o público e os personagens adolescentes. Isso é algo que Skins, por exemplo, também fazia e que não existe muito nas séries do gênero?????????.
Nicole Ranieri: My Mad Fat Diary não respeita somente os adolescentes; é bem comum que em programas assim os adultos sejam retratados como inimigos, completamente imbecis e perdidos. Ela não faz isso. Adultos têm falhas, mas são pessoas frágeis como todas as outras, e não necessariamente idiotas. Eu gosto muito disso?????????.
Giulia Fernandes: Sim, My Mad Fat Diary abre brechas para relacionamentos entre adultos e adolescentes que fogem dos padrões da televisão
Lorena Piñeiro: Essas observações da Nicole valem para todos os personagens. Ninguém é somente uma caricatura superficial. Eles têm suas virtudes e seus defeitos.
Natasha Ferla: Isso é incrível, sabe? Porque apesar de eu odiar alguém como a Chloe em vários momentos, fico abismada com a construção da personagem. Eu consigo vê-la como sendo real, no sentido de ter muitas facetas.
Giulia Fernandes: A Chloe é tão real, acho que todas as meninas no mundo já tiveram uma amizade como a dela com a Rae.
Lorena Piñeiro: Toda vez que eu começo a odiar a Chloe, a série dá um jeito de mostrar que a perspectiva da Rae – do diário da Rae – é subjetiva, que não se trata da verdade absoluta. Que ambas as meninas possuem inseguranças, fragilidades e problemas de autoimagem.????????? Elas são diferentes, mas existem num mesmo contexto opressor. São lados opostos da mesma questão.
Natasha Ferla: Sim! Quando a Chloe está sendo egoísta, talvez a Rae também não esteja sendo a melhor amiga que poderia ser.
Lorena Piñeiro: E a amizade delas é tão real. Existe inveja, existem ciúmes, mas a série não reforça o estereótipo de que relacionamentos femininos são sempre cheios de falsidade e interesse. Há muito amor entre elas.
Nicole Ranieri: Isso é tão verdade. No começo parece que é aquela amizade sanguessuga, em que uma tem poder sobre a outra por ser mais popular, bonita, etc. Mas no fim das contas, uma admira a outra da mesma forma e elas se protegem e se batem quando é preciso.
Lorena Piñeiro: Sim, e se amam e se odeiam. Enxergam na outra o que gostariam de ser e também tudo que desprezam. Porque meninas adolescentes são tão complexas quanto qualquer adulto.
Natasha Ferla: Isso também mostra como mesmo que tu te dê muito bem com uma pessoa, ainda é difícil se abrir completamente????. Muitas vezes eu via o seriado e pensava: “Pô! Fala tudo que tu ta sentindo! Se vocês fossem mais sinceras podiam evitar tanta coisa.”
Lorena Piñeiro: ?????????Sim, totalmente. É muito difícil se expor ao julgamento alheio, principalmente quando o julgamento que você faz de si mesmo é TÃO severo.
Georgia Santana: Mas aí também vai da personalidade da Rae. Ela se segura sempre e muitas vezes não se abre com o próprio terapeuta.
Natasha Ferla: Talvez elas tenha um pouco de receio de que a outra não entenda, mas muitas coisas que elas sofrem são lados diferentes da mesma moeda.
Lorena Piñeiro: A Rae não se ama, então não entende por que qualquer um sentiria carinho por ela. Isso permeia os relacionamentos amorosos também.
Giulia Fernandes: É lindo como a Rae vivencia diferentes tipos de amizade. Rae e Archie, Rae e Tix… São relacionamentos únicos, isso é raro em séries adolescentes em que geralmente a personagem tem aquela melhor amiga e só.
Natasha Ferla: Eu detesto seriado em que os personagens ficam se incomodando e fazendo piadas uns com os outros, se avacalhando. Então gosto que todo mundo seja amigo em My Mad Fat Diary.
