3 de novembro de 2015 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Profissão rapper: entrevista com Luana Hansen e Mc Soffia

A nossa coluna se chama “Escola, Vestibular e Profissão”, mas falar de educação não vai ser sempre falar de ter acesso à escola ou à universidade. Falar de vestibular não precisa querer dizer a escolha daquilo que você vai fazer para o resto da sua vida. E falar de profissão, muitas vezes, não passa pelo vestibular. Hoje a gente vai falar sobre a vida de meninas e mulheres que vivem uma profissão que, imagino, não vá ser uma das primeiras que você vai pensar quando bater o olho na nossa coluna. Profissão? Rapper.

Pra apresentar um pouco do mundo do rap e do que é ter a música como profissão, eu conversei com uma menina cheia de sonhos e recados pra dar, MC Soffia, e uma mulher de muita força e luta, Luana Hansen. Soffia, com 11 anos, desponta com letras que falam sobre racismo, machismo e incentivam outras meninas a se aceitarem como são. Luana, já com 14 anos só de rap, canta sobre suas experiências pessoais, suas lutas e ideologias. As duas, vivendo um mesmo mundo com olhos diferentes, me contaram um pouco de suas trajetórias, como é a relação com os homens no rap, os temas cantados por elas e suas experiências. Vem conferir:

Antes de tudo, conta um pouco de você. Qual é sua história?

Soffia: Bom, a história da MC Soffia começou quando eu tinha 6 anos e fiz oficina de hip-hop, aí comecei a cantar. Mas a Soffia, ela gosta bastante de brincar, de passear, de cantar também. Eu moro na Cohab Raposo, gosto de ficar aqui no Centro, bem por aí.

Luana: Sou Luana Hansen, tenho 34 anos, geminiana, a filha mais velha de Dona Sonia. DJ, MC, produtora musical, estou atuando na cena do rap nacional há 14 anos. Lésbica, feminista e ativista, venho quebrando tabus dentro do hip-hop. Moro em Pirituba, onde tenho meu home studio. Posso dizer que fui daquelas adolescentes que deu trabalho, pois neste período aprendi a vender droga (ganhar dinheiro). Trabalhei em vários subempregos, mas nos tempos vagos aprendi a ganhar dinheiro com o tráfico, cheguei a me envolver em várias daquelas ciladas da vida e uma delas me levou à ruína, de vendedora à usuária em questão de meses. Quando me dei conta, estava morando na rua usando oitenta pedras de crack por dia. Foi então que tive a sorte de ir para uma clínica de reabilitação e sair depois de dois meses, e nesse momento o rap me apareceu como uma porta de escape. Das esquinas para ocupar os palcos: esta foi minha jornada, onde atravessei muito preconceito com muita luta, consegui produzir meu próprio estúdio e produzir o meu CD intitulado “Marginal Imperatriz”.

Conta melhor como você se aproximou do rap. Como você percebeu que poderia transformar a música na sua profissão?

Soffia: Comecei a cantar, como eu falei, quando tinha 6 anos. Participei do Futuro do Hip Hop, que tinha várias oficinas: mc, grafitti, dj e break. De lá, fiz a oficina com o MC 100%, já vi uma criança cantar e quis começar também. Daí fiz as oficinas, e o primeiro show que teve bastante gente foi no Anhangabaú, no aniversário de São Paulo. De lá fui pra programas e continuei fazendo shows. Então, tudo começou no Futuro do Hip Hop e de lá para o Hip Hop Kids, que estou hoje.

Luana Hansen: Quando tive o meu primeiro contato com o rap foi através do Sandrão do Rzo, e já aprendi de cara que tinha os “manos” no rap e que o máximo que me queriam era pra backing vocal. Então, já fui logo aprendendo e desenrolando as coisas. De MC rapidamente aprendi a fazer um freestyle e depois já me apaixonei pelas pick-ups e pelos vinis. Quando vi já estava totalmente envolvida. Mas foram anos até conseguir ter o meu lugar. Posso te dizer que nesses 14 anos de carreira já passei por altos e baixos, mas sempre pensei em viver do meu som. Lógico, até hoje é difícil… É um contato aqui, uma amizade ali e as coisas vão se acertando, mas isso é o que eu sei fazer.

E como é o processo de composição das suas músicas? O que te inspira a cantar?

Soffia: Eu gosto de passar as mensagens pras meninas, pra que elas aceitem seu cabelo, sua cor, que continuem seguindo seus sonhos e que a gente tenha mais meninas e mulheres no rap. Então, eu faço isso através da música, passando essa mensagem pra que as meninas se aceitem como elas são.

Luana: Na verdade, existem músicas e processos diferentes. Vou dar uns exemplos: para “Ventre livre de fato” eu li muito, pesquisei e fui buscar informações pra poder escrever. Já “Bye Bye”, por exemplo, foi aquele final de relacionamento… Estava triste, mas como no momento não tinha forças pra lutar, na fossa escrevi essa letra. “Marginal Imperatriz” foi a primeira letra que escrevi.

O espaço do rap é predominantemente masculino, né? Quais as maiores dificuldades de estar nesse meio sendo mulher e sendo mulher negra? Como é essa relação com os homens?

