30 de outubro de 2015 | Saúde | Texto: and | Ilustração: Sarah Roque
Precisamos falar sobre a pílula

Chega um momento na vida em que quase todas meninas / mulheres se deparam com a questão de 10 milhões de dólares: tomar ou não tomar a pílula. Os medicamentos anticoncepcionais (AC) volta e meia são tema de debates e polêmicas, muitas vezes acalorados, e nos deixam com a cabeça cheia de caraminholas, pensando se o AC é o anjo ou o “demônhu” da nossa vida. Pensando nisso, nós da Capitolina queremos ajudá-la a entender melhor esse mundo da vida com ou sem pílula e tentar diminuir (ao menos um pouco) as neuras que todas nós temos.

A pílula anticoncepcional entrou no mercado no início da década de 1960 e marcou a revolução sexual, dando às mulheres autonomia para fazerem sexo apenas por prazer, sem preocupação com a possibilidade de gravidez. Desde então, houve muitos avanços na produção de contraceptivos e os medicamentos atuais apresentam doses menores de hormônios, além de virem nas mais diversas apresentações. Existe a pílula combinada (estrogênio + progesterona), a pílula só com progesterona, a injeção anticoncepcional, o implante subcutâneo, etc. Aqui você pode encontrar mais informações sobre os métodos contraceptivos disponíveis gratuitamente no SUS.

É difícil achar mulheres atualmente que nunca tenham usado ao menos um tipo de contraceptivo hormonal, o que levou algumas pessoas a começarem a questionar essa “obrigatoriedade” no uso de um remédio por tempo indeterminado em pessoas saudáveis. Alguns já até consideram a pílula como o novo “vício” do século.

Em primeiro lugar, gatas: encucar com o uso contínuo de um medicamento não só é normal, como é SUPER saudável. Não engavete suas dúvidas e preocupações por qualquer receio de parecer “boba”, “desinformada”, ou qualquer coisa do tipo. Mas vamos ter em mente sempre que lugar de tirar dúvidas é no consultório, e não no Dr. Google. A Internet está cheia de informações truncadas (e até falsas, muitas vezes), pra você fechar o notebook e despencar no choro achando que qualquer dor de cabeça é um tumor no cérebro. Então, o primeiro passo é procurar um médico de acordo com as suas possibilidades (pode ser um ginecologista no plano privado, um médico de família na unidade básica de saúde da sua região, ou mesmo um profissional em centros comunitários), vale pedir indicação pras BFFs, pra mãe, pras primas. É bem legal quando o jaleco branco vem com o aval de alguém que você confia, mas também não é pré-requisito. Consulta marcada, encha sua médica (ou médico) com suas perguntas, não guarde nada. É muito importante falar sobre qualquer doença que você ou seus familiares próximos tenham, porque isso muitas vezes pode significar que alguns tipos de contraceptivos são contraindicados no seu caso. E se não se sentir segura com o profissional, não tenha medo de pedir uma segunda opinião.

O uso dos anticoncepcionais hormonais traz muitos benefícios, como controle da acne, regularização do ciclo menstrual, alívio de cólicas e redução das alterações de humor associadas à menstruação e já há vários estudos sugerindo que a pílula reduz até mortalidade e protege contra diversos tipos de câncer, como o de ovário e o de endométrio. O AC é usado, ainda, como método de tratamento no caso das mulheres que possuem endometriose e síndrome do ovário policístico. Nestes casos, mais do que prevenir uma gravidez indesejada, o medicamento hormonal é essencial para controle das doenças e manutenção da saúde da mulher.

Como qualquer medicamento, a pílula também tem seus riscos e efeitos indesejados, mas de acordo com a Organização Mundial de Saúde, os riscos atualmente são mínimos se comparados aos benefícios da contracepção. Podem ocorrer alguns efeitos colaterais, como enjôos, vômitos, dores de cabeça, retenção de líquidos e aumento de peso. Em geral esses efeitos passam após alguns meses de uso. Se persistirem, é bom conversar com o seu médico e tentar achar um medicamento com que você se sinta melhor. Pessoas com enxaqueca crônica, por exemplo, devem evitar as pílulas combinadas e dar preferência aos contraceptivos que só contêm progesterona.