Nicole Ranieri: Todo mundo se defende e isso é lindo. Eles são amigos e se protegem porque o mundo já é ruim o suficiente.????????? Isso me lembra um vídeo da Amy Poehler em que ela diz que toda vez que nos sentirmos mal por quem somos ou pelo jeito que parecemos, temos que dizer a nós mesmas o que diríamos a uma irmã ou filha que estivesse se sentindo mal: que ela é perfeita, e você também.
Lorena Piñeiro: Eu lembro que quando a gangue de amigos apareceu pela primeira vez, na época em que a Rae está no carro voltando do hospital, eu tive uma péssima impressão sobre eles. Achei que seriam adolescentes idiotas, implicantes, garotos populares e líderes de torcida unidimensionais. Mas TODOS eles são humanos, todos têm seus demônios, todos têm suas fraquezas. A série explora muito bem as dores de diferentes experiências.????????? É tudo muito sensível e delicado
Georgia Santana: Eu estava com muito medo do relacionamento dela com a gangue. Mas eu tive medo de todos os relacionamentos na série. E eu fui surpreendida em todos eles.
Natasha Ferla: Que engraçado isso, né, nossas reações a eles.???? A gente já foi esperando o pior de todos
Nicole Ranieri: Nossa, demais. Já comecei achando que seria a gangue de Grease.
Giulia Fernandes: É que fomos acostumadas a esperar que uma personagem como a Rae se dê mal no final?????????.
Lorena Piñeiro: A gente sempre espera que o diferente seja rejeitado. Eu nunca imaginei que eles aceitariam a Rae. Assim como quando adolescente, eu nunca achei que seria aceita por um grupo assim.
Natasha Ferla: É uma droga que a gente pense assim!
Lorena Piñeiro: Sim, todos temos coisas a oferecer, todos merecemos ser amados.
Georgia Santana: A relação que mais corresponde aos moldes tradicionais de séries é a da Rae com a mãe, eu acho.
Lorena Piñeiro: Acho que até nisso a série desvia de convenções tradicionais, Georgia! Porque a mãe dela não é a figura de autoridade inimiga, como em um filme do John Hughes. Ela é muito humana. Tem anseios, tem necessidades, falhas. É uma relação complicada, mas cheia de momentos bonitos de redenção.
Natasha Ferla: Me parece que a mãe dela quer fazer o melhor pra Rae, mas as vezes não sabe bem como. Tem um mundo enorme e malvado lá fora e ela não pode controlar tudo.
Lorena Piñeiro: Sim, e ela também é vítima desse mundo malvado. Tem problemas bem sérios de autoimagem que transmite para a Rae.
Natasha Ferla: E tem medo de outras pessoas acharem que ela falhou com a Rae.
Lorena Piñeiro: Eu acho bonito como as pessoas frequentemente fazem coisas condenáveis em My Mad Fat Diary, mas a gente acaba perdoando porque entende a circunstância. A série sabe trabalhar com a empatia do espectador, e isso só pode acontecer quando você tem personagens que parecem seres de carne e osso, e não estereótipos ambulantes.
Georgia Santana: Mas a relação que eu mais gosto na série é a da Rae com o Kester, o psiquiatra.
Lorena Piñeiro: Eu também adoro a relação dos dois. Principalmente porque não é uma coisa mentor-aluna, numa hierarquia vertical. Ele aprende com a Rae, eles trocam, eles se ajudam.
Georgia Santana: Sim, a impressão que eu tive é de que ele não era só terapeuta dela. Eles viraram meio que amigos.
Lorena Piñeiro: Eu adoro tudo em My Mad Fat Diary. Só gostaria de mais diversidade no círculo de amigos da Rae. Eu sinto muita falta de personagens que não sejam brancos. Mas é aquilo: um aspecto problemático não anula tudo que ela oferece de positivo.
Natasha Ferla: Ai, gurias, não dá pra ter tudo. Ter uma menina gorda falando de sexo já é tão revolucionário.