Soffia: Eu acho que deveriam ter mais mulheres no rap, tem muito homem hoje. Alguns homens ajudam as mulheres e outros não. Por exemplo, quando os homens fazem contratos pras mulheres assinarem, muitas vezes eles acham que vão escrever qualquer coisa nos contratos e as mulheres vão assinar porque não sabem. A gente tem sempre que ler tudo com muita atenção porque os homens são muito espertinhos, sabe? Além disso, muitas vezes, os homens não gostam que as mulheres cantem. Tem muito machismo no hip-hop.

Luana: Sim, é muito machista. Nossa, sempre tive que lutar dentro do rap. Encontrei amigos dentro do rap, mas posso dizer que cabem na mão a contrapartida. Já fui mandada embora de trabalho por ser lésbica, já chegaram a me tirar da van de um show que eu tinha fechado por eu bater boca com um mano e ele falar: “Ou eu ou ela”, e eu descer. É por isso que, onde eu estiver, vou lembrar muito que, além de ser mulher, sou lésbica assumida e uso minhas músicas como uma verdadeira arma contra o machismo, racismo, misoginia e o genocídio da juventude negra.

Como a gente está escrevendo pra coluna de “Escola, Vestibular e Profissão”… Você acredita que a música é, também, uma forma de educação? Como você acha que o rap (ou outro gênero musical) pode ajudar na formação das pessoas?

Soffia: Eu acho que pode, sim. Primeiro porque pra cantar, é preciso estudar bastante. Acho que as escolas mesmo deveriam ter oficinas de hip-hop para que as crianças saibam sobre a cultura negra. As pessoas que cantam hip-hop falam o que elas estão sentindo e vendo. Por exemplo, a Polícia Militar está matando os negros da periferia, e o hip-hop pode falar sobre isso. Eu sofri racismo na escola, o hip-hop também pode falar sobre isso. Ele fala sobre as questões que a gente está passando. É importante conhecer o hip-hop (também nas escolas) porque é uma música de força, resistência negra.

Luana: Pra mim, que faço música de protesto, sempre achei que a música, além de ensinar, pode passar em dois ou três minutos uma ideia nunca antes discutida. Às vezes, quando canto “Flor de mulher”, vêm mulheres que chegam e me abraçam dizendo serem gratas por eu conseguir pôr a luta delas em evidência, outras me falam de situações onde sofreram violência e que a minha música as deu coragem pra seguir em frente. Acho e sempre achei que é preciso trazer sempre o 5º elemento, que é o conhecimento, pois assim sempre poderá ir mais além. E, sim, a música pode ser uma porta que abrimos pra mudar a vida de todos, pois já mudou a minha.

Pra quem curtir te conhecer um pouco mais, conta quais os planos pro futuro. Por onde a gente te encontra?

Soffia: Pra quando eu crescer, quero continuar cantando, quero ser médica, atriz, modelo, jogadora de futebol, basquete, vôlei e várias outras coisas!

Luana: Eu estarei nos Circuitos do Céu e estarei também no Sexx Box e na Marcha da Mulher Negra em Brasília, dia 18 de novembro. Pra quem quiser acompanhar nossa agenda, temos a página no Facebook DJ Luana Hansen ou o site www.luanahansen.com e contatos pra shows e palestras em producao.luanahansen@gmail.com.

Por fim, manda um recado pras meninas leitoras da Capitolina que querem seguir uma carreira na música como você.

Soffia: O recado pra elas é que estudem bastante, pra que tenham mais meninas no hip-hop. Lá fora já tem bastante, e que a gente tenha aqui no Brasil também. Que elas aceitem seu cabelo, que não vá pelo que as pessoas falam. Por exemplo, se sua melhor amiga está falando pra você alisar o cabelo, não, não precisa alisar. Você pode falar que você gosta do seu cabelo como ele é. Que aceitem a sua cor negra, e se você é negra, mas tem um tom de pele mais claro do que o que dizem que é ser negro, não se passe como branca, aceite a sua cor e o seu cabelo. Esse é o meu recado.

Luana: Acreditem sempre, mesmo quando o caminho te leva pra longe. Tem muita coisa hoje na internet como tutorial que você pode assistir e aprender a fazer um beat. Ocupem espaços, como fábricas de culturas, centros culturais etc., pois sempre aparecem uns cursinhos de produção de beats, como gravar umas faixas, enfim… Foi assim que comecei a fazer beats, afinal, mesmo quando todos falam que não dá, use tudo isso como uma espécie de turbo pra que você corra mais rápido aos seus objetivos.

+ + + pra ouvir:

MC Soffia: https://www.youtube.com/watch?v=3EB5yey7lsY

Luana Hansen: https://www.youtube.com/watch?v=UWe4d_5FQjg

Isabela Peccini
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão

O nome é Isabela, mas os apelidos são variados, sintam-se à vontade. Quase arquiteta e urbanista pela UFRJ. Mas não se engane, não vou fazer a sua casa ou a decoração da sala. Objeto de estudo: cidade, sempre pelos olhos da mulher. A minha cidade? Rio de Janeiro, uma relação de amor e ódio. Militante no movimento estudantil desde que me lembro e feminista porque não dá pra não ser, o feminismo te liberta!

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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