Conversa informal: Meninas Malvadas
Ilustração: Jordana Andrade.

Ilustração: Jordana Andrade.

Natasha Ferla: Vamos começar com o fato de que eu me sinto velha, porque já faz dez anos que lançaram Meninas Malvadas, haha.

Thais Bakker: Eu também! Pra mim isso foi ontem.

Georgia Santana: Eu lembro do cartaz dele quando ele chegou na locadora do meu bairro e eu fiquei achando que era só mais um filme adolescente sem graça.

Bárbara Reis: Nossa, sim! Meninas Malvadas é tão ~onipresente~ que nem parece que já faz tanto tempo.

Natasha Ferla😕 Sim! Foi ontem que a Regina Geroge abalou minha vida.

Bárbara Camirim: Dando uma viajada e fazendo um paralelo com o filme, a gente vê de longe a vida dessas pessoas famosas e idealiza, de certa forma. No contexto Ensino Médio (high school) do filme rola isso também, mas não em relação a alguém famoso e sim em relação à pessoa popular do colégio. Só que na verdade todo mundo tem inseguranças e motivos pra pirar.

Bárbara Reis: É que é bem aquela coisa, no colégio parece que existe todo um universo diferente, um mundinho com seus próprios valores e hierarquia… É hiper bizarro.

Natasha Ferla: Mas meio que existe mesmo. E daí tu sai da escola e vê que a vida não é bem assim.

Bárbara Reis: Eu acho que no colégio tentam criar uma “mini vida”, e tem muito adolescente que fica tão envolvido que esquece que aquilo não é tudo que existe.

Natasha Ferla: Eu sempre penso que, tipo, a Tina Fey escreveu certas coisas baseada na experiência dela, isso lá no anos 70/80, lançou o filme na primeira década de 00 e até hoje ele parece fazer sentido.

Bárbara Reis: acho que grande parte daquele sentimento de inadequação que alguns adolescentes sentem é proveniente disso. Eles não se encaixam no ~universozinho~ e acabam pensando que, por isso, não se encaixam em lugar nenhum.

Georgia Santana: Cara, acho o contrário do que a Bárbara Reis falou. A vida é um grande ensino médio interminável.

Bárbara Reis: ?Sim! É bizarro como isso não muda.

Bárbara Camirim: Vocês acham que o Ensino Médio na experiência de vocês é igual a esse que mostram em filmes americanos? Porque eu sempre tenho a impressão que lá a coisa é mais forte.

Isadora Maldonado: Eu acho que o Ensino Médio (e a adolescência em geral) é um período muito único porque tem essa coisa de afirmar a sua identidade ao mesmo tempo em que você pertence a um grupo.

Georgia Santana: Mas a grande massa não muda muito. O que acaba você tendo que lidar com coisas que você lidava na época de escola só que no trabalho, na família, entre amigos, mesmo depois de velhos.

Thais Bakker: Meu Ensino Médio foi a pior coisa do universo (risos). Mas muitas das dinâmicas se repetem infinitamente por aí, ainda que em outros círculos que não o seu. O que muda mesmo é você própria.

Bárbara Reis: Também acho que lá a coisa é mais forte, mas eu sempre achei a essência da coisa muito presente na minha vida.

Natasha Ferla: Não acredito que a fama do filme fique apenas em piadas como usar rosa nas quartas-feiras. Se não tivesse alguma coisa pra se relacionar talvez não fizesse tanto sucesso até hoje.

Georgia Santana: Com certeza que não. Sobre nos EUA ser pior, olha, sei lá.

Bárbara Camirim: Eu perguntei isso porque nunca senti o meu colégio dessa maneira. Eu estudei lá dos 7 aos 18 anos e a maioria dos meus amigos também, então, por mais que tivessem grupinhos e zoações, eu sentia que transitava bem. Só que depois que eu entrei na faculdade, fiquei amiga de uma galera da mesma série que eu, que tinha estudado lá menos tempo, e que eu nunca tinha falado muito. E eles, sim, sentiam essa questão dos grupinhos bem mais do que eu, uma outra percepção.

Georgia Santana: A transição da escola pra faculdade parece melhor, porque você tem contatos com pessoas com referências muito diferentes e é muito mais gente. Acaba que você sempre acha o seu nicho.

