3 de dezembro de 2014 | Edição #9 | Texto: | Ilustração: Ana Maria Sena
Quando eles não estão mais aqui

A maioria de nós pensa em nossos pais como pessoas que vão estar sempre lá para nos proteger desse mundo terrível e cruel em que vivemos. Se às vezes não podem nos proteger de coisas inevitáveis, vão pelo menos estar lá pra recolherem nossos pedaços e colocá-los no lugar. Normalmente nossas famílias são nossas primeiras referências, e nossos pais, a estrutura na qual nos apoiamos durante muitos e longos anos para construirmos nossas próprias casas nessa vida.

Esperamos que eles estejam lá na primeira vez que andarmos de bicicleta sem rodinhas, que nos levem pela mão no nosso primeiro dia de escola, que nos inventem pequenas histórias e leve mentiras para coisas que ainda não somos capazes de entender, que celebrem nossos aniversários e que, cada um a sua maneira, ensine-nos o certo e o errado. Que nos amem incondicionalmente, ainda que fiquemos com vergonha de andar com eles no shopping.

Esperamos também que eles fiquem bem velhinhos e, à medida que crescemos, percebemos suas peculiaridades e os futuros maneirismos da idade. Imaginamos também que um dia seremos velinhas junto, mesmo que um pouco mais novas. Talvez seja essa a única parte da nossa vida em que nos igualemos a eles, mas durante as muitas décadas da nossa juventude, a vida adulta deles é inevitável que acabemos criando uma ideia imaginária de que nossos pais são heróis invencíveis capazes de combater qualquer mal no nosso mundo.

No fundo, sabemos que eles se vão em algum momento das nossas vidas, mas nunca estamos realmente prontos para esse momento, vindo de maneira súbita ou resultante de diversos fatores externos, principalmente se esse momento acontece na nossa juventude.

Crescemos e então descobrimos que, bom, nossos pais são pessoas como eu e você. Que por de trás daquela armadura de ferro existe um ser humano que infelizmente não é imune as coisas do mundo. Se sairmos perguntando qual foi esse momento, o instante em que percebemos que eles não eram esse grande ser sagrado criado na nossa imaginação, teremos respostas mais variadas, muitas talvez não sejam agradáveis e outras podem ser engraçadas e ternas.

Quando temos que lidar com a morte ou a doença de um pai ou uma mãe, o inesperado acontece: as filhas/os filhos cuidando dos pais. Por mais clichê que possa soar, vemos como a vida é frágil e que não pede  licença para mudar a noção de mundo que até pouco conhecíamos.

Sabemos que as pessoas morrem todos os dias, de maneiras e com idades variadas, mas só entendemos a dimensão da morte e como ela pode nos afetar no momento em que perdemos alguém que amamos e que consideramos essencial. A verdade é que não crescemos imaginando que teríamos que enterrar um pai ou uma mãe em idade. Parece errado segundo tudo que aprendemos.

Um lugar que sobra na mesa, um número de telefone que não toca mais, uma voz que não chama mais teu nome. Da melhor maneira que conseguimos, aprendemos a viver com a saudade, não sem antes nos questionarmos infinitamente por que certas coisas acontecem conosco. Achar alguém para colocar a culpa seria reconfortante se a vida não fosse muitas vezes uma sucessão de eventos aleatórios que culminam num início, num meio ou num fim.

Precisamos continuar a viver a vida, mesmo que de uma maneira completamente diferente. Convivemos com a saudade constante daqueles que foram embora. Alguns de nós são capazes de falar do outro sem problema, outros preferem manter silêncio. Não podemos prever como lidaremos com quem já foi, mas precisamos respeitar tanto nossos sentimentos e limites, quanto o dos outros.

Algum tempo depois, quem sabe um mês, um ano, alguns dias mais tarde, depois que tudo foi colocado em um novo lugar e quando já tivermos aprendido a lidar melhor com a dor e ficamos com as coisas boas, sem mais nem menos vai aparecer tudo de novo. As cicatrizes já fechadas vão se abrir e isso vai ser desencadeado por qualquer coisa. Tu vais lembrar que um dia comeu pão com queijo na cozinha de casa com ela ou que ele não gostava de café com leite, uma lembrança banal vai ser suficiente para trazer tudo à tona. O que ficou distante pelos dias passados no calendário vai parecer hoje. Ou então numa conversa distraída, você vai falar nele e vai se desligar do mundo por um segundo, perguntando-se se tudo aquilo realmente aconteceu.

Lidar com a perda dos pais antes do esperado não é fácil, porque esperamos que eles estejam conosco em todos os momentos de nossas vidas. Não existe uma cartilha que nos ensine a lidar com a dor e cada pessoa vai ter uma história única para contar.

Se tem uma pessoa na minha opinião que soube muito bem colocar em palavras o que é saudade de alguém que já não se encontra entre nós é o Ray Davies, do Kinks.

I bless the light,
I bless the light that lights on you believe me.
And though you’re gone,
You’re with me every single day, believe me.

(Eu abençoo a luz,
Eu abençoo a luz que vem de você, acredite
E você se foi
E você está comigo todos os dias, acredite.)

Natasha Ferla
  • Coordenadora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Estilo
  • Audiovisual

Natasha Ferla tem 25 anos e se formou em cinema e trabalha principalmente com produção. Gosta de cachorro, comprar livros e de roupas cinza. Gosta também de escrever, de falar sobre o que escreve porque escreve melhor assim. Apesar de amar a Scully de Arquivo X sabe que no fundo é o Mulder.

  • Maysa

    Esse texto me emocionou de uma maneira inexplicável. Muito obrigada por fazê-lo, Natasha.

  • Luana Moreira

    Lágrimas escorreram dos meus olhos, seu texto está lindo! E é exatamente assim, não só com nossos pais, mas com qualquer pessoa que marcou nossas vidas de alguma maneira.

  • Pingback: As famílias que a gente escolhe — Capitolina()

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos