29 de março de 2015 | Estilo | Texto: | Ilustração:
Propagandas que amamos – só que não

Se você é assídua nas redes sociais (em especial o Twitter), deve ter visto pelo menos alguma menção a uma linha de esmaltes anunciada essa semana e que tem como objetivo homenagear os homens que amamos. A publicidade em torno disso falava que o tema era o assunto nº 1 entre as mulheres. Olha, antes de sequer chegarmos ao produto já dá pra ter noção de como está tudo errado: como é que a ideia — com a qual Hollywood concorda bastante — de que mulheres falam quase que exclusivamente sobre homens abrange as meninas que são lésbicas, arromânticas ou assexuais? Elas não usam esmalte? Ou será que elas também vivem falando só de homens?

Tá bom que mundo dos esmaltes é cheio de nomes bizarros, mas dessa vez o pessoal da criação se superou: “André fez o jantar”, “Fê mandou mensagem”, “Guto fez o pedido”, “João disse eu te amo”, “Leo mandou flores”, “Zeca chamou para sair”. Bem, eu não tenho namorado e nem nunca tive nenhum tipo de relacionamento. Mas imagino que se eu me envolvesse com alguém o mínimo que eu esperaria é receber mensagens, receber flores e ser chamada para sair. Se um dia eu me casar, o fato de que meu marido fez o jantar nunca vai ser motivo de destaque na minha casa. Mas, mesmo assim, essas atitudes super simples e que acontecem o tempo todo partindo de mulheres estão sendo motivo de destaque em uma linha de esmaltes.

O problema em si não é nem o enaltecimento dessas pequenas coisas. É o fato de essas coisas serem consideradas excêntricas ou especiais o suficiente para serem dignas de destaque. Isso só acontece porque cozinhar é considerado obrigação da mulher e quem manda mensagem, é claro, são só as meninas grudentas. Relacionamentos são relações recíprocas, e, por isso, o envolvimento tem que vir das duas partes. Dar destaque a questões que deveriam ser o mínimo esperado em qualquer relação só reforça a ideia de que ter um homem atencioso e que se importe com você é como ganhar na loteria, que somos sortudas de termos alguém que nos queira, que ser exigente demais vai fazer com que acabemos sozinhas mesmo que essa não fosse nossa opção inicial.

E, é claro, isso tudo piora se considerarmos que esmaltes são tradicionalmente anunciados para mulheres. Já não sendo o suficiente não termos nossas demandas atendidas nem sequer entendidas por marcas de cerveja ou de carros que vendem mulheres como brindes, marcas de produtos que são frequentemente usadas por mulheres ainda pisam na bola em suas propagandas. Outra campanha mega problemática que aconteceu recentemente envolveu uma marca de absorventes comparando vazamentos menstruais com vazamento de informações privadas sem o consentimento da dona — o primeiro, uma coisa comum e normal de acontecer e o segundo, um crime com um culpado palpável.

O mundo da publicidade, no geral, é extremamente machista. Mas quando essas propagandas são direcionadas a mulheres tudo isso se torna ainda pior porque teoricamente é o momento em que deveríamos nos sentir agradadas e compreendidas enquanto consumidoras e, mais importante, enquanto pessoas. Discutir esses assuntos aparentemente irrelevantes é o que nos leva a entender o quanto a misoginia e o machismo ainda estão emaranhados em nosso dia a dia e como podemos desconstruir conceitos maiores que são reforçados o tempo todo.

Beatriz Rodrigues
  • Colaboradora de Ciências
  • Colaboradora de Estilo
  • Colaboradora de Saúde

Bia Rodrigues ou só Bea tem 19 anos, é mineira, estudante de Farmácia e adora fatos inúteis. Se tivesse que comer só uma coisa pelo resto da vida, escolheria batata. Ainda não acredita que conheceu outras meninas da Capitolina. É 60% Corvinal e 40% Sonserina.

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