Existem alguns estudos que sugerem que o uso prolongado da pílula pode aumentar risco de certos tipos de câncer, como o de fígado. Não há conclusão ainda sobre o risco de câncer de mama. A pílula também aumenta a chance de trombose e outras doenças cardiovasculares – um risco que aumenta MUITO se combinado com cigarro. Por isso, as meninas fumantes ou que tenham histórico de trombose na família não devem usar a pílula combinada. Outras doenças como diabetes, hipertensão e algumas doenças autoimunes, por exemplo, também podem ser contraindicações. Por isso, é muito importante não deixar de falar nada para o médico. Ele saberá avaliar que método contraceptivo é mais indicado no seu caso. Observe seu corpo e não ache que nenhum sintoma diferente é besteira, as reações do seu organismo é que poderão dizer ao profissional de saúde se é melhor trocar de pílula, ou mesmo parar de tomá-la.

É ESSENCIAL lembrar que NENHUM medicamento deve ser tomado sem orientação médica! Desde os anticoncepcionais, até o “simples” remédio para dor de cabeça, todos possuem contraindicações e possíveis efeitos adversos. Cada corpo é um corpo, e cada um reage a cada coisa de uma forma diferente. É legal sempre ter em mente que a maioria dos medicamentos da medicina convencional são substâncias sintéticas e que o ideal é que tenham seu uso supervisionado por um profissional de saúde. Mesmo os tratamentos chamados “naturais” ou da medicina alternativa podem ter efeitos indesejáveis e precisam ser administrados com muito cuidado. Não vai nessa de que só porque é chá, só porque vem da natureza, é saudável. É difícil controlar a dose da substância ativa em certos chás, por exemplo, e há vários casos de meninas que foram parar na emergência com quadros graves por conta do uso de métodos naturais. Já dizia Paracelso que a diferença entre o remédio e o veneno é a dosagem.

Há vários relatos de meninas que passaram a se sentir muito melhor com o uso da pílula. Mas há outras que melhoraram justamente parando de usar. Enfim, há quem defenda e quem condene os ACs hormonais. O mais importante é que você é livre para escolher que método contraceptivo vai usar. Se quiser tomar pílula, vá em frente. Se acha que pra você isso não é legal, tudo bem também. Só o que não pode mesmo é querer policiar a escolha das outras mulheres e cagar regra na vida alheia.

E por último, mas MUITO IMPORTANTE:

ANTICONCEPCIONAL NÃO PREVINE DSTs, AMIGAS!

Mesmo estando protegida contra uma possível gravidez, NUNCA esqueça da camisinha (pode ser a masculina ou a feminina), pois é ela quem vai te deixar tranquila contra as tão assustadoras doenças venéreas. E sabemos muito bem que o sexo é muito mais deboas quando a gente está com a cabeça leve!

 

 

 

Mariana Fonseca
  • Coordenadora de Saúde
  • Colaboradora de Literatura e do Leitura das Minas

Mariana tem 25 e se formou em medicina. Carioca, ama viver no Rio de Janeiro, mas sonha em voltar para a Escócia. É feminista deboísta e acredita que todo mundo merece chá.

Iane Filgueiras
  • Colaboradora de Saúde

Iane Filgueiras, 25 anos, de São Gonçalo - RJ, é mestranda em mídia, com pesquisa voltada para comunicação e saúde. Tem vários desejos, pouco dinheiro, e muito trabalho. Sentimental, faladeira e ansiosa até o último fio de cabelo. Prefere um bom filme/série na TV com balde de pipoca e edredom a quase qualquer coisa. Tem gostos ~~infantis~~, mas é com eles que se sente mais feliz. Sonha em ir à Disney, mas nunca quis ser princesa.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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