3 de setembro de 2017 | Ciência & Tecnomania, Colunas | Texto: | Ilustração: Guillermina Roburu
PretaLab e porque precisamos falar sobre mulheres negras e indígenas na tecnologia
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Quantas mulheres negras e indígenas na tecnologia você conhece? Imagino que sejam poucas, mas porque será que ainda não ocupamos esse espaço totalmente? É pensando nisso que foi criado a PretaLab, uma iniciativa da Olabi Makerspace, que acredita no protagonismo das mulheres negras e indígenas em áreas ligadas à inovação e tecnologia, e que busca mapear e conhecer as histórias das mulheres que fazem isso para entendermos um pouco mais quais são as dificuldades enfrentadas. Para conhecer um pouco mais da PretaLab, a Capitolina entrevistou a idealizadora do projeto, jornalista, maker e Diretora de Programas da Olabi, Sil Bahia.

CapitolinaComo surgiu a PretaLab?

Sil Bahia: O Olabi, organização social, já nasce com o objetivo de trabalhar na promoção da diversidade na produção de novas tecnologias. Desde 2014, o foco do nosso trabalho tem sido esse, e desenvolvemos metodologias em que buscamos ter um diálogo mais “real” com pessoas de diferentes backgrounds, trajetórias e experiências. Desde que comecei a trabalhar no Olabi, já sentia vontade de fazer algo voltado para mulheres negras e indígenas, mas foi só depois de um tempo que a vontade virou ideia e ganhou forma. A PretaLab surge, na realidade, a partir de uma inquietação, de um desejo de ver mais meninas negras e indígenas produzindo tecnologias, construindo e ocupando espaços de tecnologia e inovação. Aprender a programar fez com que eu me sentisse muito capaz, empoderada mesmo, e achei que outras meninas poderiam sentir o mesmo. 

Capitolina: Por que o foco em mulheres negras e indígenas?

Sil Bahia: Porque o objetivo é fortalecer mulheres que normalmente não estão nas decisões/criações desse universo que se apresenta cada vez mais como realidade, mas estão na ponta desses processos. 

Capitolina: Qual a maior dificuldade de mulheres negras e indígenas ingressarem nas áreas de tecnologia? 

Sil Bahia: Arrisco a dizer que, primeiramente, tem a ver com a questão do acesso que engloba questões econômicas e sociais, são a primeira barreira para nós. Acesso ao estudo formal, de línguas e tudo que está ligado à questões sociais e econômicas, somadas ao machismo e racismo sobreposto. A segunda questão tem a ver com a ausência de referências nesse campo. E essa camada é mais subjetiva, mas tem um papel fundamental. Ver outras pessoas parecidas com a gente ocupando espaços que geralmente não são destinados para nós faz muita diferença quando inventamos/criamos nosso lugar/estar no mundo.

Foto: Safira Moreira/ Olabi Markspace

Foto: Safira Moreira/ Olabi Markspace

Capitolina: Como você começou a trabalhar/estudar com tecnologia?

Sil Bahia: Participei de uma oficina que ensinava programação para mulheres, a rodAda hacker, que o Olabi realizou em parceria com o Observatório de Favelas em 2014. Ali aprendi um pouco sobre programação, comecei a construir meu primeiro site e isso me deu muita autonomia. De lá para cá, fui entrando cada vez mais nesse universo, tendo o Olabi como referência porque, mesmo antes de trabalhar aqui, já achava esse espaço muito interessante e queria muito fazer parte disso. Assim, em 2015, produzi uma maratona de rodAdas hacker em São Paulo e depois disso nunca mais parei.

Capitolina:  Quando falamos de tecnologia, muitas pessoas só pensam em programação, mas a Preta Lab vê o campo da inovação e da tecnologia de maneira mais ampla, abrangendo produtoras de conteúdo e ativistas, por exemplo. Qual a importância de meninas negras e indígenas conhecerem e usarem a tecnologia?

