25 de agosto de 2015 | Ano 2, Edição #17 | Texto: | Ilustração: Duds Saldanha Rosa
Prato do dia: VOCÊ
Ilustração por Duds Saldanha Rosa

 

Comer vai muito além de uma necessidade fisiológica. Proteínas e carboidratos nos mantêm vivos, mas a forma sob a qual essas biomoléculas chegam ao seu prato são mais reveladoras do que você pensa – com uma olhadela no cardápio já podemos dar alguns palpites sobre seu contexto cultural, social e econômico. Se você prefere uma dúzia de cubos de tofu a um porquinho cor-de-rosa, traçamos um perfil. Se você lambe os beiços só de pensar no amigo suíno, mas não comeria seu labrador, traçamos outro. Se o que vai pro seu estômago não depende da sua escolha, e sim da disponibilidade, temos uma história bem diferente. Comemos para sobreviver, para moldar nossos corpos, para nos confortar, para nos expressar, para honrar ou quebrar tradições, para entrar em comunhão com pessoas queridas ou entidades metafísicas. Fica até difícil julgar as opções alimentícias de cada um sem entender todos esses fatores, né? Mas… e se você come carne humana?

Existem poucos assuntos que sejam tão tabu quanto canibalismo. Até os caras bizarros da dark web devem ter nojinho. Mas sabe o que é tão universal e atemporal quanto a repulsa ao consumo de carne humana? O próprio consumo de carne humana. Os fósseis não mentem: numa caverna, na França, foram encontrados ossos de seis Neandertais que provavelmente tiveram cérebros, medulas ósseas, línguas e coxas devoradas por colegas de espécie. E tudo indica que as refeições não tinham apenas propósito nutricional – havia uma natureza ritualística por trás da prática.

 

Hannibal acaba em alguns dias, então VAI TER GIF
Hannibal acaba em alguns dias, então VAI TER GIF

 

Assim que Cristóvão Colombo pisou na América, saiu espalhando para os amigos europeus a fábula dos cruéis canibais do Caribe, que bebiam sangue humano e saboreavam a carne de seus iguais. O genovês resolveu brincar de etnógrafo e acabou criando um estereótipo que sobrevive até hoje: quando se fala em “canibal”, se pensa em “selvagem do Novo Mundo”. Ninguém melhor para definir um povo do que a pessoa responsável por seu extermínio, certo? Fonte confiabilíssima. Talvez Colombo tenha aprendido isso com Marco Polo, que aparentemente viu vários tibetanos cozinhando pernas e braços em suas viagens pela Rota da Seda. Que má sorte dos pobres europeus; toda vez dão de cara com canibais quando resolvem conhecer o mundão. Pena que eles não olham para o próprio umbigo, né?

Múltiplas fontes indicam que, durante as Cruzadas, soldados europeus se alimentaram da carne de seus inimigos muçulmanos. Colonizadores ingleses em Jamestown, na Virgínia, sobreviveram ao severo inverno de 1609 consumindo os corpos de seus companheiros. Durante a Guerra dos 30 Anos, a fome era tão avassaladora que pais comeram os cadáveres de seus filhos. Em 1884, o barco Mignonette afundou em sua rota para a Austrália e o passageiro mais jovem foi assassinado e teve seu sangue bebido pelos outros dois viajantes desidratados. Canibalismo não é um costume exótico sustentado por povos bárbaros. É uma parte macabra e incômoda da história das civilizações. Por que motivos comemos carne humana?

 

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PARA SOBREVIVER

A única razão socialmente aceitável para se alimentar do migo e da miga. Quando as circunstâncias são extremas, as bases sobre as quais construímos toda nossa concepção de civilidade começam a ruir; o instinto de sobrevivência fala mais alto. É por isso que naquele filme pós-apocalíptico o maior inimigo não é o zumbi ou o alienígena, e sim o seu vizinho. Se recursos vitais são escassos, tudo acaba virando uma alternativa. Inclusive você. Lembram daquele avião que caiu na Cordilheira dos Andes em 1972? Nas montanhas cobertas pela neve não tinha John Locke para caçar javalis, por isso os sobreviventes da tragédia precisaram desenterrar os corpos dos amigos mortos para consumir a carne e permanecer vivos na esperança do resgate. Outro caso famoso é o da caravana Donner: um grupo de pioneiros do Oeste norte-americano que passou quatro meses do inverno de 1846 preso na Cordilheira de Serra Nevada. Crianças e adolescentes foram obrigados a comer seus pais e irmãos que não resistiram às temperaturas. Das 87 pessoas, 48 sobreviveram e poucas conseguiram se recuperar do impacto psicológico.

PARA CURAR

Se você achava esquisito que as bruxas das histórias infantis usassem asa de morcego e unha de gato em suas receitas, se prepare pra essa bomba. No século XVI, pedacinhos de corpos eram incorporados aos medicamentos. E não estamos falando de costumes dos povos aborígenes que os exploradores adoravam difamar, mas sim de práticas dos próprios europeus. Da realeza, inclusive. A carne mais nobre do mercado era a de múmia egípcia; na falta do filé mignon, os coveiros faziam a festa roubando e vendendo partes de cadáveres para os mais diversos propósitos. Dizem que crânio em pó é ótimo pra dor de cabeça, mas não tome o remédio sem o conhecimento do seu médico. Leia a bula. Outro item poderoso era o sangue, quanto mais fresco, melhor. Acreditava-se que ele continha o espírito e a vitalidade de seu antigo dono. Ou seja, ao consumi-lo, o paciente poderia adquirir um pouquinho dessa força. Lembrando que essa é a mesma galera que condenava veementemente os bárbaros canibais do Novo Mundo.

PARA TRANSCENDER

Os monges indianos Aghori consomem restos de corpos e excrementos humanos e se cobrem de cinzas em seus rituais de louvor ao deus Shiva ou às deusas Kali, Dhurga, Kamakhya e Chammunda.  Se você está fazendo cara de asco para isso, mas encarou super bem os remédios feitos de pedacinho de gente: DEIXA DE SER EUROCÊNTRICO, RAPAZ. Há um propósito por trás da prática, por mais que seja de difícil compreensão para nós aqui do Ocidente. Os Aghori acreditam que, ao se alimentar da carne humana, estão transcendendo seu eu físico e alcançando uma consciência universal. Mas sabe que outra prática religiosa também tem um pé no canibalismo? O catolicismo. Isso mesmo. Mesmo que seja um pé simbólico e metafórico, ele está lá. Quem já tiver frequentado a missa de domingo deve se lembrar das palavras: “Tomai todos e comei; isto é o meu corpo, que será entregue por vós.” Eis o mistério da fé, amigos. O ritual da transubstanciação em que pão se transforma em corpo, e vinho se transforma em sangue, é uma das crenças mais sagradas da Igreja Católica. Ao consumir a carne de Cristo, o homem se renova.

PARA SABOREAR

Tem gosto pra tudo, né? Insira aqui uma risada nervosa. Alexander Pearce, um canibal irlandês, disse que somos bem mais gostosos do que porcos e peixes. E aí depois ele foi enforcado. A egípcia Omaima Nelson disse que as costelas de seu marido eram docinhas. E aí ela foi presa. Eu não pretendo provar, então fico com o depoimento dos especialistas. Há também aqueles que sexualizam o consumo da carne humana e sentem prazer com a ideia de comerem (literalmente) seus parceiros ou de serem comidos (literalmente). Isso está diretamente relacionado ao item abaixo.

PARA DOMINAR

É nessa categoria que entra a galera realmente assustadora: Jeffrey Dahmer, Albert Fish, Issei Sagawa. Canibais que também eram abusadores, pedófilos e necrófilos. Sabemos que o estupro pouco tem a ver com o prazer do sexo, e sim com a submissão do outro ao seu poder. O canibalismo na maior parte das vezes tem essa mesma função. Falamos lá no início dos soldados europeus que comiam a carne de seus inimigos derrotados nas Cruzadas. Parece coisa de um passado distante, mas em 2007 o militar norte-americano Brad McCall afirmou ter presenciado atos similares no Iraque. Ao comer o outro para subjugá-lo, você o despe de toda a sua humanidade, de toda a sua subjetividade, de tudo que o torna um semelhante. Por que é socialmente aceitável se alimentar de frangos e não de pessoas? Porque frangos não são considerados semelhantes pela maioria. E é assim que esse canibal enxerga suas vítimas: coisas a serem dominadas, controladas e, por fim, consumidas. Há duas citações da maravilhosa-excepcional-brilhante série Hannibal que traduzem essa lógica de forma objetiva. Ao comer a perna decepada de um adversário, Dr. Lecter diz: “Isso não é canibalismo. Só seria canibalismo se nós fôssemos iguais.” E num daqueles momentos em que praticamente dá uma piscadela para a câmera tamanha a ambiguidade da fala, arremata: “Eu não tenho interesse em entender ovelhas, apenas em comê-las.”

 

Lorena Piñeiro
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Lorena tem 26 anos e mora no Rio, embora tenha crescido nos subúrbios da Internet. Trabalha com análise de roteiros televisivos, avalia manuscritos literários, traduz e revisa obras em inglês e escreve por aí. É igualmente fascinada pelo gracioso e pelo grotesco. Adora filmes de terror, livros de fantasia, arte surrealista e qualquer coisa que não carregue o mínimo semblante de realidade. Tem empatia até por objetos inanimados e queria ser um urso ?•?•?

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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