30 de julho de 2016 | Relacionamentos & Sexo, Sem categoria | Texto: | Ilustração: Isadora Carangi
Quando a vida se faz de partidas: Como lidar quando podemos ficar?

Nos últimos meses, nesse processo de deitar no divã uma vez por semana, mas também de ficar pensando muito sobre identidades que se constroem nas fronteiras, percebi algo sobre mim que nunca havia notado: a minha vida se fez mais de partidas do que de permanências.

Refiro-me ao fato de sempre ter achado curioso não ter amigas de tão longa data. Sabe aquelas pessoas que se conhecem no pré-escolar e continuam juntas para sempre? Ou que crescem no mesmo bairro e os vizinhos a viram crescer? E que viram de pertinho os amigos crescendo?

Eu não tive nada disso nas minhas experiências. Primeiro porque nasci na Paraíba, em uma pequena cidade, na região do Cariri, chamada Taperoá. Sabe aquela cidade do filme O auto da compadecida? Isso, aquela cidadezinha. E como dá para ver no filme a cidade é tão seca, tããão seca, que em algum momento era impossível continuar morando ali.

Então vim com meus pais e minha família para São Paulo. Eu tinha 8 anos e fui morar em uma casa pertinho da casa da minha avó, na zona norte. Um ano depois estava morando um pouco mais longe dela, mas do lado da escola que eu estudava. Isso era bom, mas eu sentia falta da minha avó.

Nessa escola, eu tinha uma amiga muito querida que se chamava Aline. Quando acabou a quarta série fui estudar em uma escola do lado e a Aline também estava lá. Nós éramos muito próximas. Eu a adorava. Mas aí tive que mudar de casa de novo, vim morar no centro. Morar aqui foi ótimo, mas essa mudança causou também a troca de escola. E tive que me readaptar.

Sexta, sétima e oitava série. Na sexta eu era muito amiga de uma garota chamada Érika. Ela me deixava encantada com o jeito de me explicar as coisas, eu a achava muito sabida. A gente trocava cartinhas e eu sentia um prazer enorme de estar perto dela. Mas um dia a Erika me disse que ia morar na Bahia com os pais.

No último dia, quando tentei ligar para ela e trocar endereços para nos escrevermos por cartas, ninguém atendeu. Acho que a família dela já tinha ido embora. Poxa, foi muito difícil perder a Érika.

Depois da sexta série, conheci mais pessoas, algumas foram embora como a Érika, outras enveredaram por caminhos muito diferentes como Aline e parecia que já nem tínhamos mais o que conversar.

Nesse processo, eu não sentia tanto que tinha um lugar, porque nem morava na cidade em que nasci, nem conseguia constituir vínculos duradouros com as pessoas que conhecia. Notei que constantemente me sentia meio sem lugar. Sentir-se sem lugar também tinha a ver com ter que contar toda hora quem eu era para as pessoas. Ninguém me conhecia de tão perto e eu não conhecia as pessoas também, e isso às vezes era cansativo.

Diante disso, partir ou ver as pessoas partindo era algo muito comum para mim. Desenvolvi então certa dificuldade para resolver conflitos. Por um tempo, o que eu mais fazia ao me deparar com problemas era colocar a mochila nas costas e ir embora. Não por falta de vontade de ficar, mas depois de morar em oito casas e estudar em seis escolas diferentes, ir embora era o que eu sabia fazer de melhor.

Recentemente, ao notar isso, percebi que ao entrar na faculdade foi a primeira vez que me permiti permanecer em algum lugar. E também descobri que há muitos desafios na permanência que eu nem sabia que existiam.

Ficar onde estamos e querer estar ali permite um sabor novo. Aprendemos a lidar com conflitos, a não desesperar tanto achando que tudo vai ruir por uma briguinha ou outra. E o mais incrível foi que me fez gostar da cidade em que moro, depois de uma vida achando São Paulo horrorosa, aprendi que aqui estava muito do que sou e do que me tornei.

Decidir criar raízes me possibilitou sentir que estava pisando em um solo mais firme. A verdade é que também me fez notar que partir ou deixar partir por vezes é muito necessário. Descobri então que por mais que queiramos estar em um lugar ou que alguém fique, não temos poder nenhum sobre isso.

Circular como circulei por escolas, bairros e grupos de amizade me fez descobrir muita gente bacana, me ajudou a julgar menos as pessoas e aprender a pensar sempre no lugar que a outra pessoa ocupa. Me fez conhecer também pessoas de diferentes origens sociais, diferentes cidades, isto é, me fez ter uma rede grande de contatos por aí. E isso é muito bom, me sinto abrigada em vários cantinhos. Mas também me fez ter muita dificuldade de adaptar a estar em um só lugar e lidar com os conflitos que surgiam quando as relações se tornavam mais profundas.

Aos poucos fui percebendo que esse não lugar é sentido por muitas pessoas. Porque parece que as pessoas não se pensam tanto nas partidas, pensam-se mais nas estadias. E quem parte fica meio despedaçado ou com muitos pedaços espalhados por aí.

É preciso saber juntar esses pedaços. Notar que ainda somos quem somos onde quer que estejamos. Que fizemos tudo e nos relacionamos da forma que era possível. E que ter essa diferença por termos nos movido de um lugar para outro não faz nossas relações ou nosso modo de lidar com as relações piores, apenas diferentes.

Mas o mais importante nisso tudo é que precisamos fazer um movimento de construir o nosso lugar, não importa se será muito estranho ou se nosso lugar não é só um, mas vários. Só precisamos aprender o equilíbrio e descobrir quando é hora de ficar ou deixar ficar. Quando é hora de ir embora ou de deixar que sigam o caminho sem nós.

No fim, podemos deixar amor no maior número de lugares e receber amor desses lugares também. Ademais, ausências, vazios e partidas também possibilitam novos preenchimentos, chegadas e espaço, o que não é necessariamente negativo. Vivamos nas fronteiras, mas sem fronteiras.

 

Fernanda Kalianny
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Se liga
  • Coordenadora de Poéticas

Fernanda Kalianny Martins Sousa , 26 anos, fez Ciências Sociais na USP e cursa doutoraddo em Ciências Sociais na Unicamp. Adora ler sobre aquilo que informa e complementa sua formação enquanto ser humano, então sua área de estudo tem tudo a ver com aquilo que sente ou é (estuda raça, gênero e sexualidade). Escreve poemas e acredita que sempre será "amor da cabeça aos pés". O coração, intensidade e impulsividade controlam quase todas as ações. Ama apaixonadamente e vive as paixões da forma mais cheia de amor possível. Antes que sufoque com o que fica para dentro, coloca tudo no papel.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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