18 de agosto de 2014 | Ano 1, Artes, Edição #5 | Texto: | Ilustração:
Qual é a sua cor?

adriana varejão - laura vianaIlustração por Laura Viana

“Qual é a sua cor?”

Essa costuma ser a pergunta sempre presente nos mais diversos questionários socioeconômicos, normalmente acompanhada por cinco possíveis respostas pelas quais se nota que o sistema não é lá grande fã de nuances: “preto”, “branco”, “pardo”, “amarelo” e “vermelho”.

Pois no ano de 1976, o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – resolveu sair um pouco da rotina em seu censo populacional ao deixar a questão em aberto, permitindo que o entrevistado escolhesse o termo que mais se adequasse à tonalidade de sua pele.  O resultado foi de dar inveja a qualquer estojo de lápis de cor que você já tenha usado: 136 tonalidades diferentes, que foram dos clássicos cinco já citados, aos mais inventivos, como o assustador ‘enxofrada’ ou o poético ‘cor de ouro’.

Foi sacando o lirismo todo das nuances brasileiras que a artista plástica carioca Adriana Varejão – bem conhecida por seus azulejos calcados em vísceras esculpidas – se inspirou para criar o incrível Polvo. Neste trabalho, Adriana elaborou um conjunto de trinta e três tintas a óleo baseadas nos termos citados nas pesquisas, onde encontram-se tonalidades como “branca suja”, “burro quando foge” e “encerada”. Cores feitas para colorir peles, tentando cobrir algumas de suas muitas variações e fazendo o infame (ou, fugindo dos eufemismos, racista mesmo) “cor de pele” da nossa infância ir se esconder de vergonha no cantinho. Depois, com a série Polvo Portraits, as tintas foram aplicadas pela artista sobre diversas reproduções em pintura de um mesmo rosto.

Ano passado, andando ali pela região da Vila Buarque, aqui em São Paulo, era possível ver exposto um outro trabalho, de uma outra artista, que de certa forma conversa com o de Adriana. Quem passou pelos arredores da biblioteca municipal Monteiro Lobato viu os imensos retratos de desconhecidos fotografados dos ombros para cima em um fundo de cor idêntica à da pele. Era a obra Humanae, da fotógrafa Angélica Dass, que integrava a exposição PhotoEspaña.br, promovida pelo Sesc Consolação.

Angélica, também carioca, vive e desenvolve seus trabalhos em Madrid, Espanha. Em Humanae, ela fotografa voluntários nas diversas cidades por onde passa – até o momento, Madrid, Barcelona, Winterthur, Rio de Janeiro, São Paulo, Paris e Chicago – e, em seguida, seleciona um quadradinho de 11×11 pixels de pele como amostra de cor, que depois é replicada como fundo da foto. Assim, ela substitui as cinco categorias de cor citadas lá no começo pelas aparentemente infinitas possibilidades da escala Pantone – em vez da penta-chatice dos questionários ou dos variados termos da “parceria” IBGE-Varejão, os tons são classificados por um código alfa-numérico marcado na borda inferior da imagem e que se repete pouquíssimas vezes ao longo do trabalho. Ou seja, é cor pra caramba.

Em seu site, ela diz que “o objetivo do projeto é registrar e catalogar todos os tons de pele humana possível”, e o trabalho segue em progresso por tempo indeterminado.

Discutir os nossos conceitos tão fechados de cor é algo que Adriana e Angélica fizeram de forma impecável com seus trabalhos tão simples – da forma boa, aquela em que só se mantém o fundamental – que se tornam praticamente apenas pele, e são daquelas obras que me causam o sentimento “como eu não pensei nisso antes?”. Transformá-los em parte dessa discussão tão mais profunda que são as relações raciais brasileiras, porém, pode ficar um pouco perigoso.

É fascinante ver o corpo humano transformado em matéria plástica em vez de mero elemento de composição. Mas será que dá, em uma sociedade tão racista e segracionista quanto a nossa, pra tratar a cor da pele como um simples detalhe visual? Fazer isso não seria uma forma de invisibilizar a condição daqueles que são marginalizados por sua cor enquanto elemento racial? É muito comum ouvir daqueles que rejeitam a existência do racismo que “não existem raças, somos todos humanos” ou “o Brasil é um país miscigenado!”. Mas não se ver enquanto raça ou não se sentir limitado por sua própria cor é um luxo a que só o grupo privilegiado pode se dar: o lápis cor de pele lá do começo tem que cor? E o nude, aquele tom que a moda tornou tão presente nos batons e sapatos? Certamente não a mesma do “suspeito cor padrão” frequentemente citado em investigações policiais.

Gosto mesmo é de pensar em Humanae e Polvo como trabalhos-fuga daquela mesma coisa, mesma cara, mesma cor de sempre, que não estão tentando apagar a variedade, e sim se alimentar dela.

Laura Viana
  • Colaboradora de Estilo
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Aos 21 anos, todos vividos na cidade de São Paulo, Laura está, de forma totalmente acidental, chegando ao fim da faculdade de Artes Visuais. Sua vida costuma seguir como uma série de acontecimentos pouco planejados, um pouco porque é assim com a maior parte das vidas, muito por gostar daquela conhecida fala da literatura brasileira, “Ai, que preguiça!”. Gosta também de fotos do José Serra levando susto, mapas, doces muito doces e de momentos "caramba, nunca tinha pensado nisso!". Escreve sobre #modas por aqui, mas jura por todas as deusas que nunca usará expressões como "trendy", "bapho" e "tem-que-ter".

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