Lorena Piñeiro: Nós vivemos em um mundo problemático e imperfeito, então seria ingênuo esperar perfeição dos produtos que ele origina. Mas cobrar diversidade é sempre importante.
Giulia Fernandes: Me incomoda bastante o único personagem não-britânico e não-branco ser o Karin. Mas vou fazer uma ressalva em relação à diversidade. Lincolnshire, onde a série se passa, tem 98% de pessoas brancas, olha que ABSURDO. Acho que é por isso que a Rae fala que não existem pessoas legais em Lincolnshire. Lá não existe tanta diversidade, como em Londres.
Lorena Piñeiro: Caramba, não sabia disso. Explica bastante coisa, ainda que não justifique.
Nicole Ranieri: Vamos falar do Finn? Eu o amo, mas ele parece tão irreal. Apesar de achá-lo necessário, ele é TÃO perfeito. Ele é sempre coerente, eu nem sei se existe alguém assim.
Georgia Santana: Ele é de fato perfeito.
 Lorena Piñeiro: Eu entendo, Nic. Mas será que ele não parece tão perfeito porque estamos enxergando o personagem através dos olhos da Rae?
Giulia Fernandes: Acho que pra Rae o Finn é quase um semideus, “muito bom pra ela”, ela tem difuculdade de enxergar os defeitos dele, sim.
Natasha Ferla: Não sei, porque ela também tem ressalvas em relação a ele. Acho que o nosso questionamento vem daquilo que a sociedade diz: ele é um guri bonito, que pode ter qualquer guria, porque vai querer a guria gorda? Não me parece estranho que as pessoas o achem meio irreal. Porque a opinião geral é: “quem vai querer ser o cara que tem a namorada gorda??????????”
Lorena Piñeiro: Talvez o Finn seja mesmo um delírio, um desejo de todas as meninas concretizado na tela. Mas talvez a gente também só tenha problemas em aceitar a existência dele por acharmos que não merecemos um cara assim. Que não somos boas o suficiente, assim como a Rae.???? É bem isso que a Nat disse. De tanto ouvir esse discurso, a gente acaba acreditando. Eu conhecia um casal em que o rapaz tinha aquela beleza bem tradicional, enquanto a moça, não. E as pessoas só falavam sobre isso. Mas eles se amavam e eram felizes, qual é a dificuldade de entender?
Giulia Fernandes: Me lembro que na época do fim da primeira temporada, muitas meninas fora dos padrões no tumblr contaram suas histórias de relacionamentos como o da Rae e do Finn.
Lorena Piñeiro: Eu acho refrescante ter a perspectiva de um garoto como o Finn nas telas.
Nicole Ranieri: Eu fico nessa indecisão, porque normalmente pra uma personagem como a Rae só existe o príncipe desencantando. E o Finn quebra isso, mas sera que não cai no clichê da perfeição? Do príncipe encantado? Não sei.
Giulia Fernandes: Eu acho que nós só estamos condicionadas a duvidar de tudo que não se encaixe nos padrões tradicionais.
Natasha Ferla: Vamos falar da trilha sonora maravilhosa? O seriado me ganhou quando a protagonista usa uma camiseta dos Stone Roses na primeira cena.
Isadora Maldonado: É estranho porque para mim a trilha sonora é muito nostálgica, sendo que nem devia ser assim, né? Rock britânico da década de 90 não foi exatamente a minha adolescência. Mas os anos não me deixarão esquecer a fase Oasis.
Giulia Fernandes: Comecei a assistir quando vi que a protagonista era apaixonada pelo Damon Albarn.
Isadora Maldonado: Eu não sei se vocês já falaram isso, mas eu amo que a Rae seja gorda.????????? Ela não tem pneuzinhos, ela não é “cheinha”. Ela é gorda.
Lorena Piñeiro: Sim, ela não é a gorda entre aspas de todas as outras séries adolescentes.
Natasha Ferla: Ela não é uma Jennifer Lawrence, que todos dizem estar “fora dos padrões”, quando na verdade é magra.
Georgia Santana: Sério que a Jennifer Lawrence não está nos padrões?
Natasha Ferla: É o que eles querem que a gente acredite.