Sil Bahia: Na realidade, essa noção precisa ser expandida, inclusive para a gente perceber que esse universo não está distante de nós. Estamos o tempo todo nos relacionando com tecnologia atualmente, mas achamos que “esse mundo não nos pertence”. Na realidade, estamos na ponta desses processos e mesmo sem perceber somos muito afetadas por eles. Então, é necessário entender que tecnologia não é apenas as redes sociais ou os aplicativos que usamos, mas também é a produção de dados que geramos, os conteúdos digitais que produzimos como textos, filmes e fotos e por aí vai… Sem contar que aqui estamos falando de tecnologias digitais, mas tecnologia mesmo é muito além do digital. No Olabi costumamos misturar saberes, entendendo que tecnologia é também marcenaria, crochê, bordado. Afinal de contas, tecnologia, no sentido mais amplo, significa um conhecimento técnico sobre determinada coisa. A maior importância de mulheres negras e indígenas conhecem melhor esses processos se dá pelo fato de que na contemporaneidade o digital é a linguagem. Porque se o futuro é tão tecnológico, tão mediado por plataformas digitais e em que delegamos muitas das nossas escolhas aos algoritmos, é fundamental que a gente estimule que pessoas dos mais diferentes backgrounds, olhares, experiências tenham acesso a produzir e se expressar nessas novas linguagens. Porque sabemos que as tecnologias não são neutras. Elas trazem estratégias econômicas, políticas, elas trazem visões de mundo. Hoje quase a totalidade das tecnologias são produzidas por, basicamente, homens brancos do hemisfério Norte. Qual o papel que cabe à nós, as mulheres negras do Sul? E como a gente vai fazer para que a gente não seja, mais uma vez, coadjuvante nesse processo e permita um maior aprofundamento das já absurdas desigualdades sociais e concentrações de poderes?

Capitolina: A PretaLab está fazendo um mapeamento colaborativo de meninas e mulheres negras e indígenas que trabalham com tecnologia e inovação. Através de um formulário no site, é possível contar sua história e as barreiras nessa área. Como está o mapeamento?

Sil Bahia: Continuamos com o mapeamento até o fim do ano. Estamos agora trabalhando na parcial dos dados da pesquisa e vale dizer que nosso mapeamento não tem cunho acadêmico. Pedimos para meninas e mulheres compartilharem conosco suas histórias, interesses e demandas para estimularmos a pauta. Porque sabemos que mulheres não são todas iguais e nós mulheres negras, estamos na base da pirâmide social. Isso não significa dizer que queremos trabalhar de forma separatista, mas sim, olhar para as diferenças para tentar construir algo em comum, onde a desigualdade não seja o centro. 

Capitolina:  Recentemente a PretaLab lançou uma série de 10 vídeos  na web com mulheres negras influenciadoras e que se apropriam da tecnologia para trabalhar. Como foi lançar essa campanha e como está sendo o feedback nas redes?

Sil Bahia:  Essa camada da PretaLab é muito bacana, porque ao longo da pesquisa encontramos muitas histórias interessantes e percebemos que precisávamos contribuir para a visibilidade dessas histórias. Aprendemos muito com essas mulheres porque ela trazem novas noções de tecnologia para além do senso comum. Para mim, elas “hackeiam”, significam e ressignificam fazeres e saberes. Estou muito satisfeita com esse processo, que contou com a colaboração da cineasta Yasmin Thayná que roteirizou e dirigiu a série. 

Você pode acessar todos os vídeos da série aqui

Vicky Régia
  • Conselho Editorial
  • Coordenadora de Se Liga
  • Coordenadora de Esportes
  • Colaboradora de Artes
  • Colaboradora de Sociedade
  • Colaboradora de Educação

Vitória Régia tem 21 anos, estuda jornalismo e acredita no poder da comunicação para mudança social. É nordestina de nascimento, paulista de criação e carioca por opção. Adora conhecer diferentes culturas e é apaixonada pela arte de contar histórias. Dedica a vida a militância nos movimentos feminista, negro e LGBT e acorda todos os dias pensando em como mudar o mundo.

  • Simone Santos

    Hola, me gusto mucho de la página y principalmente del asunto abordado. Hay que tener mucho incentivo y reflexiones como estas para motivamos…. Soy mujer negra, profesora de danza y tengo un año empecé trabajar con tecnología principalmente con una mirada para la educación… Muchas gracias

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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