26 de setembro de 2015 | Ano 2, Edição #18 | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Quando eu descobri que, às vezes, ser workaholic não é tão legal assim

Eu sempre fui muito estudiosa. Toda vez que eu olho para trás e penso na época de escola, lembro de sempre estar com um livro na mão. Eu sempre sabia as respostas, sempre fui nerd, desde criancinha. Minha mãe adora contar uma história de quando eu estava no maternal e chorava quando tinha que faltar a escola por qualquer motivo, e ela às vezes mentia para mim dizendo que uma sexta-feira já era sábado só para não ouvir a choradeira. Não sei de onde veio isso, mas sei exatamente quando e por que isso se agravou e começou a fazer tão parte de mim, a ponto que tanta obrigação junta já não era mais saudável. Eu também sempre fui gorda e sempre me achei feia, então, pra mim, eu tinha que compensar de algum modo: eu tinha que ser, pelo menos, inteligente. A partir desse momento, as conquistas acadêmicas e profissionais ganharam um valor absurdo na minha cabeça: eu tinha a obrigação de ser perfeita, de tirar notas altas e de conseguir alcançar todas as metas que estabelecia. Quando não passei para uma escola especial no primeiro ano do ensino médio, que me ajudaria a passar no vestibular, chorei por uma semana – detalhe: eram 500 candidatos para quinze vagas.

Some essa mentalidade a uma jovem que passou a adolescência toda vendo o final do casamento de seus pais e só queria não morar mais naquela casa. Na minha cabeça, passar no vestibular era o primeiro passo para tudo que eu estava trabalhando, pra ser uma profissional brilhante e não depender de mais ninguém. Com a tal independência o mundo seria perfeito; eu me imaginava frequentando as aulas, sendo amiga dos professores, fazendo os trabalhos, imaginava essa vida maravilhosa. Eu PRECISAVA (assim, em capslock mesmo) passar no vestibular, era a coisa mais importante da minha vida. Mesmo sem a escola especial, eu passei no vestibular e chorei, e até hoje, esse é um dos dias mais emocionantes da minha vida, quando vi meu nome naquela lista de aprovados. Aí a faculdade começou e os meus planos começaram a desandar, porque esse é o problema de idealizar tanto as coisas: elas sempre são melhores na nossa cabeça.

Preciso deixar claro aqui também que ter entrado em uma faculdade pública foi um imenso privilégio. Por mais que eu tenha problemas com esse sistema de ensino, no mundo em que vivemos ter um diploma é um privilégio. A faculdade abriu portas e ampliou meus horizontes, e minha vida teria sido completamente diferente se eu não tivesse feito essa faculdade especificamente. Outra coisa é que não foi só o meu imenso esforço que me fez chegar lá; pra falar a verdade, ele quase não fez parte da equação. Os elementos principais foram todos os privilégios ao meu redor: o fato de eu vir de uma família de classe média que pôde pagar colégios particulares minha vida quase toda; de eu morar em uma grande capital; de eu ser branca, entre diversos outros privilégios inerentes a mim – se quiser ler mais sobre isso, a Taís explica nesse texto como entrar em uma faculdade pública é algo muito além da minha vontade e esforço.

Só que eu queria outra coisa: eu queria o que eu tinha imaginado. Eu tive um monte de professores picaretas que me frustravam, encontrar estágio que me remunerasse bem foi difícil pra caramba, mesmo com faculdade pública no currículo. O próprio mundo acadêmico me oprimia demais com a eterna competição “ei, eu sou mais intelectual que você” ou “isso aqui é considerado arte e um estudo sério, isso aqui não”. Tudo me deixava muito confusa, parecia que quanto mais eu tentava estudar e fazer parte daquilo, de alguma forma eu ainda estava errada, deslocada. Pensei até em mudar de curso, mas no fundo eu sabia que aquilo não era o problema, eu sabia que eu queria fazer cinema; a forma como aquilo estava sendo passado para mim é que era o problema. A grande verdade é que eu não me adaptei ao mundo acadêmico, muito pela idealização ou simplesmente porque eu funciono de outra maneira. Só que não é permitido funcionar de outra maneira pra ter o “sucesso”, e quando você junta isso a uma mentalidade de “eu tenho que ser a melhor e perfeita” e “só vou ser feliz assim”, está pronta a receita para o desastre.

