28 de dezembro de 2014 | Ano 1, Edição #9 | Texto: | Ilustração: Clara Browne
Quando nossos pais cobram demais

Dizem por aí que cada família é de um jeito. E é bem por aí mesmo. Tem família grande, família pequena, família meio desligada, família que cresce e família que diminui. Tem família que fala alto e tem também aquelas que falam de menos. Dentre todas essas modalidades de família, hoje vamos falar sobre uma específica: aquela que cobra demais.

Primeiro, uma pequena nota sobre esse “demais”. Quem nunca ouviu um “você não é todo mundo,” quando argumentava, depois de ter recebido uma resposta negativa a um pedido, “mas todo mundo vai”? Assim como cada família é de um jeito, cada filho é de um jeito e cada pai/responsável escolhe uma maneira de criá-lo.

A verdade é que existem várias maneiras de criar filhos e nem todo mundo decide fazer igual. E aí que filhos – que convivem com filhos de outros pais – passam a comparar entre si o jeito de cada família. Nessas horas, frequentemente parece que a nossa é a família mais chata. Sempre existe aquela amiga mais descolada, cujos pais a deixam, imagine, sair sozinha à noite!

(Nota: essa sua amiga realmente pode ser privilegiada por ter pais que a deixam fazer o que quer. Mas talvez esses mesmos pais tenham outras falhas, já parou pra pensar nisso? E o que os seus pais fazem de bacana que você sentiria falta se eles deixassem de fazer? O que você trocaria pela independência da cobrança?)

Confrontada com essa situação, não conseguia deixar de pensar que meus pais não confiavam em mim, por parecerem ficar o tempo todo vigiando cada passo que dava. Cobravam não só na escola, cobravam também diversos comportamentos, como dar sinal de vida diversas vezes ao longo do dia. Cobravam que eu não saísse tarde da casa das minhas amigas, cobravam que eu passasse muito tempo com a família e não fora de casa. Parecia que me cobravam dos pés à cabeça.

No quesito escola, vai fazer 10 anos, mas ainda lembro do dia em que cheguei em casa com a minha primeira nota de física, na então oitava série, hoje nono ano. Tinha tirado 8,9 de 10. Meu pai, sempre atencioso, me perguntou se estava precisando de ajuda, já que não tinha gabaritado a prova. Quando contei o que se passara para minhas amigas no colégio, no dia seguinte, riram. Disseram que os pais tinham comemorado a nota 6 delas. “Passar já é uma festa lá em casa,” me falaram.

Demorou muito tempo, mas entendi que a cobrança do meu pai nesse episódio, por mais absurda que fosse (Pai, realmente foi absurda), era carinho. Era o jeito dele de se oferecer para participar mais na minha vida. Na verdade não era uma cobrança, era mais falta de senso em como falar sobre o tópico estudar-junto.

O mesmo ainda se repete hoje. No meio da minha clausura de término da dissertação, ele nunca deixa de perguntar como estou avançado. E isso me irrita, porque encaro como cobrança, mas me controlo, porque sei que na verdade é uma pergunta retórica – ele só quer participar dessa parte da minha rotina, se fazer presente na minha vida. Demorou alguns anos para que eu o compreendesse e até hoje ainda reajo mal a essas perguntas, mas ele também continua sendo meio sem jeito para essas coisas – então criamos essa dinâmica onde ele pergunta, eu faço cara feia, ele ignora e seguimos a vida. Cada família é de um jeito, lembra?

Depois dessa história meio boba, fica aqui meu conselho sobre pais que cobram demais. Você tem total direito a ficar chateada. Mas talvez valha à pena parar e conversar, porque, quando você nasceu, não veio junto um manual de instruções sobre como te criar. Seus pais estão, em bom português, trocando o pneu com o carro andando.

Olhando pelo lado positivo, isso quer dizer que você pode ajudá-los nessa, negociar limites e cobranças, criar essas dinâmicas como a minha da cara-feia-que-é-ignorada-e-vida-que-segue. É importante fechar a cara e mostrar que você não gostou do comportamento deles? Sim. Mas isso só vai adiantar até certo ponto. Depois desse momento, já de cabeça fria, tente explicar o que você está sentindo e os seus motivos. Não é garantia da vitória, mas te garanto que eles não vão esquecer desse seu ato diplomático. Quem sabe, diante dessa nova demonstração de maturidade, eles não vejam que não precisam cobrar tanto, que você já começou a se cobrar também?

Agora, se isso não der certo (e pode não dar, lembra, cada família é de um jeito), de novo a melhor resposta não é sair só esperneando. Mas eu não tenho todas as respostas. Acho que o jeito é então focar no objetivo de realmente se tornar independente dos pais que cobram além da conta. Mas lembra da pergunta que fiz lá em cima? Tornar-se independente desses pais é deixar de receber tanto a cobrança quanto as coisas boas e mimos que eles te oferecem por ainda te enxergar como criança. Então tem que se pensar bem nessa equação.

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Ana Paula Pellegrino
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Ilustradora

Ana Paula tem vinte e poucos anos e a internet opina demais sobre sua vida. Mora com sua família no Rio de Janeiro. Prefere ficar em casa tomando chá sem açúcar a sair para lugares barulhentos. A não ser que o programa envolva comprar roupas. Ou livros. Apesar de destrambelhada, faz ballet; segue tumblrs de yoga e pensa demais. Ana Paula, mesmo sendo estranha, é feliz.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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