15 de setembro de 2014 | Ano 1, Edição #6 | Texto: | Ilustração:
Quando os contos de fada dão medo
Ilustração: Bia Quadros.

Ilustração: Bia Quadros.

Tá, eu já falei um pouco disto há alguns meses, quando fui reclamar desta cultura de sermos princesas. Mas garanto que os contos de fadas podem ser um assunto legal e interessante, e por isso vou repetir a dose, com um caminho um pouco diferente. 

Não, eu não estou falando de fadinhas fofinhas, bosques perfeitos e borboletas falantes (ok, borboleta falantes podem ser meio estranhas, deixa pra lá). Isso tudo faz parte da ideia de conto de fada que a gente tem hoje, em um modelo que já foi bem mastigado e suavizado com o passar do tempo e dos séculos. As histórias antigas eram barra pesada, juro para você. Pessoas feitas de gordura, mandados de morte, cabeças rolando, mentiras escabrosas, tudo isso e mais um pouco. 

Essas histórias antigas eu li de um livro da Angela Carter. Ela não é exatamente a autora porque, bom: 1) ela nasceu em 1940, ou seja, ela é recente pros parâmetros literários; 2) essas histórias antigas são histórias orais. 

Então o trabalho dela consistiu em pesquisar, correr atrás, coletar e compilar esses contos de fadas de diversos lugares do mundo. É uma tarefa dificílima, pensa só: se as histórias são orais, como se faz para saber qual versão está certa? Se é a da Dona Maricota ou a da Dona Adalgisa? Ao mesmo tempo em que é muito difícil, é também muito interessante. Em um mundo devorado por direitos autorais e astros das artes, é bonito saber que existem histórias que simplesmente não têm dono. E mais ainda! Que não precisa ser alfabetizado, vir de família intelectual, ter a tal “bagagem cultural” para cultivar novos contos de fadas.  

Deixo aqui um trecho da Angela (ai, como somos íntimas!) sobre isso, pois ela, além de ótima na pesquisa e na escrita, sabe também ser muito divertida: 

Podemos saber o nome e o gênero de determinado indivíduo que conta determinada história simplesmente porque a pessoa que o recolheu o anotou, mas nunca poderemos saber o nome da pessoa que inventou a história. […] Quem teria inventado as almôndegas? Em que país? Existe uma receita definitiva para a sopa de batata? Pensemos em termos de culinária: “É assim que eu faço sopa de batata.”

Mas se por um lado a oralidade é linda assim, por outro possibilitou que as nossas culturas modernas e ocidentais se apropriassem de tudo quanto é história. A noção de conto de fadas que temos hoje é aquela em que tudo começa com um “era uma vez” e termina com “e foram felizes para sempre”. Foi assim que a Disney nos ensinou, foi assim que nossos livrinhos infantis nos ensinaram, distorcendo os enredos, moldando-os para se adequarem a uma cultura que é ocidental, e não universal (até porque o que é universal em um mundo tão cheio de detalhes e especificidades, não é mesmo?).

Folheando o livro da Angela Carter, que por sinal é bem pequenininho, vejo contos de fadas cujas origens passam pelos povos togoleses, inuítes, chineses, letões, malauís, egípcios, armênios, russos, e por aí vai. Vale a pena descartar tudo isso, toda essa cultura, selecionar as mais “maleáveis” e impor novas versões como se fossem verdades absolutas? 

Se eu não tivesse achado a Angela Carter em uma promoção pela internet, ou não tivesse assistido às aulas sobre oralidade do meu professor da faculdade (que fugia do programa de aula e falava de coisas que nenhum outro professor falava), continuaria achando que os contos de fadas são aquela coisa pé no saco (e olha que eu nem tenho saco!) das princesas em busca do amor romântico – e que, além de tudo, ainda faz muito mal ao nosso crescimento enquanto meninas-que-vão-virar-mulheres, porque nos limita sem nem percebermos. 

Ainda bem que descobri a tempo que os contos de fadas podem dar medo e ter muito mais história para contar. Eu nem gosto de sentir medo, mas esse tipo de contos de fadas é diferente. Ele faz a gente ter vontade de conhecer mais e, assim, se envolver naquele universo estranho e misterioso, cheio de feitiçarias. 

Termino esse texto esquisito com mais um trecho da Angela Carter, porque, quando fico vidrada em alguma escritora, eu quero que t-o-d-o m-u-n-d-o leia! Então aí vai:

As histórias deste livro, praticamente sem exceção, têm suas raízes no passado pré-industrializado e em concepções arcaicas a respeito da natureza humana. Nesse mundo, o leite vem da vaca, a água vem do poço, e só a intervenção do sobrenatural pode mudar as relações entre homens e mulheres e, acima de tudo, a atitude das mulheres em relação à própria fertilidade. Não ofereço estas histórias movida pela nostalgia; o passado foi duro, cruel e especialmente hostil para as mulheres, por mais desesperados que tenham sido os estratagemas que usamos para fazer as coisas um pouco à nossa maneira. Eu as ofereço, isso sim, como quem se despede, para que lembrem quão sábias, inteligentes, perspicazes, ocasionalmente líricas, excêntricas, às vezes totalmente loucas, eram nossas bisavós e suas bisavós; e para que lembrem também as contribuições, para a literatura, de Mamãe Gansa e seus gansinhos.

Helena Zelic
  • Coordenadora de Literatura
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Helena tem 20 anos e mora em São Paulo. É estudante de Letras, comunicadora, ilustradora, escritora e militante feminista. Na Capitolina, coordena a coluna de Literatura. Gosta de ver caixas de fotografias antigas e de fazer bolos de aniversário fora de época. Não gosta de chuva, nem de balada e nem do Michel Temer (ugh).

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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