Thais Bakker: Gente, eu estudei em colégio particular e foi o inferno. Inferno mesmo. Eu passava o dia inteiro pensando em formas de me matar e desenhando bonequinhos palito mortos no meu caderno (risos).

Georgia Santana: Maaaaaas, no final, é a mesma merda. Só que na faculdade, você não é tão mais ocioso pra se importar com intriguinhas e as coisas começam a ficar mais sérias. Eu tinha uma Regina George, mas ela não era popular, ela só zombava de mim o tempo todo. O TEMPO TODO. E eu, obviamente a odiava. E eu tinha que ser legal com ela, porque todo mundo amava a fulana e ela fazia parte do meu grupo de amigos.

Bárbara Camirim: Acho que ela fazer parte do grupo de amigos é ainda pior, porque você não tem pra onde escapar.

Natasha Ferla: Eu nunca tive uma Regina George, ainda bem.

Isadora Maldonado: Tinha uma menina que até minha mãe falava que era Regina George… Mas hoje em dia eu percebo o quanto a mensagem do filme é verdade, que essa menina tava tão perdida quanto eu.

Georgia Santana: Eu já fui a Regina George pra outras pessoas.

Natasha Ferla: Também acho essa parte do filme muito boa! De as vilãs terem um lado mais humano.

Georgia Santana: E admitir que você é a Regina George é muito louco, porque eu era horrível.

Isadora Maldonado: Eu me pego pensando se eu já fui a Regina George de outras pessoas! Eu lembro de coisas horríveis que eu já disse, porque é esse ciclo horroroso mesmo.

Bárbara Reis: Eu acho tão legal que o filme se importou em mostrar como todas nós podemos transitar entre as personagens sem nem perceber.

Georgia Santana: Nunca fui popular, mas eu tinha um desejo sórdido de parecer legal e querer ser legal e andar com as pessoas maneiras do colégio.

Bárbara Camirim: Também acho legal dar esse lado mais humano pras vilãs, talvez seja esse o diferencial do filme, personagens mais bem construídos, menos estereotipados

Natasha Ferla: São personagens tridimensionais. O roteiro acerta muito nisso.

Bárbara Camirim: Na verdade, ele parte de estereótipos: os excluídos, a popular, a burra, etc, mas não fica nisso, permite uma transformação dos personagens.

Bárbara Reis: E o mais incrível de tudo é que o filme nunca soa piegas. Eles fazem isso com muita naturalidade.

Natasha Ferla: Ainda que ele foque na mocinha, as personagens “ruins” são parte essencial da trama.

Thais Bakker: Acho que o espírito do filme é justamente zoar esses estereótipos e isso é incrível, porque acho que ninguém pensava que isso venderia DE FATO para pessoas jovens, e vendeu. A indústria fica querendo vender o sonho e não a desconstrução dele.

Bárbara Reis: Sim! Os filmes acabam sendo um refúgio, e não uma análise/reflexão. É legal ver que Meninas Malvadas conseguiu virar um clássico mesmo fugindo disso.

Georgia Santana: Curto o fato de Glen Coco ganhar muitos doces no Natal e não ser um personagem principal.

Natasha Ferla: E todo mundo lembrar dele.

Bárbara Camirim: Acho que conseguiu virar clássico porque conseguiu passar a mensagem sem ser didático, elas sabem tratar com naturalidade e humor (porque, sério, o filme é muito engraçado, além de tudo).

Natasha Ferla: You go, Glen Coco!

Georgia Santana: Tipo, não é nem uma personagem secundária e tem todo uma popularidade em volta dessa pessoa, que dá uma dimensão que não são só as plásticas que chamam a atenção, que outras pessoas também existem em volta delas.

Natasha Ferla: Eu lembro muito da guria que a Regina falou mal da saia dela pelas costas. Essa cena me marcou muito. Vai entender…

Georgia Santana: Mas ela marca mesmo, porque, né, é o momento que a Cady se dá conta que a Regina também está fazendo a mesma coisa com ela.

Thais Bakker: That’s the ugliest effing skirt i’ve ever seen.

Georgia Santana: E da superioridade ridícula que ela tem que manter diante das outras. Humilhando todas.

Natasha Ferla: Pode ter sido o momento que eu percebi que as pessoas podem ser muito falsas, haha.