Lorena Piñeiro: A Rae é gorda. Ponto. E maravilhosa. E tão interessante, tão divertida, tão querida, tão bonita. Eu tenho certeza de que milhares de meninas se enxergam nela e se amam um pouquinho mais.????????? Outro tópico? Eu gosto bastante de como a série aborda o aborto. Ela não tira a relevância do momento, o peso da decisão, mas também não deposita aquela carga eterna de dor e punição nos ombros da personagem em questão.???? É algo sério, mas que não vai definir a sua vida.
Nicole Ranieri: Nossa, isso é demais. Não tem um segundo de moralismo. A personagem faz porque precisa ser feito e acabou.
Georgia Santana: Eu gosto que estou sempre esperando o clichê e ele nunca aparece.
Lorena Piñeiro: Eu gostaria de dedicar essa conversa a um amigo que um dia me disse que uma série com garotas falando sobre sexo não teria graça nenhuma. Beijos, amigo.
Nicole Ranieri: Seu amigo está errado e desatualizado, né?
Giulia Fernandes: Beijos para o amigo da Lorena que parou em 1950 ou em Dawson’s Creek.
Lorena Piñeiro: Pena que ele nunca vai assistir à série porque é sobre uma menina adolescente, a “escória da humanidade”.
Nicole Ranieri: Imagina se ele se identifica e percebe que tem sentimentos iguais aos de uma menina adolescente, né?
Lorena Piñeiro: Pois é, imagina se ele percebe que uma garota adolescente tem sentimentos ricos, complexos e dignos de respeito? Enfim, vamos fazer as considerações finais?
Giulia Fernandes: ASSISTAM A MY MAD FAT DIARY. E ouçam Blur.
Isadora Maldonado: Assistam a My Mad Fat Diary, porque tem muito tempo que não temos uma personagem adolescente tão daora (ia falar interessante, mas daora expressa melhor o que eu quero dizer mesmo)?????????.
Georgia Santana: E que todos os meninos sejam como o Finn e o Archie.
Lorena Piñeiro
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Lorena tem 26 anos e mora no Rio, embora tenha crescido nos subúrbios da Internet. Trabalha com análise de roteiros televisivos, avalia manuscritos literários, traduz e revisa obras em inglês e escreve por aí. É igualmente fascinada pelo gracioso e pelo grotesco. Adora filmes de terror, livros de fantasia, arte surrealista e qualquer coisa que não carregue o mínimo semblante de realidade. Tem empatia até por objetos inanimados e queria ser um urso ?•?•?

Natasha Ferla
  • Coordenadora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Estilo
  • Audiovisual

Natasha Ferla tem 25 anos e se formou em cinema e trabalha principalmente com produção. Gosta de cachorro, comprar livros e de roupas cinza. Gosta também de escrever, de falar sobre o que escreve porque escreve melhor assim. Apesar de amar a Scully de Arquivo X sabe que no fundo é o Mulder.

Nicole Ranieri
  • Colaboradora de Culinária & FVM
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Vlogger

Nicole é Paulista de 22 anos, mas mora em todos os lugares e pertence a lugar nenhum. Estuda administração com foco em exportação mas é gente boa, não gosta de tomate mas é uma pessoa do bem, curte uma coisinha mal feita e não recusa jamais uma xicara de chá verde. Se fosse uma pizza, Nicole seria meia espinafre, meia cogumelo.

Giulia Fernandes
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Esportes

Giulia Fernandes, 17 anos, Rio de Janeiro, estudante. Meus interesses são: film noir, batons roxos, criptozoologia, árvores centenárias, garimpar livros e LPs, colecionar caracóis e algumas vezes outras coisas também.

Isadora Maldonado
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Isadora N., 21.

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