Então, o que eu fiz depois dessa frustração? Comecei a idealizar quando eu me formasse e conseguisse o emprego dos sonhos, ou seja, saí de uma idealização pra outra. “Porque lá fora vão me apreciar de verdade, lá fora vou conseguir fazer o que eu quiser. ” Adivinhem? Não deu certo. Consegui várias coisas que eu queria realizar, mas também tenho vários problemas que não imaginava para lidar. Eu costumava ver filmes com aquelas mulheres workaholics (viciadas em trabalho), que andavam carregando cafés do Starbucks com várias coisas para fazer, e pensava: “é exatamente isso que eu quero ser”. A verdade é que eu descobri que ser workaholic não é tão glamoroso assim, não nesse mundo. É difícil, é cansativo e, às vezes, suga todas as suas energias. Você pode amar o que faz, e eu sei que eu amo cinema, mas trabalho é trabalho, e por mais que eu tenha ouvido a vida inteira que só bastava amar sua profissão que tudo se resolve, não é bem assim. Existe um mundo de coisas que você não consegue controlar, e ter essa obsessão que eu carregava a vida toda que “eu preciso ser uma profissional brilhante” faz eu me culpar por coisas que estão fora do meu controle.

O grande problema é que vivemos nesse mundo capitalista onde nosso valor é constantemente medido pela nossa produtividade. A loucura do consumo faz com o que a gente tem às vezes defina o que a gente é. A corrida para chegar até o tal “sucesso” nunca termina, sempre acabamos querendo mais e mais. Como vivemos em um mundo onde a base é o dinheiro, esse “sucesso” mal ou bem está atrelado a isso, o que muda muito os valores que damos para cada trabalho, quando na verdade “sucesso” pode significar várias outras coisas. Quando treinamos pessoas desde criancinha que passar numa prova é a coisa mais importante da vida delas, tem alguma coisa errada. Principalmente quando passar nessa prova depende de vários outros fatores que vão além dela. Fica difícil viver quando ser o melhor é o que é mais fortemente propagado. Quando uma menina acredita que tem que provar constantemente que ela é inteligente para compensar qualquer coisa está tudo muito errado. Nesse clima de competitividade e individualismo não chegamos a lugar nenhum, só a uma juventude cada vez mais paranoica em que nada é suficiente.

Não quero que a gente pare de sonhar ao ler este texto. Eu ainda sonho com muita coisa, muita coisa que nem passava pela minha cabeça antes. Podemos continuar sendo workaholics, mas sabendo que nosso trabalho não precisa girar em torno da maior eficiência e do tal dinheiro. Eu trabalho muito na Capitolina e não ganho um centavo por isso, mas o que eu ganho é algo muito maior. Ter esse espaço, poder compartilhar ideias e crescer junto com outras mulheres é algo não tem preço, vai muito além de moedas. Ainda podemos ser megalomaníacas, porque a gente pode, sim, qualquer coisa, e o nosso lugar é onde a gente quer estar. Só temos que sempre reconhecer que o caminho é difícil e, na real, às vezes isso faz dele até melhor que o destino final. Precisamos parar de idealizar as coisas, de querer apertar o botão de avançar na vida e pular os momentos pesados, os momentos ruins, e achar que se a gente conseguir a coisa “x” tudo vai se resolver. Eu fico tão frustrada com as coisas que eu não consigo alcançar que esqueço de olhar pra trás e ver o que eu já conquistei: que sim, eu tenho um diploma de uma faculdade pública; que sim, eu pude ir ao cinema e ver meu nome subir nos créditos de um filme que eu fiz; que talvez eu já seja uma profissional brilhante e nem tenha me dado conta disso. Mas, mais que isso: que sim, eu sou uma pessoa brilhante e isso importa muito mais.

Dani Feno
  • Coordenadora de Audiovisual
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Música

Dani Feno, 26 anos. Quando era criança foi ao cinema ver Rei Leão a primeira vez e se apaixonou por essa coisa de ver filmes. Mais velha viu um seriado chamado Clarissa e pronto, a paixão passou para seriados também. Foi tão forte que agora trabalha em uma finalizadora de filmes e programas de TV, mas o que gosta mesmo é de editar vídeos para Capitolina. Gorda e feminista desde criança também (apesar de só saber que é esse o nome há pouco tempo). Acha que a melhor banda do universo é Arcade Fire e pode ficar horas te convencendo disso. Em Hogwarts é 70% Corvinal e 30% Grifinória.

  • Teresa Rocha

    Dani. Maravilhoso seu texto! É incrível como eu passei e passo pelas mesmas situações, mas achava que era só comigo. Dá um conforto enorme ler sobre suas angústias (não pelo seu sofrimento, claro) mas por saber que não estou sozinha. Essa separação da vida pessoal e profissional, essa coragem de olhar para si mesmo e se permitir a viver fluida e sem culpa são coisas que vem aos poucos mesmo, espero que cada vez mais meninas tenham a chance de descobrir. <3

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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