Bárbara Reis: (eu acho que já devo ter caído nessa na vida real TANTAS VEZES, porque eu só fui entender o que tava acontecendo lá pela terceira vez que eu vi o filme)

Bárbara Camirim: Aham, às vezes ela até gostou da saia mesmo, mas tem que falar mal pra parecer superior.

Natasha Ferla: Gente, de onde vem essa necessidade de se destacar tanto?

Bárbara Camirim: Acho que é essa ideia doida de fazer os outros parecerem piores pra você ficar melhor no contraste.

Bárbara Reis: Por mais clichê que seja, acho que vem das inseguranças da pessoa mesmo. Ela precisa se convencer de que é melhor do que todos ao redor dela.

Georgia Santana: E todo mundo a imitava, porque aquele era o ideal de pessoa a ser dentro do colégio.

Natasha Ferla: Já me perguntei se a fama enorme que a personagem da Regina tem também não pode ser porque ela em certos modos é um modelo a se desejar.

Bárbara Reis: E o mais maluco é que ela provavelmente se inspirou em uma outra menina, a Regina George dela.

Georgia Santana: Curto muito que a gente fale mais da Regina do que da Cady.

Bárbara Reis: É que de algum jeito a Cady é como a gente. Não é difícil entende-la.

Georgia Santana: Mas a gente precisa falar dela, né? De como somos influenciáveis. Principalmente pra ser aceita em qualquer grupo, seja no da Janis e do Damian, ou depois no da Regina.

Natasha Ferla: Será que a Regina é o resultado da pressão da sociedade em jovens meninas?

Georgia Santana: Sim.

Bárbara Camirim: Acho que a Cady caiu de paraquedas ali, não vacinada para aquele ambiente, o que faz dela completamente influenciável.

Bárbara Reis: A Regina é a personificação do girl hate ?(ódio entre meninas).

Bárbara Camirim: Acho que as outras pessoas são menos influenciáveis porque já tem um pé atrás.

Natasha Ferla: Ela curte a vida das plásticas. Num ambiente onde a “popularidade” é valorizada.

Bábara Reis: Acho que esse choque da Cady só mostra o quão irracional todo aquele esquema realmente é.

Thais Bakker: Sim, a ideia do filme é justamente trazer a Cady como “o bom selvagem”. O nome do filme ia ser Home-schooled (algo como “escolarizada em casa”) justamente por isso. Porque como ela foi home-schooled a vida toda, não tinha a menor ideia de como funciona essa sociedade, e por isso é jogada por ela pra lá e pra cá.

Bárbara Reis: E é algo que passa batido pra quem já tá inserido nele.

Natasha Ferla: Entendo o ponto de vocês, mas consigo pensar que muita gente faria aquilo tudo apenas pra ser aceita.

Bárbara Reis: Sim, mas eu acho que a Cady ainda é mais inocente do que alguém que não tivesse sido home-schooled seria.

Natasha Ferla: Vocês acham que ela seria uma boneca que as outras possam brincar? Ensinar as coisas e tal.

Bárbara Camirim: Aham, quando ela percebe, já se tornou aquilo que criticava (apesar de que isso talvez aconteça com pessoas não home-schooled também). Não acho que ela seja uma boneca, não. Apesar de ser muito influenciavel, ela também tem suas individualidades (tipo o menino que ela é afim, a relação com a professora, com os pais, etc).

Georgia Santana: E os mathletes (pessoas que competem em torneios como Olimpíadas de Matemática)?

Bárbara Camirim: Sobre os mathletes, acho legal lembrar do menino (que eu esqueci o nome, o principal) que está ali se sentindo super legal, porque isso é o que ele é e é como ele se sente bem. Nem todo mundo é influenciável. Ele poda querer ser o Aaron por exemplo, mas não, obrigado.

Thais Bakker: A ideia é mostrar como esse esquema social de colégio não faz sentido nenhum, e isso acontece quando você introduz ali um elemento totalmente de fora.

Natasha Ferla: KEVIN G!

Bárbara Camirim: Ele!

Georgia Santana: Kevin!

Thais Bakker: Hahaha! Kevin G, adoro!

Natasha Ferla: No final do filme a mãe da Regina é a melhor.

Georgia Santana: Quando ela tá dançando?

Natasha Ferla: A primeira vez que a Cady vai na casa dela e ela pergunta se tem álcool na bebida… E pergunta se a Cady quer porque se ela quiser, ela prefere que seja dentro de casa. Na real, isso é bem responsável, hahah.

Georgia Santana: A mãe da Regina George explica tanto do comportamento da Regina. As plásticas, querer ser maneira e jovem. [Amy Poehler é incrível]

Natasha Ferla: Amy é uma das minhas idolas. Depois de Meninas Malvadas, só o filme A Mentira pra ser tão bom e base pra tanta discussão.

Bárbara Camirim: E o que vocês acham do Damien e da Janis?

Georgia Santana: Eu sinto que, se eles pudessem, seriam iguais a Regina George. Eu entendo que eles não gostem dela, de achar que ela faz mal pros outros. Mas se fossem eles, acho que fariam igual.

Natasha Ferla: Também acho que sim. Mas não os culpo totalmente.

Thais Bakker: Eu acho que eles já tiveram a época de tentar se encaixar, se sentir mal por serem mal sucedidos, e a reação deles foi o oposto de tentar. É mais um “vou rejeitar totalmente”.

Bárbara Camirim: Aham, eu acho eles incríveis, mas também foram eles que convenceram a Cady de fazer um plano contra a Regina no início. Mas talvez eles tenham um pouco mais de limites, porque em determinado momento eles foram se preocupar com outras coisas (tipo a expo da Janis) e a Cady continuou com o plano.

Thais Bakker: Eles passaram a tentar ser o total oposto daquilo e obviamente com muito ressentimento. Inclusive a Janice quando começou a sofrer o bullying da Regina mudou de colégio e só depois teve coragem de voltar e enfrentar.

Natasha Ferla: Eu amo demais a cena do Damian cantando Christina Aguilera, hahah!

Bárbara Camirim: Eles acham divertido um pouco de maldade pra se vingar das pessoas que eles desprezam, mas não deixam isso se tornar a vida deles, como a Cady deixou. E essa cena é demais! Só mais uma coisa: uma partezinha boba que eu gosto muito é aquela que mostra como as palavras mudam de sentido dependendo do contexto. A Janis diz que o Damian é “too gay to function” (“Muito gay para funcionar”) e é ok, porque eles estão entre amigos sem a menor intenção de machucar ou ofender. Daí, a mesma frase vira ofensiva quando está no burn book (Livro do Arraso), porque aí a intenção é falar isso como um xingamento. Pra mim, o que faz o filme incrível é que as personagens são construídas para serem reais, nem totalmente boas nem totalmente más. E também que consegue usar uma linguagem engraçada e leve pra tratar de questões que são pesadas na vida de muitas pessoas.

Natasha Ferla
  • Coordenadora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Estilo
  • Audiovisual

Natasha Ferla tem 25 anos e se formou em cinema e trabalha principalmente com produção. Gosta de cachorro, comprar livros e de roupas cinza. Gosta também de escrever, de falar sobre o que escreve porque escreve melhor assim. Apesar de amar a Scully de Arquivo X sabe que no fundo é o Mulder.

Thais Bakker
  • Colaboradora de Cinema & TV

Thais tem 20 anos e estuda Relações Internacionais e Filosofia. Se sente bem estranha se apresentando, por isso pagou uma coxinha a quem escrevesse isto por ela. Essa pessoa também achou relevante mencionar que ela reclama mais do que o socialmente aceitável.

Georgia Santana
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  • Colaboradora de Esportes

25 anos, do Rio de Janeiro, mas passou a primeira infância em Natal - RN. Estuda Biblioteconomia na UFRJ. Assiste a qualquer tipo de competição esportiva e lê muitas biografias / autobiografias e já chorou de emoção ao comer caldinho de sururu. Odeia barulhos, luz artificial e frio. 90% lufa-lufa, 10% sonserina.

Bárbara Reis
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Bárbara Reis tem 18 anos, é paulista e estuda Jornalismo na ECA. Acha que a internet é a melhor coisa que já aconteceu, é fascinada por novas linguagens e tem o péssimo hábito de acumular livros para ler e séries para assistir. O seu pior pesadelo envolveria insetos, agulhas, generalizações, matemática e temperaturas acima de 27ºC.

Bárbara Camirim
  • Colaboradora de Cinema & TV

Bárbara Camirim tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e acabou de se formar em Comunicação Social. Está aos poucos descobrindo o que quer fazer da vida. Gosta de cinema, séries, literatura e, na verdade, qualquer coisa que envolva ficção.

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