23 de dezembro de 2014 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração:
Profissão: Princesa

Crianças sonham com diversas profissões. Sonham em ser bombeiros, garis, motoristas de ônibus, donas ou donos de casa. Sonham em ser pilotos, astronautas, em arquitetar casas e prédios. Sonham muito. Algumas crianças sonham até em ser princesa – mas por que nunca pensamos nesse sonho como sendo uma profissão?

Princesas são filhas de reis. Assim como príncipes, seus irmãos, elas podem constar na linha do trono (ok, não é assim em todas as monarquias, mesmo as modernas, mas eu juro que eu tenho um ponto). Sendo assim, serão chefes de estado algum dia. Como chefes de estado, serão responsáveis por algumas funções de representação política de seus países. Oras, então por que não interpretamos esse desejo de ser princesa como uma vontade de trabalhar com política?

Hoje em dia, poucos países ainda vivem regimes monárquicos – e mesmo neles as funções de governo, ou seja, o poder de decidir políticas nacionais e internacionais de fato, não são comandadas por famílias reais. Mas ainda me parece que não traduzimos essa vontade de fazer política em sonho infantil de modo mais transparente. Persiste a ideia de que uma menina só quer ser princesa por causa das tiaras, esquecendo-se da promessa de um dia empunhar o cetro e sentar-se no trono.

Filha da democracia, desde que me entendo por gente, eu queria ser a primeira presidente mulher dos Estados Unidos da América (longa história, me decepcionei enormemente quando soube que brasileiros não podiam presidir o país). Assisti a um vídeo na escola que falava exatamente isso: o país jamais tinha tido uma mulher como líder política da nação. Oras, pensei eu, no auge dos meus 7 anos, os cidadãos do mundo livre não perdem por esperar, terão a melhor. E enquanto minhas colegas de sala falavam em ser engenheiras, atrizes e advogadas, eu passei a dizer que seria presidente. Era a única – e não atraía os mais gentis dos comentários de meus pares. Nunca entendi por que era tão feio ter esse desejo, no que era tão diferente dos demais. Também não entendia muito bem por que não havia outras mulheres ocupando a presidência. Encasquetei com a ideia, coisa de criança.

Acontece que não só de presidentes vive a política moderna. E nós aqui no Brasil já até temos uma presidenta. Mas isso ainda não é o suficiente: parece que ainda faltam meninas sonhando abertamente em trabalhar com política. Dentro do Congresso Nacional, menos de 10% do total de parlamentares são mulheres (o site está desatualizado, mas veja mais alguns números aqui!). É um pouco assustador pensar na desproporcionalidade na representação de gênero.

O que será que está errado? Tenho algumas suspeitas, mas dentre elas a principal é que a imagem de pessoa que trabalha com política no imaginário popular ainda é predominantemente ligada à figura masculina. São homens, mais velhos, sisudos, de terno. Alguns condecorados, veteranos de guerra. Aí nem as mulheres pensam muito em ser candidatas, nem os homens são lá muito chegados a votar nelas. Que coisa mais século passado!

Pois nada vai mais contra esse estereótipo do que Manuela D’Ávila. Depois de participar do movimento estudantil e chegar à diretoria da União Nacional de Estudantes, entrou para o legislativo, como a mais jovem vereadora eleita da cidade de Porto Alegre, aos 23 anos. Aos 25, foi a deputada federal mais votada de seu estado, feito que repetiu em 2010, quando foi também a deputada mais votada do Brasil. Para fechar com chave de ouro sua permanência em Brasília, foi eleita líder da bancada de seu partido em 2013, aos 32 anos de idade. Hoje, de volta à Porto Alegre, é deputada estadual no Rio Grande do Sul.

Mas não são esses brilhantes feitos de Manuela que estampam os jornais. Depois das eleições desse ano, circulou em diversos portais a notícia de que a “eterna musa” alcançara novamente números surpreendentes de voto. Insistem em focar apenas na aparência da mulher que é uma força política. A alcunha, que a acompanha desde 2012, incomoda Manuela. Confesso que também me incomodaria, em meus devaneios de presidência.

 

Por que comentar as roupas de Manuela quando podemos comentar seus feitos? fonte: flickr.com/cdhcamara

Por que comentar só a aparência de Manuela e não seus feitos?
fonte: flickr.com/cdhcamara

Assim como só pensamos em coroas e vestidos de baile quando ouvimos crianças dizendo que querem ser princesas – deixando escapar por baixo das camadas de tule o possível desejo de fazer política – os jornais diminuem Manuela ao conto de fadas de sua trajetória. Mas ela é muito maior do que um final feliz com um príncipe, como também o são as outras mulheres que ocuparam e ocuparão cargos na política, aqui no Brasil e no mundo.

Que a trajetória, sonhos e incômodos de Manuela fiquem como lição para todas nós. Não importa se somos jovens mulheres, bonitas ou não. Importa que podemos sonhar também em tomar decisões importantes que ditarão os rumos do nosso pais. Mais do que isso: devemos permitir-nos sonhar com esse futuro. Está na hora de levar a sério nossos sonhos de princesa, com tiaras ou sem.

E você, já pensou em entrar para a política?

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Ana Paula Pellegrino
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Ilustradora

Ana Paula tem vinte e poucos anos e a internet opina demais sobre sua vida. Mora com sua família no Rio de Janeiro. Prefere ficar em casa tomando chá sem açúcar a sair para lugares barulhentos. A não ser que o programa envolva comprar roupas. Ou livros. Apesar de destrambelhada, faz ballet; segue tumblrs de yoga e pensa demais. Ana Paula, mesmo sendo estranha, é feliz.

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