5 de agosto de 2014 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração:
Prostituição enquanto profissão para mulheres trans
Ilustração: Julia Oliveira

Ilustração: Julia Oliveira

Desde criança almejamos nos tornar alguém, ter uma profissão com a qual nos identificamos e sonhamos em exercê-la com excelência. É tratado como algo inocente quando nossos pais nos pegam dizendo “Eu vou ser (coloque aqui uma profissão) quando crescer”. Mas o que eu, travesti, vou ser quando crescer? Ser travesti, ou transgênera lida como travesti, por questões socioeconômicas, vai além de uma identidade de gênero. É uma condição de vida deplorável como um todo, para a sociedade. O que ela é? Travesti. Com o que ela trabalha? Ela é travesti. Com quem se relaciona? Ela é travesti. O ‘’travesti’’ carrega consigo preconceitos já estabelecidos, limitações já internalizadas. Não seremos ninguém, não iremos trabalhar, não iremos estudar, não frequentaremos lugares públicos, não iremos nos relacionar. MAS iremos nos prostituir, porque foi para a rua que nos jogaram.

Nossa existência carrega consigo o peso da marginalização. De sermos socialmente lidas como apenas prestadoras de serviços sexuais e objetos da noite, onde estaremos escondidas – afinal somos seres proibidos que não podem conviver com a população no dia-a-dia.  Nossa imagem é relacionada sempre de forma imediata ao ato sexual e à prática da prostituição, embora existam meninas que levam suas vidas lutando contra o sistema o qual normatiza a cisgeneridade que as empurram para essa margem.

Se enxergar estando nessa posição é algo difícil. É difícil porque você tem sonhos, pessoas têm sonhos em cima de você – e ser travesti, em nossa sociedade, é algo que não nos permite ter sonhos. Isso porque nosso amanhã é incerto, nossos passos em qualquer dia podem ser os últimos (nossa vida em média não passa dos 32 anos). A rua, a beira da estrada, o embaixo do poste de iluminação: é onde ditaram como nosso lugar. Invisíveis, permaneceremos lá, almejando um dia sermos vistas. E que, quando isso não aconteça, que felizmente não seja estampando uma capa de jornal a qual anuncia nossa morte em uma estrada qualquer.

Acostumadas com as violências diárias desde a infância, a grande parte das travestis e mulheres trans acabam por aceitar a condição na qual se encontram e a tratam não como uma esmola dada, mas como uma solução, como uma luz no fim do túnel. Mas seria a prostituição uma saída para os problemas? Ou seria ali o real início de um caminho que muitas vezes termina de forma trágica?

Frequentemente, percebemos que a população comenta sobre o espírito violento que supostamente grande parte dessas meninas teriam. Mas o que eles esquecem é de analisar a situação em que elas se encontram, a razão pela qual estão ali e quem as colocou nessa posição. Auto defesa existe, é preciso e é natural do ser humano. Quando você tem consciência de que grande parte de sua vida é resumida a violência, humilhações e rejeições, é mais do que normal que você, enquanto ser que luta por sua sobrevivência, construa barreiras que irão impossibilitar que outros vejam sua vulnerabilidade e fragilidade. E, logo, se preocupará em externar o contrário disso: a hostilidade.

Ocupar o nosso papel é todo dia cravar uma guerra com todo um sistema pautado na normatização dos cisgêneros, o qual nos deslegitima, marginaliza e mata. A transfobia está internalizada em nossa sociedade. Ela é cotidiana, passável… apenas um simples humor. Um humor que, sem ter noção (ou tendo), contribui para transfemícidios dia após dia, e que, por mais que gritemos em busca da devida solução para essa terrível situação, nossa voz é abafada, tampada, ignorada.

Quando escrevo sobre minha vida enquanto mulher transgênera, não procuro falar sobre mim, Maria Clara Araújo dos Passos. Mas sim, falar por todas nós. Por todas nós que desde cedo levamos uma vida em que as sandálias são colocadas ao contrário. Por todas nós que fomos rejeitadas ao manifestar uma performance de gênero diferente da qual nos atribuíram. Por todas nós que largamos a escola nem que seja um dia, porque não aguentávamos mais as humilhações lá sofridas. Por todas nós que aceitaram estar na rua, porque lá, no submundo, parece ser o único lugar que nos restou.

O que almejo é que isso seja escutado, refletido e que desperte em você, leitora, o desejo de lutar conosco, travestis e mulheres trans, pela reeducação de um povo transfóbico que nos atribuiu a condição de ser o lixo da sociedade.

Que não aceitemos mais que nos escondam na noite, que eles lidem conosco no dia-a-dia, nos ambientes públicos, nas escolas, nas universidades, nos escritórios e, quando tentarem nos apartar, nos verão protestando nas ruas e em espaços públicos.

Basta! Não iremos abaixar a cabeça. Não aceitaremos mais ser marginalizadas.

Maria Clara Araújo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão

Futura pedagoga e feminista que transversaliza as questões de gênero e raça. Meu nome se tornou uma alusão à minha transparência em relação aos meus sentimentos. Pisciana, sinto como se eu fosse um mar misterioso e difícil de se velejar.

  • Edmilson Rodrigues

    Amei o post, Maria Clara! É vergonhoso saber que as situações expostas por você sobre a causa trans* no texto são tão presentes na nossa sociedade, mesmo estando em pleno séc XXI. A transfobia existe sim, e mais do que nunca precisa ser combatida.

  • Bruno

    Parabéns pelo texto! Infelizmente essa é a realidade de maioria das mulheres trans e travestis atualmente em nossa sociedade, precisamos conscientizar a população, a começar pelas escolas para que este preconceito seja eliminado, não há nada de errado em ser uma mulher trans/travesti, o errado é pensar o contrário.

  • Aa

    Clarinha, que texto lindo! Preciso conversar contigo, é sobre uma bolsa de estudos para curso de idiomas, 100% free, sem merchan. Contata em @emblemas – Beijo,Vinicius

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