13 de fevereiro de 2015 | Ano 1, Edição #11 | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Público & privado: aquilo que é nosso e dos outros também

Depois das eleições e entre protestos reivindicando diferentes questões ao redor do Brasil, escutamos um bocado sobre as melhorias que devem ser feitas. Nós sabemos que as melhorias no sistema público estão fora do nosso alcance e devem partir de iniciativas governamentais. Mas a forma como interagimos com aquilo que é dado como público pode ser interpretada como uma reinvidicação do que é nosso: sendo por intervenções, depredações ou melhorias.

Às vezes, quando penso nas injustiças na sociedade brasileira, tenho vontade de quebrar tudo, sim. Quando leio noticias sobre pacientes que morreram nos corredores de hospitais por falta de atendimento ou testemunho pessoas utilizando mais de 3 transportes para chegar no trabalho, dá vontade de atiçar fogo pela cidade. A sensação de abandono é desesperadora, ainda mais quando esses abandonos são violações de direitos humanos básicos. Precisamos exigir melhorias, protestar nas ruas, direcionar nosso tempo e energia para causas que afligem o coletivo. Mas sou contra reações que prejudicam aquilo que está disponível para todos – inviabilizar a utilização do que é público sem pensar no dia seguinte do próximo é uma atitude que distancia as pessoas dentro da comunidade.

Primeiro podemos pensar no que está disponível a todos – o que é diferente de estar acessível, mas é o que a maioria utiliza: caminhamos pelas ruas, utilizamos transporte público, temos acesso a saúde pública, vamos em museus e parques. Todas essas coisas fazem parte do coletivo. Pensar no coletivo é uma forma de criar zelo por aquilo que é público. Como ter zelo por aquilo que está zoado? É muito mais fácil ter zelo vindo de uma posição de privilégio, onde o público que funciona está acessível, funcionando quase direitinho e, quando não está funcionando, ter alternativas. Pensar no coletivo também significa pensar naqueles que não têm acesso ao público – como a Andreza Delgado escreveu em um texto sobre a necessidade das cotas para a garantia da presença de pessoas negras, pardas, indígenas e pobres dentro das universidades públicas.

Um dos maiores exercícios para desenvolver o senso de coletividade acontece no transporte público. Começamos pagando um preço exorbitante pela passagem e então passamos por todo tipo de perrengue. Mas você já parou para pensar que às vezes esses perrengues são apenas reflexo da falta de coletividade e do egoísmo do próximo? Aquele banco estragado do ônibus, as pessoas paradas na frente da porta, o jovem sentado no assento destinado a idosos, o homem assediando as mulheres: tudo isso é falta de coletividade e mau uso daquilo que é público. Uma visita a um parque é mil vezes mais agradável quando vemos que o local é bem cuidado, mas a iniciativa de cuidar não vem apenas do governo, vem também do coletivo que zela pelo público.

Requalificar o sistema publico é um exercício diário. Vamos nos apropriar daquilo que é um direto, vamos reivindicar melhorias, vamos fazer a cidade cada vez mais nossa, zelando pelo coletivo e repensando até mesmo os pequenos gestos do dia a dia.

Rebecca Raia
  • Coordenadora de Artes
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Coordenadora Editorial

Rebecca Raia é uma das co-fundadoras da Revista Capitolina. Seu emprego dos sonhos seria viajar o mundo visitando todos museus possíveis e escrevendo a respeito. Ela gosta de séries de TV feita para adolescentes e de aconselhar desconhecidos sobre questões afetivas.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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